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A verdadeira barreira contra os populistas se chama Papa Francisco

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29 Março 2017

Ninguém em Roma para marchar contra ou a favor da Europa. Todos em Milão pelo pontífice, que se lança contra a Europa do medo. O sucesso de multidão do papa “pop” mostra a desorientação em que caíram tanto o populismo, quanto a política “tradicional”, e ainda o sistema de informação.

A reportagem é de Flavia Perina, publicada por Linkiesta, 27-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Há uma duríssima lição para a política e para a mídia no último fim de semana, uma lição dada pela comparação – que todos notaram – entre as colossais multidões mobilizadas pelo papa na sua jornada em Milão e a risível participação popular nas manifestações antieuropeias realizadas em Roma, que também tinham sido anunciadas como temíveis, enormes, provavelmente violentas e tinham se beneficiado de uma campanha publicitária muito intensa.

Não é a primeira vez que isso acontece. Há muito tempo, as pessoas, as multidões – as massas, se diria antigamente – se movem de repente para eventos imprevisíveis e imprevistos, totalmente fora da agenda dos partidos e do sistema da comunicação. De acordo com essa agenda, no centro da preocupação e, portanto, da mobilização popular, deveriam estar os temas ditados pelo populismo e pelo chamado soberanismo, de direita e de esquerda: insegurança, imigração, mas especialmente crítica à Europa e, às vezes, ódio pela Europa.

Um sentimento que se representa como esmagador e disseminado a tal ponto que até mesmo os líderes de partidos de governo, de Matteo Renzi a Silvio Berlusconi, nos últimos anos, julgaram ser indispensável acompanhá-lo, participar dele às vezes com propostas estrambólicas, a fim de recuperar consenso.

É uma percepção da realidade que parece ser, à luz dos acontecimentos do fim de semana, de muito pouco fundamento. E isso não tem a ver apenas com o inegável carisma de Francisco. Em setembro do ano passado, descobriu-se de repente, graças a colossais manifestações na Alemanha – um país pouco afeito ao protesto –, que um tema lateral e julgado como “especializado”, como o TTIP, o tratado de livre comércio Europa-Estados Unidos, era, na realidade, bem conhecido e muito odiado por grandíssimas camadas da população, prontas para sair às ruas para parar os governos (que, de fato, pararam).

No dia 26 de novembro, na Itália, 100 mil mulheres invadiram Roma para um protesto contra a violência, uma marcha da qual ninguém tinha previsto a consistência, pouco publicizada, não apoiada pelas costumeiras “máquinas da participação” sindicais ou políticas que, naquele momento, estavam ocupadas com um referendo constitucional.

E, da mesma forma, em anos anteriores, a política e a mídia foram surpreendidas por fenômenos de massa, como os Indignados, ou o Occupy Wall Street, que, de um dia para o outro, revelavam a existência de sentimentos tão enraizados e fortes a ponto de romper o habitual desencantamento da Aldeia Global e empurrar as pessoas a se vestir, sair de casa, participar “fisicamente” de algo, em vez de limitar a adesão a alguns cliques.

Ora, o que nos surpreendem são as massas que se movem para ouvir Francisco pessoalmente. E o seu discurso pelos 60 anos da Europa – aquele em que ele adverte contra a cultura do medo, do egoísmo, da defesa pequena do próprio quintal – não é apenas o mais “alto” e convincente, mas também o mais participado. Aquele que pode reivindicar o maior e mais visível consenso popular, enquanto os autointitulados “porta-vozes do povo” permanecem isolados nos seus nichos rancorosos ou na sua estéril visibilidade social.

A política teria o dever de aprofundar, em vez de se limitar à explicação confortadora do “papa pop” (como se intitula a última edição da Rolling Stones, colocando-o na capa em uma pose à la Fonzie). Ela deveria, por exemplo, interrogar-se sobre o consenso efetivo dos chamados populismos e soberanismos e, mais em geral, sobre toda a narrativa antieuropeia: quanto dele corresponde realmente a um sentimento generalizado e quanto está relacionado com uma rendição cultural das elites, com o seu “dar por descontado” que esse é o campo onde se deve competir?

Angelo Panebianco nos explicou, recentemente, que as hegemonias político-culturais não nascem necessariamente a partir da força e da inteligência de quem as constrói e as cavalga sem escrúpulos, mas, muitas vezes, a partir da rendição de quem deveria cultivar um pensamento crítico e sugerir outros caminhos, outras soluções.

Na Itália, essa rendição é mais evidente do que em outros lugares porque não há nenhuma área que se isente da perseguição da xenofobia, da abordagem securitária aos problemas, da lógica da suspeita e do medo e, naturalmente, da narrativa da Europa madrasta, na convicção de que o consenso agora só pode ser conquistado assim, falando para as famosas “barrigas do país”.

Depois da jornada de sábado, depois de ver, de um lado, o populismo sem povo e, de outro, as colossais multidões reunidas em torno desse papa e da sua mensagem totalmente contracorrente, seria necessário levantar algumas dúvidas.

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