"Perdoa-nos assim como nós perdoamos". Comentário de Eduardo de la Serna

Foto: Stephanie LeBlanc/Unsplash

11 Setembro 2026

O comentário é de Eduardo de la Serna, comentando o Evangelho do 24º Domingo do Tempo Comum, ciclo A, publicado por Religión Digital, 07-09-2026.

Eduardo de la Serna é padre argentino e membro do Grupo de Padres na Opção pelos Pobres.

Eis o artigo.

Leitura do Livro de Sirácide 27,30-28,7

Resumo: A pessoa sábia deve examinar suas próprias ações à luz de sua morte e sua vida em fidelidade aos mandamentos, a fim de esperar a mesma atitude de Deus para com as suas.

Após uma série de referências à amizade, à linguagem e à lealdade, o autor de Sirácide menciona a vingança como uma consequência comum do ressentimento.

Mas, como é costume em Israel, a retribuição de Deus será "igual" (literalmente, "talão"). Deus se vingará dos vingativos e perdoará aqueles que perdoam.

A linguagem, a fala, é — mais uma vez — um tema importante. E a referência a Deus e aos mandamentos revela uma literatura sapiencial mais teológica do que obras anteriores (como Provérbios). Refletir sobre a vida e a morte à luz do que esperamos que Deus faça em nossa existência é uma reflexão sobre o que devemos fazer e uma manifestação de sabedoria. O Deus “rico em misericórdia” agirá de acordo com nossas atitudes para com os outros.

Leitura da carta de São Paulo aos cristãos de Roma 14,7-9

Resumo: A vida e a morte dos cristãos não são algo "pessoal", mas Cristo, como Senhor, lhes dá sentido.

Paulo estava falando sobre o relacionamento com o “Senhor” na vida cotidiana, “comer/não comer”, e resume tudo isso com “viver-morrer”. Viver “para si mesmo” ou “morrer para si mesmo” é um tema clássico nos mundos grego e judaico. Representam uma motivação “externa” para viver.

Em Paulo, a vida e a morte frequentemente aludem à morte e ressurreição de Cristo, mas esse não parece ser o caso nesta unidade.

A vida e a morte “para o Senhor” conferem outro “significado”, o de pertencimento. Isso é frequente no Antigo Testamento, especialmente em Levítico (1,9, 10, 13, 14; 2,1, 2, 8…) e nos Salmos (2,11; 12,16; 15,2…). O que o texto não esclarece até este ponto é se por “Senhor” devemos entender Deus (como nos textos mencionados; cf. Rm 11,3, 34; 12,19) ou Cristo (Rm 10,9; 13,14).

O parágrafo final refere-se explicitamente à morte e à vida (= ressurreição) de Cristo (os tempos aoristos referem-se cada um a um momento específico) para que ele possa “reinar” sobre os mortos e os vivos. Fica agora explicitamente claro que Paulo, ao usar “Senhor” nesta passagem, está se referindo a Cristo. “Cristo é o Senhor” constitui uma das principais confissões de fé do Apóstolo (cf. 1 Coríntios 12,3; Filipenses 2,11). Todos os cristãos pertencem a ele, e isso dá sentido às suas vidas e às suas mortes.

+ Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 18,21-35

Resumo: Começando com uma pergunta de Pedro sobre o perdão, Jesus contrasta o imenso perdão de Deus para com os seres humanos, exigindo a mesma atitude deles para com seus irmãos na comunidade.

O capítulo 18 de Mateus é marcado pelas relações internas dos membros da comunidade. Assim, encontramos a recorrência de termos como “pequeninos” (vv. 4, 6, 10, 14) e “irmãos” (vv. 15, 21, 35) no contexto da “comunidade” (ekklêsía, v. 17). O que acontece dentro da comunidade e como seus membros agem é o tema deste capítulo.

Mas não é possível ignorar que ao longo do bloco, tanto na sua parte narrativa (capítulos 14-17, a partir de 13,53) como na parte discursiva (capítulo 18), a figura de Pedro é destacada como porta-voz da “ekklêsía” e como seu apoio (16,18; ver 16,19 e 18,18).

Na primeira referência a um “irmão” (18,15), Jesus se refere ao seu “pecado” (hamartêsê), que implica um ato específico e malicioso que separaria o perpetrador da comunidade. O membro da comunidade deve buscar sinceramente reconquistá-lo como “irmão”, e mesmo que ele escolha permanecer fora, sua readmissão deve ser tentada (“um gentio ou um publicano”, v. 17). É nesse contexto que Pedro pergunta “quantas vezes” ele deve perdoar os pecados (posákis hamartêsei) de “meu irmão” (com o qual ele se refere expressamente ao membro crente da comunidade).

A importância de Pedro e a elaboração da unidade sugerem que Mateus expandiu um texto do Evangelho Q:

Se teu irmão pecar, repreende-o; e, se ele se arrepender, perdoa-lhe. Mesmo que peque contra ti sete vezes no dia, e sete vezes volte a ti, dizendo: ‘Arrependo-me’, perdoa-lhe.” (Lucas 17,3-4)

A referência a “sete” (ver Provérbios 24,16) indica “sempre”. A expansão vem da ultrapassagem dessas “sete vezes” (heptakis) para “setenta vezes sete” (hebdomêkontákis heptá). Leitores frequentes da Bíblia — como era o caso da comunidade de Mateus — reconheceriam neste “ setenta vezes sete ” uma referência a Lameque (Gênesis 4,24), a única vez que o termo hebdomêkontákis heptá aparece novamente ali.

Lameque disse às suas mulheres: “Ada e Sila, ouçam-me; mulheres de Lameque, prestem atenção às minhas palavras: Matei um homem por me ferir, um jovem por me golpear. Na verdade, Caim será vingado duas vezes sete, mas Lameque, setenta e sete vezes.” (Gênesis 4,23-24; o hebraico “setenta e sete” é transformado em setenta “vezes” sete com o sufixo “-kis”, vezes, na tradução grega)

A violência que começou com Caim atinge seu ápice com seu descendente Lameque (a referência a Caim mostra que a unidade iniciada em Gênesis 4:1 termina aqui). A violência cresce exponencialmente.

Matthew quer mostrar que, com o perdão, a fraternidade dentro da comunidade deve crescer exponencialmente, quebrando assim a espiral de violência.

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Mas, para ilustrar isso, ele usa uma parábola do reino. Esse reino é “comparado” a um rei em sua maneira de agir. Trata-se de “acertar contas” (synairô, um termo exclusivo de Mateus, veja 25,19). Mas não é isso que se assemelha ao reino. Na realidade, apenas um devedor do rei é mencionado, que deve uma soma exorbitante, “dez mil talentos” [cerca de US$ 1.000.000.000]. O desfecho inicial reforça o drama; para cobrar a dívida, o rei ordena a venda do servo e de sua família para recuperar (algo). O servo se prostra aos pés do rei e implora: “Tenha paciência, e eu lhe pagarei tudo”. Visto que este é um rei que é comparado ao “reino dos céus (= Deus)”, ele “ tem compaixão ” dele, seu coração se comove (splagkhnizomai), ele o liberta e perdoa a dívida.

Agora livre, ele encontra um companheiro de trabalho que lhe devia cem denários (cerca de US$ 1.000). Este companheiro exige o pagamento, estrangulando-o. Ele também se prostra a seus pés e implora por paciência para pagar, mas o companheiro o mantém preso até que pague tudo.

Até aqui, o contraste entre as duas atitudes [o contraste de atitudes é característico das "parábolas de dois personagens", como neste caso]. Mas a história continua: outros "companheiros de serviço" ficaram "extremamente tristes" e foram contar isso ao "senhor", que repreende o servo: "Servo mau! Eu perdoei toda a dívida porque você me implorou (parakaléô). Não deveria você ter tido compaixão (eleéô) do seu companheiro de serviço, assim como eu tive?" Então, tomado pela raiva, entregou-o aos torturadores até que pagasse toda a dívida.

O versículo 35 é a conclusão de Jesus para toda a parábola, aludindo (típico de Mateus) a "meu Pai que está nos céus" caso eles não perdoem seu irmão (com o que o texto termina como havia começado).

Mas, para uma melhor compreensão, é importante observar alguns detalhes da parábola:

O "talento" é uma unidade de peso, cerca de 35 kg (obviamente, pode ser feito de cobre, prata, ouro, etc.). O "denário" (cerca de 3,5 gramas) corresponde a um dia de salário. Imaginando um dia de salário em torno de US$ 10, apresentamos o contraste: 1.000.000.000 e 1.000. A desproporção é evidente.

É fácil imaginar que a segunda dívida, com alguma dificuldade, era pagável, mas a primeira era impossível de ser quitada.

É interessante notar que ambos os devedores recorrem à mesma "estratégia": prostrar-se aos pés e pedir paciência, o que reforça a maldade daquele que não perdoa.

A conclusão de Jesus nos remete ao texto do "Pai Nosso":

“Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal. Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas” (Mt 6,12-15).

Poderíamos dizer, de certa forma, que Mateus apresenta essa parte da oração de Jesus na forma de uma parábola.

Uma última observação sobre “dívidas”. As dívidas financeiras eram, sem dúvida, significativas — e sérias — na época de Jesus. Os camponeses perdiam suas terras para credores inescrupulosos e tinham que se vender como trabalhadores ou mesmo escravos para garantir seu sustento. É sabido que, quando o movimento zelote surgiu (66 d.C.) para obter o apoio dos camponeses, eles incendiaram o escritório de impostos onde as dívidas eram registradas (Josefo, A Guerra Judaica 17). Jesus frequentemente se refere a “ dívidas ”, e estas geralmente são financeiras (ver Lucas 7,41; 16,5). É evidente que, neste texto, ele se refere a “dívidas com Deus”, ao “pecado” e ao perdão mútuo de “ofensas”, mas a imagem da dívida financeira — particularmente no contexto histórico de Jesus e na simbologia da parábola — não pode ser ignorada. A atmosfera de fraternidade/sororidade que deve caracterizar a ekklêsía deve incluir o perdão de todos os tipos de dívidas, não apenas de “ofensas”. Nesse sentido, alguns de nós lamentam o desaparecimento da palavra “dívidas” na tradução da Oração do Senhor.

Contudo, um elemento permanece chocante e acrescenta uma nova dimensão à compreensão do texto: se perdoar "setenta vezes sete", e se este rei fosse a imagem de Deus, como inicialmente parecia, então este rei não o faz; ele perdoa apenas uma vez! Além disso, surge uma questão: quem poderia dever tanto dinheiro quanto 10 mil talentos? A imagem da dívida para com um rei é facilmente compreendida em sua época, assim como o contexto: os líderes das cidades deviam pagar periodicamente ao rei os impostos arrecadados de toda a cidade. Como senhores da vida e da morte, eles podiam decidir, aprisionar ou até mesmo, ocasionalmente, perdoar, para que todos testemunhassem sua magnanimidade. Ademais, a característica marcante deste rei é a sua ira e o fato de ordenar a tortura daqueles a quem não perdoou; ele é muito diferente de Deus. Mas aqui reside a chave; Se um rei com características tão cruéis (como era típico dos reis de sua época) foi capaz de perdoar uma dívida imensa, quanto mais Deus fará e, portanto, quanto mais nós, como "irmãos e irmãs", devemos fazer? O perdão (incluindo dívidas financeiras, é claro) deve ser uma característica definidora dos seguidores de Jesus.

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