No deserto, com as bestas e os anjos

Foto: ocantonaliturgia.blogspot

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

19 Fevereiro 2018

Um grupo de alunos da Graduate Theological Union, de Berkeley, Califórnia, identificado como LGBTQ+ ou que estão envolvidas em pesquisas teológicas e/ou no ministério LGBTQ+, elabora reflexões espirituais para o tempo da Quaresma e que são publicadas por Bondings 2.0, de New Ways Ministry.

O artigo abaixo é de John Michael Reyes, mestre em teologia pela Faculdade de Teologia da Universidade de Santa Clara, instituição jesuíta. A sua formação espiritual, a sua vida comunitária e o seu coração está com a Faculdade de Teologia, em Berkeley, instituição franciscana atualmente lotada em Oceanside, também na Califórnia. Reyes serviu como capelão, liturgista e hoje trabalha na pastoral universitária da Universidade de Santa Clara, especialmente na formação sacramental e liturgia. É natural de San Francisco e gosta de praticar exercícios físicos na academia Orange Theory Fitness. É também um paroquiano da paróquia Most Holy Redeemer, em San Francisco.

O artigo é publicado por New Ways Ministry, 08-02-2018. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Enquanto reflito sobre as leituras do 1º domingo da Quaresma, nem o deserto nem a arca de Noé estão a falar tão alto comigo quanto o fizeram nos últimos anos. Pelo contrário, a menção a bestas selvagens e anjos é que ressoa com força.

O Evangelho foca em Jesus a fazer coisas por si mesmo: após ser batizado, vai para o deserto. Muitos biblistas associam isso a um retiro para Jesus se focar nas tarefas importantes que teria pela frente. De certo modo, esse retiro é como aquilo que os cristãos fazem ao se prepararem para a Páscoa, para cumprir aquela tarefa importante de, uma vez mais, dizer: “Sim, prometo” às promessas de Páscoa quando nos renovamos em nossa humanidade ordinária tornada extraordinária pelo batismo.

 (Foto: Lambeth Apocalypse/ Wikimedia Commons)

O Evangelho faz questão de dizer que Jesus não estava sozinho no deserto. E eu me consolo nisso. Consolo-me porque as menções a bestas selvagens e anjos refletem como desejo viver e rezar a Quaresma este ano. Percebo a importância da comunidade porque a minha humanidade está mais palpável do que o normal.

No outono de 2017, tive uma experiência quaresmal: a volta da depressão. Ausentei-me do trabalho para focar em mim mesmo. Pessoas LGBTQ+ devem se confrontar com o estigma e com o preconceito com base na orientação sexual delas ou na identidade de gênero, e algumas devem também lidar com os preconceitos sociais contra transtornos de saúde mental. Penso nos muitos LGBTQ+ que se perguntam: “Será que a Igreja (ou Deus) acha que existe algo errado comigo?” Por causa da depressão e de minha identidade, considerei esta questão.

Nas semanas de tratamento, encontrei outros que partilhavam da minha experiência: temos feridas que precisam de cura. Eu não estava sozinho. Por vezes, tratei a experiência como um retiro: fiz silêncio e observei. Tive a oportunidade de ouvir pessoas que sofriam por um amplo leque de problemas. E, mesmo assim, juntos, expressamos que queríamos vivenciar como é se sentir com esperanças novamente.

Aos poucos, vivenciei aquilo que as pessoas que irão passar pelo ritual da iniciação cristã para adultos (especificamente, os Eleitos: aqueles candidatos que, no começo da Quaresma, manifestam o desejo de se batizarem na Páscoa) terão em algumas semanas, quando passarem pelos Escrutínios: rituais para desvendar os pontos fracos, e fortalecer o que é bom.

Na medida em que progredia em minha cura, notei as coisas que me colocavam para baixo e as trouxe para a luz do dia. Na medida em que ouvia os outros passarem pelo mesmo processo, senti que eu era aquele discípulo cujo coração ardeu numa primeira Páscoa, quando alguém compartilhou a sua história de encontro com o Jesus Ressuscitado. Não pude deixar de perguntar: “Você se sente assim também?” Algumas palavras saíram como bestas selvagens e outras foram recebidas como anjos a ministrar para mim. Sabendo ou não sabendo, com as nossas vidas proclamávamos que o Reino de Deus está próximo: queremos melhorar e estamos aqui para fazê-lo acontecer! Como pessoa de fé, quis que meu coração me dissesse honestamente de novo: “Você é um amado de Deus”.

Dias atrás, lembrei-me da necessidade de ser gentil comigo mesmo, de que não estou só ou sem amigos, e que eu importo. Preciso lembrar que Deus faz parte da minha caminhada quaresmal e que, na medida em que a comunidade se reúne a cada domingo, tornamos presente o Cristo que caminha conosco.

A Quaresma é renovação: batemos a sujeira de nossos corações e lembramos que somos amados e queridos. Esta mensagem de amor é a aliança profunda, duradoura e curativa que Deus simbolizou através do arco-íris com Noé, e que Deus continuamente renova para nós com a Eucaristia. Para Jesus, cura significa que, mais uma vez, fazemos parte, que a nossa vida importa na comunidade.

Que tenhamos o apoio para nos ajudar a rezar, jejuar e ofertar de forma a celebrar o tempo de Quaresma com um propósito renovado. Que nesta Quaresma possamos nos convidar para celebrar a temporada com os outros. Ao invés de sermos individualistas, que consigamos perceber que esta é uma caminhada comunal em direção à única fonte batismal, onde toda vida se renova. Tomara que possamos nos convidar a isto antes mesmo de pensar vestir os nossos panos de saco individuais.

Leia mais