A fissura da bipolaridade agambeniana e uma revelação do ser

Colby Dickinson | Foto: João Vitor Santos/IHU

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Por: João Vitor Santos | 24 Mai 2017

Um dos méritos das reflexões de Giorgio Agamben está em sua capacidade de discutir o nexo político e teológico que fundamenta o sujeito ocidental como conhecemos. É com essa perspectiva que Colby Dickinson introduz sua fala na abertura do VI Colóquio Internacional IHU – Política, Economia e Teologia. Contribuições da obra de Giorgio Agamben, na manhã de terça-feira, 23-5. O evento, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, segue nesta quarta-feira, 24-5, com mais duas conferências. O professor da Loyola University, de Chicago, nos Estados Unidos, recupera obras do filósofo italiano para tentar apreender a essência do sujeito contemporâneo ocidental. Uma das perspectivas é a de que dentro da secularização acabam se criando amarras teológicas.

Dickinson recupera que a secularização está no cerne da economia. Mas, dentro dessa lógica secular, acabam se criando perspectivas muito próximas à presença e ao reverenciamento de um Deus. Podemos pensar, por exemplo, dentro da economia secularizada, o “deus dinheiro”. O professor sugere uma metáfora com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – de quem faz questão de destacar que não se orgulha –, para demonstrar como o secular encontra eco na perspectiva religiosa. “Trump não tem crença religiosa e não demonstra acreditar em nenhum deus. Seu deus é ele mesmo ou talvez o mercado. Agora, observe como ele foi um dos presidentes eleitos que mais recebeu votos de cristãos, especialmente evangélicos”, provoca.

Na sua palestra, o professor mergulha fundo nos escritos de Agamben para demonstrar como ele sai da complexidade teológica da trindade até chegar à ideia de bipolaridade que faz girar a máquina contemporânea. “Agamben se baseia na divisão essencial entre estado e ação. Ele pensa um ser trinitário diferente da trindade cristã, vendo uma espécie de fusão dualística da trindade com uma representação na binariedade”, analisa Dickinson. Nessa lógica, passa a haver uma figura de um soberano que não pode ser erradicado. “E o poder soberano do rei está associado ao aparato burocrático. Soberania é governamentalidade. É para isso que Agamben olha em O Reino e a Glória (São Paulo: Boitempo, 2011)”, pontua.

Dualidade entre soberania e lei


A conferência de Colby Dickinson abriu o  VI Colóquio Internacional IHU – Política, Economia e Teologia. Contribuições da obra de Giorgio Agamben

(Foto: João Vitor Santos | IHU)

É da figura do soberano que deriva uma primeira perspectiva da bipolaridade apresentada pelo professor a partir da obra de Agamben. Para compreender melhor, Dickinson chama atenção para o fato de que o soberano está em conflito com o Estado, ou com as leis do estado. E com isso se distancia dos assuntos de governança, que ficam a cargo do aparato burocrático do estado. Tal perspectiva coloca as leis e seu aparato como fundamentais para se exercer o controle e a governança, mas, ao mesmo tempo, o soberano se coloca acima das leis. “Olhando para a bipolaridade entre masculino e feminino, podemos compreender o soberano como a figura do pai, aquele que decide, e a da mãe, aquela que na prática dirige a oikonomia”, explica.

Assim, a decisão do soberano sempre vai ser necessária, embora não operacional. Para Dickinson, o verdadeiro soberano tem consciência disso e, inclusive, legitima a si mesmo e as suas ações pela mesma lógica. “Agimos assim por que tivemos de agir. Éramos nós que precisávamos agir, dizem esses líderes soberanos”, exemplifica o professor. Uma associação possível trazida por Dickinson é a figura do super-herói Batman, em mais um de seus filmes recém-lançados. O chefe de polícia se anuncia como imperativo da lei, ou a própria lei. “Mas é o Batman que é o soberano porque está acima da lei. E é soberano porque é rico, é o homem, o herói, por vários fatores. Embora traga justiça, ele age acima da lei”, analisa. Assim, fica claro como o soberano precisa do imperativo da lei para pensar em ordenamento e governança. “E no filme isso fica muito claro quando a saída se coloca como o casamento, a associação entre os dois, o que acaba frustrando as duas partes”.

Na fissura, a revelação

Colby Dickinson segue por meandros do pensamento agambeniano para pensar que, da fissura entre a relação desses campos polares, como masculino e feminino, homem e animal, soberano e o estado, entre outros, pode haver sinais interessantes. Quem sabe, propõe ele, é dali que se é capaz de revelar o verdadeiro sujeito. Isso porque Agamben também trata da falha ou inabilidade e limites da representação. Ou seja, no momento em que não se consegue representar um deus, é justamente nesse instante que ele se revela. Como exemplo, traz a história de seu filho que vibra e se enaltece como um soberano ao fazer um gol no time adversário que chora a derrota. “Mas não é nesse momento que vejo verdadeiramente meu filho. Eu o vejo de verdade quando não consegue o que quer, atingir seu objetivo. Quando perde o gol da vitória e chora por essa falha. O resto é representação”, reflete.

Atravessando a perspectiva de Dickinson para a polaridade entre masculino e feminino, seria possível somente se ter ideia da clara e verdadeira representação daquele sujeito homem quando não consegue se revelar como masculino. “É quando ele não está representando o masculino, pois quando está, é tudo só representação e não o eu verdadeiro”, reitera. Com essa provocação, o professor encerra sua fala, ainda propondo que se pense nessa perspectiva dentro até mesmo do âmbito do cristianismo. “O cristianismo, seguindo com Agamben, chega a um fracasso de mostrar e representar Deus, mas, nesse fracasso da representatividade, coloca-se numa aproximação com Deus."


Colby Dickinson | Foto: João Vitor Santos| IHU

Quem é Colby Dickinson

Professor de Teologia na Universidade Loyola, em Chicago. É autor de Agamben and Theology (London: T&T Clark, 2011) e Between the Canon and the Messiah: The Structure of Faith in Contemporary Continental Thought (London: Bloomsbury, 2013) e de vários artigos sobre a filosofia e teologia continental contemporânea. É editor de The Postmodern ‘Saints’ of France (London: T&T Clark, 2013) e The Shaping of Tradition: Context and Normativity (Leuven: Peeters, 2013).

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