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18 Mai 2017

Raimon Panikkar, desaparecido em 2010 aos 92 anos, em sua intensa vida ensinou na Índia, Europa e Estados Unidos; conviveu com Mircea Eliade e Martin Heidegger, entre muitos outros. A Jaca Book, desde o início deste século, está publicando suas obras completas (editadas por Milena Carrara Pavan), livros que chegam ao público em catalão, francês, inglês, espanhol e italiano.

A reportagem é de Armando Torno, publicada por Il Sole 24 Ore, 14-05-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.


Raimon Panikkar. Kierkegaard e Sankara.
La fede e l’etica nel cristianismo e nell’induismo,
Ed. Jaca Book, Milano, p. 112, € 16. 

Há pouco foi publicada a transcrição de um de seus cursos ainda inédito - com uma seleção de diagramas e gráficos sintéticos elaborados pelo próprio Panikkar e que serviram de base para as aulas - ministrado na Pontifícia Universidade Lateranense, no ano letivo 1962-1963. Nele, o grande teólogo confrontava a cultura ocidental com a oriental; ou melhor, o cristianismo e o hinduísmo. Dois mundos com aquisições intelectuais "profundamente diversas, embora complementares". O nosso caracteriza-se, afirma Panikkar, "pela primazia do princípio da não-contradição", o indiano "pela primazia do princípio de identidade". Duas dimensões distanciadas entre si, como também são distantes as religiões que as representam; no entanto, ressalva o teólogo, seu encontro (ou talvez "inevitável confronto") que ocorreu no mundo contemporâneo "pode fecundar o presente".

Duas figuras emblemáticas são escolhidas como símbolos: Kierkegaard e Sankara. O primeiro é o filósofo que se torna "Ministro da Igreja dinamarquesa com funções paroquiais" e que, mais tarde, "rompe com sua confissão e morre sem se reconciliar com ela"; o segundo é um brâmane nambudiri do Sul da Índia que "peregrinou durante toda a sua vida" e cuja pregação acontecia "com uma série de discussões com todos aqueles com quem se encontrava".

Panikkar, depois de lembrar que "o homem não pode viver sem moral e sem fé", examina o percurso de Kierkegaard. Nele capta uma exigência: "Se o homem quer chegar ao Absoluto deve pôr de lado a lei, se quer chegar ao Geral, deve superar a ética. Para a objeção de que isso é imoral, a resposta é que a ética não deve ser negada, mas superada". Surge então a questão: como suspender a ética? Isto, em poucas palavras, é o problema da fé. A história de Abraão que obedece a Deus e está prestes a sacrificar seu filho Isaque serve como guia para o teólogo que quer focalizar a problemática colocada por Kierkegaard. Para Sankara, no entanto, tal salto não pode acontecer, porque falta a base; ou melhor, "porque o ego, que era necessário para executá-lo, em última análise, não existe". Se para o filósofo dinamarquês a questão fulcral parece ser: "Quem deve ser salvo?", para o brâmane este "quem" é o ego; no entanto, Sankara irá dizer "que o ego é contingente, e como tal não pode ser salvo". Para que isso aconteça, "deve abandonar a si mesmo, ou seja, desaparecer; se este ego tem uma camada mais profunda que está além deste ser, ele já está salvo, porque é o sujeito último, é o Absoluto, que não pode ser salvo, porque já o está".

Estes são apenas breves acenos de um caminho fascinante e nada fácil. Nascem de um teólogo que se graduou em química e em filosofia e que se tornou padre católico em 1946, vivendo dentro de si próprio o infinito laço entre Oriente e Ocidente.

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