Ser anticapitalista hoje, uma questão de sentido comum

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Por: Jonas | 06 Março 2016

“Fazer o comum dos mortais compreender que a esfera econômica não pode crescer acima da esfera ecológica (não sem antes se comportar como um câncer) é, por simples de entender que possa parecer, um dos maiores desafios que a ciência e a educação do novo milênio enfrentam”, escreve Mateo Aguado, pesquisador e professor visitante da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO-Equador), em artigo publicado por Rebelión, 02-03-2016. A tradução é do Cepat.

Segundo ele, citando Juan Carlos Monedero, "nos dias atuais, é muito mais factível se tornar anticapitalista a partir de posições ambientalistas, que a partir de posições marxistas. A inviabilidade de um sistema que advoga pelo crescimento constante, em um mundo que é limitado, é algo muito mais fácil para as pessoas normais compreenderem, que a tendência descendente da taxa de lucro ou o fetichismo da mercadoria, que nos falava Marx".

Eis o artigo.

A esfera da economia não pode crescer indefinidamente, sem acabar tendo repercussões negativas, tanto sobre a esfera social na qual se desenvolve, como sobre a esfera ecológica (ou biosfera) sobre a qual, em última instância, todo nosso mundo construído repousa.

Há pouco mais de um ano, três reputados cientistas da NASA publicaram um impactante estudo no qual, baseando-se em complexos modelos matemáticos, prognosticaram o possível colapso da civilização humana dentro de poucas décadas. As causas mencionadas como determinantes para chegar a tais conclusões eram duas: a insustentável sobre-exploração humana dos recursos do planeta e a cada vez maior desigualdade social existente entre ricos e pobres (1).

Para além de analisar a gravidade desta predição, gostaria de fazer notar que os dois motivos que – segundo estas investigações – poderiam acabar provocando a derrocada de nossa civilização são precisamente duas das mais claras características que possui o sistema capitalista: uma insensibilidade total para com a sustentabilidade ecológica do planeta e uma indiscutível despreocupação para com a (des)igualdade e a (in)justiça social.

Como consequência – e como se verá em maior profundidade nas linhas que seguem –, não seria muito descabido afirmar que o capitalismo é, atualmente, uma das maiores ameaças que recai sobre a continuidade da cultura humana no planeta Terra.

Evidências de um sistema insensato

Nas sociedades modernas de hoje em dia, acostumamo-nos a associar o poder aquisitivo com a capacidade de alcançar uma vida feliz. Ou seja, assume-se que – mais do que menos – nosso nível de renda determina a felicidade que podemos chegar a alcançar em nossa vida (ou, como se costuma dizer, que o dinheiro traz felicidade).

Esta enganosa forma de conceber a vida (baseada nos aspectos materiais e monetários como medida para conseguir uma vida boa) representa, provavelmente, a maior ferramenta moral que o capitalismo possui na atualidade. No entanto, e como veremos abaixo, esta concepção oferece ao menos duas evidências que a tornam insustentável.

I) A evidência social

Do ponto de vista social, o capitalismo é insustentável na medida em que promove uma sociedade global de possuidores e despossuídos, onde o consumo excessivo desnecessário de uns poucos se dá a custo das carências vitais da maioria. E uma das características que o capitalismo moderno demonstrou ter é a construção de sociedades nas quais tendem a crescer as desigualdades sociais (o que ocorre tanto se pensarmos em escala planetária, em nível de países, como dentro de um mesmo país sob o prisma, cada vez mais simplificado, de classes).

Paralelamente a esta estratificação econômica da sociedade em dois claros grupos (elites muito ricas e massas pobres), o capitalismo não conseguiu nem sequer cumprir sua clássica promessa de trazer a felicidade para um crescente número de pessoas. São muitos os estudos que, neste sentido, questionam categoricamente o axioma tão fortemente instaurado no DNA capitalista (e no imaginário coletivo) de que o dinheiro traz felicidade. Estes estudos nos demonstram como a correlação entre os rendimentos e a satisfação com a vida só é mantida em etapas iniciais, quando o dinheiro é usado para cobrir as necessidades mais básicas. A partir deste ponto, entraríamos em uma situação de “comodidade”, onde mais dinheiro já não significa necessariamente mais felicidade. E mais, uma vez que tenha sido alcançada esta situação, seguir buscando obstinadamente o crescimento econômico (no plano macro) e o aumento da renda e consumo (no plano micro) pode, inclusive, resultar contraproducente, pois tende a nos fazer descuidar de outros aspectos de nossa vida – intangíveis, mas igualmente essenciais para a felicidade –, como as relações sociais ou o bom uso do tempo (2).

Sendo assim, parece claro que o capitalismo é um sistema que range tanto com a justiça social, como com a felicidade humana. Assim como há alguns anos Richard Wilkinson e Kate Pickett evidenciaram – em sua magnífica obra “Desigualdade: Uma análise da (in)felicidade coletiva” –, estas duas questões (justiça social e felicidade humana) são dois assuntos intimamente relacionados. Parece que as desigualdades sociais tendem a nos tornar mais infelizes: naquelas sociedades onde são maiores os níveis de desigualdade, maiores são também os níveis de infelicidade (3).

De tudo isto, pode-se extrair a acertada conclusão de que uma sociedade preocupada em maximizar seus níveis de felicidade, deveria ser uma sociedade centrada em diminuir ao mínimo seus níveis de desigualdade (o que, a propósito, parece uma tarefa incompatível com as atuais políticas de desenvolvimento ocidental). Por isso, como sustenta Jorge Riechmann, em seu livro “Como viver? Acerca da vida boa”, o capitalismo é “um inimigo declarado da felicidade”. E por esta mesma razão, “os partidários da felicidade humana não podem ser senão anticapitalistas”.

II) A evidência ecológica

Por outro lado, o axioma do crescimento ilimitado, defendido pelo capitalismo, além de ser (como vimos) uma contradição social, é uma impossível biofísica. A constante demanda de materiais e energia que uma economia como a que temos acarreta, não pode se manter de forma ilimitada no tempo, sem acabar colidindo com os limites biofísicos de nosso planeta (um lugar que é, não esqueçamos, finito e demarcado). Este fato, apesar de ser firmemente ignorado pelos economistas convencionais (e pela imensa maioria dos políticos), constitui uma realidade absolutamente incontestável, tal e como nos ensina a segunda lei da termodinâmica. Pode-se afirmar, portanto, que o capitalismo é, do ponto de vista ecológico, biofísico e termodinâmico (do ponto de vista científico) um sistema impossível, condenado ao desastre.

É por razões como esta que na política e na economia, assim como acontece com outros aspectos da vida, torna-se imprescindível possuir um mínimo de cultura científica para poder atuar como cidadãos responsáveis e comprometidos (ou, o que é o mesmo, a efeitos termodinâmicos, para acomodar nosso comportamento aos limites biofísicos do planeta).

Considero muito interessantes, neste sentido, as sábias palavras de Wolfgang Sachs, que sustenta que, no futuro, o planeta já não se dividirá em ideologias de esquerdas ou de direitas, mas, ao contrário, entre aqueles que aceitam os limites ecológicos do planeta e aqueles que não. Ou, dito de outro modo, entre aqueles que entendem e aceitam as leis da termodinâmica e aqueles que não. Não se trata, portanto, de regularizar ou refundar o capitalismo, mas de entender que nosso futuro como espécie neste planeta será um futuro não-capitalista ou, simplesmente, não existirá (4).

Fazer o comum dos mortais compreender que a esfera econômica não pode crescer acima da esfera ecológica (não sem antes se comportar como um câncer) é, por simples de entender que possa parecer, um dos maiores desafios que a ciência e a educação do novo milênio enfrentam.

No entanto, esta questão das esferas concêntricas – como bonecas russas – e dos limites do planeta é (apesar das reiteradas mensagens ilusórias em prol da gastança insensata que o capitalismo se empenha em difundir) um assunto simples de conceber para todas as pessoas. E aqui reside – precisamente – nossa esperança: a esperança de uma mudança social em favor de poder alcançar outro mundo possível, mais justo e sustentável.

Como recentemente Juan Carlos Monedero argumentava, nos dias atuais, é muito mais factível se tornar anticapitalista a partir de posições ambientalistas, que a partir de posições marxistas. A inviabilidade de um sistema que advoga pelo crescimento constante, em um mundo que é limitado, é algo muito mais fácil para as pessoas normais compreenderem, que a tendência descendente da taxa de lucro ou o fetichismo da mercadoria, que nos falava Marx.

Portanto, e como corolário, urge entender que ser anticapitalista nos dias de hoje já não é uma questão de ambientalistas ou de marxistas isolados, mas, ao contrário, é algo de sentido comum; algo diretamente relacionado à lógica de sobrevivência. Esperamos que este assunto seja entendido – o quanto antes – pela imensa maioria de indivíduos que povoam a Terra, até se tornar uma evidência popular. Nossa continuidade no planeta e nossa felicidade dependerão disto.

Notas

(1) Motesharrei, S., Rivas, J., & Kalnay, E. (2012). A Minimal Model for Human and Nature Interaction.

(2) Para aprofundar algo mais sobre este tema se recomenda ler este artigo.

(3) A obra de Wilkinson e Pickett (2009) mostra minuciosamente como o aumento nas desigualdades tem significativas repercussões negativas sobre outros aspectos da vida, que atingem diretamente o bem-estar e a felicidade. Como seria o caso da educação, da expectativa de vida, da mortalidade infantil, da incidência de enfermidades mentais, do consumo de drogas, das taxas de obesidade e sobrepeso ou do número de homicídios; todas variáveis que apresentam piores índices em locais onde a desigualdade é maior.

(4) Defender a partir da argumentação socioambiental o “suicídio” social, que supõe continuar concentrados na lógica do capitalismo, é um imperativo vital, e também é um dos grandes objetivos deste blog: criar consciência anticapitalista através das Ciências da Sustentabilidade.

(5) EME: Avaliação dos Ecossistemas do Milênio da Espanha (2011). Síntese de resultados. Fundação Biodiversidade. Ministério do Meio Ambiente, e Meio Rural e Marinho.