5º domingo da Quaresma – Ano C – Despertando consciências

04 Abril 2025

"Contemplamos em Jesus uma atitude serena e lúcida, capaz de desmascarar e tocar as consciências. “Colocaste nossas culpas diante de ti, nossos segredos ante a luz do teu olhar” (Sl. 90,8). Em uma das traduções desta perícope está escrito: “Sentindo-se acusados pela própria consciência, eles foram se retirando um a um, a começar pelos mais idosos, de sorte que Jesus ficou sozinho com a mulher”. (Jo 7,9)."

A reflexão é de Terezinha das Neves Cota, rc, religiosa da Congregação Nossa Senhora do Cenáculo. Ela possui graduação e mestrado em teologia pelo Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus – CES e é orientadora de retiros espirituais.

Leituras do dia

1ª leitura: Is 43,16-21
Salmo responsorial: Sl 125(126)
2ª leirura: Fl 3,8-14
Evangelho: Jo 8,1-11

Eis a reflexão.

O trecho do Evangelho (Jo 7,53-8,11) deste quinto domingo da Quaresma é uma pérola preciosa ausente em muitos manuscritos. Esta perícope não se perdeu, porque foi colocada no quarto Evangelho, embora o conteúdo, já esteve perfeitamente integrado, em alguns manuscritos antigos, também no Evangelho de Lucas, após o versículo 38 do cap. 21: “De dia Jesus ensinava no Templo; de noite saía e ficava no Monte das Oliveiras. E todo o povo madrugava para escutá-lo no Templo” (Lc. 21-37-38). De fato, o contexto é de ensino: “Jesus estava ensinando...”, e foi interrompido para um confronto maldoso de seus adversários. O comportamento deles fez com que o. ensinamento de Jesus se tornasse uma aula prática.

Os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher que fora apanhada em adultério” (v. 3). O primeiro questionamento que surge para quem lê é: Por que aqueles homens, tão zelosos da Lei de Deus, não trouxeram junto o homem adúltero, já que em Deuteronômio 22,22 está escrito sobre o adultério: “... os dois terão de morrer...”.

indignação nas atitudes de Jesus. Jesus inclinou-se e começou a escrever com o dedo (v. 6). Depois, ergueu-se, e falou com autoridade: “Quem estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe a pedra”. Ele deixou bem claro que, quem pretende ter o direito de condenar, precisa atestar primeiro, que a sua vida é irrepreensível.

Jesus inclina-se novamente e volta a escrever (v. 8). Jesus se ergueu novamente (v. 10), quando todos foram embora e ele pode, em pé, ficar no centro com a mulher, que ali foi colocada para ser apedrejada. Ele, ao contrário, dará a ela o perdão, a salvação e a oportunidade de uma vida nova.

Contemplamos em Jesus uma atitude serena e lúcida, capaz de desmascarar e tocar as consciências. “Colocaste nossas culpas diante de ti, nossos segredos ante a luz do teu olhar” (Sl. 90,8). Em uma das traduções desta perícope está escrito: “Sentindo-se acusados pela própria consciência, eles foram se retirando um a um, a começar pelos mais idosos, de sorte que Jesus ficou sozinho com a mulher” (Jo 7,9).

Jesus tocou também a consciência da mulher: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” “Ninguém, Senhor”. “Nem eu te condeno, vai e, de agora em diante, não peques mais”. (v. 10 e 11). De condenada antecipadamente pelos que a acusavam, ela pode finalmente acolher o amor salvador e a oportunidade de trilhar um novo caminho.

A primeira leitura (Is 43, 16-21) nos situa no séc. VI a.C., na Babilônia. Neste momento da história surge um discípulo de Isaías, o grande profeta da esperança, que anuncia a libertação. Este anúncio faz memória da saída do Egito, matriz de todas as libertações: “O Senhor abriu outrora caminhos através do mar...” O profeta prossegue convidando a abertura para o novo: “Não vos lembreis mais dos acontecimentos passados, não presteis atenção às coisas antigas. Olhai: vou realizar uma coisa nova, que já começa a aparecer; não a vedes? Vou abrir um caminho no deserto e fazer brotar rios na terra árida”.

Há experiências que suscitam esperança para o presente. Existem atitudes que podem apressar nossa libertação, como a fé deste profeta da esperança, Isaías, e a serenidade e a lucidez de Jesus. O segundo Isaías deu ao povo uma nova consciência, tirou os judeus exilados da decepção e da fé abalada pela demora da libertação, anunciado a esperança, cujos sinais já eram visíveis, se eles saíssem do abismo da dor e se abrissem para a fé em Deus libertador, que sempre agirá favorecendo a vida e a liberdade de seu povo.

Caminhos novos para o povo exilado, caminhos novos para a mulher, desprezada, humilhada, julgada e condenada por aqueles que a colocaram no centro de um círculo de morte, que Jesus transformou em centro de vida nova. Caminhos novos merecem ser celebrados.

Através do Salmo responsorial (Sl 125 [126]) o anúncio profético da esperança recebe uma Celebração cheia de alegria e gratidão: “O Senhor fez maravilhas em favor do seu povo. Quando o Senhor fez regressar os cativos de Sião, parecia-nos viver um sonho. Da nossa boca brotavam expressões de alegria e de nossos lábios cânticos de júbilo”.

Que cântico brotou no coração daquela mulher ao conhecer o amor incondicional de Jesus? Que cântico de alegria e de gratidão brota em nosso coração ao vivenciar este grande retiro da Igreja, que é a Quaresma? A nós também, como ao povo, à mulher e até aos seus acusadores, são oferecidos o perdão, a compaixão, a misericórdia, e caminhos novos de conversão e reconciliação. Temos a consciência desperta para reconhecer e agradecer?

Na segunda leitura (Fl 3, 8-14) Paulo escreveu aos Filipenses quando estava preso. Sua carta marcada por muita ternura e gratidão, porque os cristãos de Filipos enviaram-lhe um membro da comunidade para cuidar dele e recursos para as suas necessidades.

Os judaizantes, exigindo o cumprimento da lei de Moisés e a circuncisão, semearam dúvidas e confusão na Comunidade de Filipos. Paulo orienta aos filipenses para livrarem-se destes enganos e testemunha sua adesão total a Jesus Cristo, deixando para trás tudo, e prosseguindo com firmeza em sua meta de conhecer cada vez mais o Bem Supremo, Jesus Cristo, o poder de sua ressurreição e a participação em seus sofrimentos.

Conhecer, no genuíno sentido da tradição bíblica, significa “entrar em comunhão de vida e de destino”. Em nosso seguimento, conscientes de que ainda não chegamos à adesão total a Jesus, prossigamos com a mesma fidelidade e firmeza de Paulo.

Como a Liturgia deste 5º Domingo pode despertar nossas consciências para a recusa de julgamentos e condenações, escolhendo a esperança, a serenidade e a lucidez, que sempre nos ajudam a decidir pelo perdão e pela vida?

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