“Temos um Congresso em que a grande maioria é negacionista, determinando a destruição de décadas de proteção ambiental e de saberes baseados no conhecimento”, afirma a cientista
A crise climática que tem causado catástrofes em diferentes lugares do mundo pode se intensificar, no Brasil, ainda mais com a crescente máquina de destruição comandada pelas mãos das mineradoras e do agronegócio. Apesar do desmatamento ter tido uma queda de 36%, entre agosto de 2025 e julho deste ano, os projetos que circulam pelo Congresso Nacional que favorecem o lobby do agro são uma ameaça constante aos direitos dos povos originários e à preservação de nossas florestas. Segundo dados do Observatório do Clima, a agropecuária continua sendo o principal propulsor de gases de efeito estufa no Brasil. É a partir do desmatamento que o setor é responsável por cerca de dois terços das emissões brutas do país e por quase 60% das emissões líquidas. A pecuária sozinha é responsável por 51% das emissões brutas brasileiras, sendo a maior fonte individual de poluição climática no país.
De acordo com o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), idealizado pelo Observatório do Clima e outras organizações, no período no qual o governo Bolsonaro desmontou as políticas públicas ambientais no país essas emissões, somente em 2019, aumentaram 19%. Num período em que o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendia o “passar da boiada”, nossos biomas estavam sendo condenados a ser pasto, em um governo no qual as próprias comunidades indígenas sofriam ataques constantes, com inúmeras invasões de terras para criação de gado e mineração. Buscando parar tamanha destruição, instituições, por meio de cientistas climáticos, monitoravam os impactos da devastação e levavam suas denúncias sobre o desmatamento para além das fronteiras da América Latina.
Na entrevista a seguir, concedida por WhatsApp ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Luciana Gatti comentou ter publicado um artigo na revista Nature durante o governo de Jair Bolsonaro, onde mostrava que a Amazônia já tinha passado a ser uma fonte de carbono para a atmosfera. Após a publicação, Gatti e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) passaram a ser alvos de ameaças. A pesquisadora conta que “nesse período, dava entrevistas para o mundo inteiro, tendo uma repercussão grande, e isso incomodava muito o governo Bolsonaro. O meu diretor sofreu ameaças, inclusive de ser exonerado se não me fizesse calar a boca. Era assim que eles falavam com o Dr. Clézio Marcos de Nardin, diretor do INPE na época”.
Luciana lançou sua candidatura recentemente para a Câmara Federal alegando que precisamos reformular o Congresso e acabar com o lobby que corrói a natureza. “Fica difícil continuar sendo cientista e acreditar que você está contribuindo com a sociedade, quando aqueles que tomam as decisões ignoram a ciência e adotam uma postura negacionista”, argumenta. Sobre o desmatamento deliberado por um sistema que tem o “agro como pop”, a cientista afirma que “só desacelerar o desmatamento não vai resolver nosso problema porque as florestas participam do equilíbrio climático, por isso é necessário reflorestar”.
Luciana Gatti (Foto: Arquivo pessoal)
Luciana Vanni Gatti é pesquisadora titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais / Centro de Ciências do Sistema Terrestre e professora de pós-graduação do curso em Ciência do Sistema Terrestre do INPE e Tecnologia Nuclear do IPEN/USP. É bolsista CNPq nível 1C. Coordena o Laboratório de Gases de Efeito Estufa (LaGEE), parte integrante do CCST/INPE. É membro do Implementing an Integrated Global Greenhouse Gas Information System (IG3IS). Atua desde 2003 em pesquisas na área de mudanças climáticas, focadas no entendimento do papel da Amazônia na emissão/absorção de gases de efeito estufa e o efeito do desmatamento e das variáveis climáticas nestes balanços. Mostrando liderança científica no assunto, publicou como primeira autora três artigos na revista Nature. Atua nas áreas de Geociências, Química da Atmosfera, com ênfase em Análise de Gases Traços e Química Ambiental, atuando principalmente nos seguintes temas: gases de efeito estufa, interações atmosféricas, gases traços e compostos orgânicos voláteis. Pré-candidata a deputada federal pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).
IHU – Recentemente, a senhora comentou que não basta conter o desmatamento na Amazônia, sendo também necessário restaurar a floresta. Qual é o primeiro passo para que isso aconteça? Em que medida o desmatamento da Amazônia colabora para intensificar a emergência climática que estamos vivendo? Qual é a gravidade do desmatamento hoje?
Luciana Gatti – Devido à aceleração muito intensa do desmatamento no Brasil a partir de 2019, os eventos extremos também se intensificaram no país. Perdemos uma enorme quantidade de floresta e vegetação.
Quando estabelecemos o desmatamento zero, apenas interrompemos a perda de floresta, mas não recuperamos aquilo que já foi destruído. A floresta que perdemos fez com que tivéssemos menos chuvas, causando o aumento das temperaturas e a intensificação dos eventos extremos, o que acelerou as mudanças climáticas no Brasil. Foi como dar força para as mudanças climáticas dentro de nosso território. Então, só desacelerar o desmatamento não vai resolver nosso problema porque as florestas participam do equilíbrio climático, por isso é necessário reflorestar.
IHU – Em qual momento a senhora decidiu que era a hora de entrar para a política e se candidatar a deputada federal? Como os conhecimentos científicos acerca das mudanças climáticas podem ser aplicados na política? Que políticas públicas são mais urgentes para mitigar os efeitos das mudanças climáticas na Amazônia?
Luciana Gatti – Resolvi me candidatar por conta do PL da Devastação. Quando o Congresso Nacional se coloca como um instrumento de aceleração das mudanças climáticas no Brasil, fazendo com que não tenhamos condições de administrar e nos adaptar às mudanças climáticas, fica muito difícil.
Sabendo que autorizações para desmatar e promover danos ambientais, da forma como foram aprovadas, acabam provocando mudanças que podem resultar em mais mortes de pessoas, fica difícil continuar sendo cientista e acreditar que você está contribuindo com a sociedade, quando aqueles que tomam as decisões ignoram a ciência e adotam uma postura negacionista.
IHU – Como o negacionismo político contribui para intensificar as mudanças climáticas e o desmatamento de nossas florestas? Onde estão as principais contradições da política ambiental no governo brasileiro atual e quais medidas concretas seriam necessárias para o combate às mudanças climáticas?
Luciana Gatti – Em primeiro lugar temos um Congresso em que a grande maioria é negacionista, determinando a destruição de décadas de proteção ambiental e de saberes baseados no conhecimento. Há esse Congresso de pessoas que só votam pelo lobby, atrás de poder econômico, só defendendo o lado econômico e o agronegócio, ignorando completamente que o meio ambiente ameaçado da maneira que vemos é o que está fazendo chegarmos nessa situação, em que as mudanças climáticas estão ameaçando a nossa sobrevivência.
Então, quando vemos que eles não escutam a ciência, fica muito difícil. Não estou querendo dizer que o governo Lula escuta a ciência completamente. Temos ministérios no governo federal que são negacionistas. Cito em primeiro lugar o Ministério da Agricultura e o Ministério de Minas e Energias, que são dois ministérios altamente negacionistas trabalhando na contramão do que deveriam.
Também vemos que o lobby do agronegócio permeia por todo o governo com a privatização dos rios da Amazônia, querendo fazer um monte de infraestruturas na Amazônia para o agronegócio. Na medida em que investimos em infraestrutura como portos e estradas, haverá muito mais pessoas querendo comprar terra barata na Amazônia, destruindo a floresta para plantar soja e criar gado. Portanto, temos também dentro do governo Lula ministérios que não estão adequados no combate às mudanças climáticas.
Não digo que o governo é negacionista porque temos um ministério do meio ambiente excelente e que está reduzindo o desmatamento. Mas não temos o resto do governo completamente alinhado na condução do que deveria ter, ou seja, na da preservação ambiental.
IHU – Seu artigo “Efeito Bolsonaro” explica que as políticas e posturas de Jair Bolsonaro ocasionaram o pior El Ninõ registrado até então. Naquele momento, a senhora sofreu muitas ameaças a partir de suas declarações e denúncias. Como foi viver isso e o que lhe deu coragem para continuar?
Luciana Gatti – Durante o governo Bolsonaro foi publicado meu segundo artigo como primeira autora na revista Nature que mostrava que a Amazônia já tinha passado a ser uma fonte de carbono para a atmosfera. Nesse período, eu dava entrevistas para o mundo inteiro, tendo uma repercussão grande, e isso incomodava muito o governo. O meu diretor sofreu ameaças, inclusive de ser exonerado se não me fizesse calar a boca. Era assim que eles falavam com o Dr. Clézio Marcos de Nardin, diretor do INPE na época. Chegavam a gritar com ele dizendo que iam exonerá-lo ou não iam dar recurso para o INPE pagar nem a conta de luz. Foi um absurdo o assédio que ele sofreu.
Fui avisada que era vigiada diretamente pela Presidência da República. Nisso, cheguei a combinar com alguns jornalistas que, caso sofresse ameaças, eu iria denunciar. Quem acabou sofrendo as ameaças foi o Dr. Clézio.
Mas seguir denunciando foi uma decisão difícil porque estávamos em um período em que muitas pessoas que se opuseram à máquina de destruição da natureza do governo Bolsonaro sofreram. Alguns até mesmo pagaram com a vida. Então, foi uma decisão difícil, mas precisamos ter coerência com aquilo que a ciência mostra e eu perderia o respeito por mim mesma se me calasse e ocultasse o que estávamos vendo na ciência. Foi isso que me fez ter forças para continuar, e é exatamente esse sentimento que me faz hoje me colocar como candidata a deputada federal para levar a ciência climática ao Congresso Nacional.
IHU – O Congresso Nacional tem se mostrado contrário às leis ambientais sempre buscando legitimá-las com projetos como o Marco Temporal e o PL da Devastação. Qual a importância das pessoas se conscientizarem ao votarem e mudarem este cenário onde a maioria segue os interesses dos ruralistas?
Luciana Gatti – É importante fazermos uma enorme renovação do Congresso Nacional, retirando o negacionismo da instituição. Esse é o ponto principal. Temos que colocar pessoas que não sejam adeptas do terraplanismo, que reconheçam que existe mudança climática e que precisamos fazer mudanças na maneira como vivemos neste planeta.
Então, tem que ser pessoas sensíveis a esse problema, que tenham vontade de promover mudanças na nossa economia, na maneira como produzimos e consumimos, não só os alimentos, mas também na produção e no consumo de energia, na construção civil, mudar as cidades e como elas são estabelecidas…
Há uma quantidade tão grande de alterações que precisamos fazer na maneira como vivemos. Precisamos de um Congresso muito mais sensível à população brasileira do que um Congresso venal, que se vende por quem está lá fazendo lobby, só defendendo os interesses dos mais ricos. Com um Congresso que está desviando uma quantidade de dinheiro tão grande do Executivo, na forma de emendas obrigatórias, estamos tendo um desequilíbrio em uma situação absurda no Brasil.
Portanto, precisamos de pessoas conscientes que queiram ir para esse legislativo e colocar o sistema de volta como uma casa legislativa e não uma instituição que está usurpando o poder Executivo, passando ela a executar praticamente quase um terço do orçamento. Isso é um absurdo, eles interferem em tudo. Estão tirando completamente o poder do Executivo e isso é uma situação de desequilíbrio muito grande dentro do país. Necessitamos votar em pessoas que tenham a noção disso, não influenciadores. Esses caras de extrema-direita que falam um monte de porcaria são eleitos, chegam lá e não sabem nem dialogar.
IHU – Por que é importante, dentro das relações sociais e do coletivo, que as pessoas se identifiquem como natureza?
Luciana Gatti – Vivemos em um ecossistema extremamente diverso, com uma enorme quantidade de espécies coexistindo, mas o ser humano deixou de se enxergar como parte desse ambiente. Ele olha para a natureza e não se incomoda em destruí-la, ignorando que, ao destruir o ecossistema ou parte dele, está desequilibrando não apenas o próprio ecossistema, mas as condições que nos permitem viver neste planeta também.
Então, precisamos ter uma visão de integralidade, entendendo que fazemos parte desse sistema e que precisamos viver de tal maneira que não modifiquemos o nosso ambiente, porque, ao modificá-lo, colocamos em risco as nossas próprias condições de vida.