"Não é trabalho. É exploração!" A precarização do trabalho em debate

Foto: PerUnaltracittà.org

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

02 Fevereiro 2018

Ela estará em Trento no próximo sábado, 3 de fevereiro de às 18:30 no Centro Comunitário Brown, e no dia seguinte em Rovereto, às 18 h na livraria Arcadia: etapas regionais de uma turnê que há meses está percorrendo toda a Itália. E seu livro "Non è lavoro, è sfruttamento" (Não é trabalho, é exploração, Editori Laterza, p.174, 14 euros) continua a colher comentários: um título impiedoso que dá perfeitamente conta do conteúdo.

Lançado no outono, já está em sua sexta edição: um sucesso que Marta Fana, pesquisadora do Instituto de Estudos Políticos Sciences Po, em Paris, não esperava. "Isso, no entanto, - afirma ela - reforça uma convicção: apesar da fragmentação e do individualismo generalizado, as péssimas condições de trabalho, mas também de não trabalho, são centrais para a maioria na nossa sociedade".

A entrevista é Paolo Morando, publicada por Trentino, 31-01-2018. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis a entrevista. 

O debate sobre o trabalho é fundamental no debate político, mas muito pouco tem sido discutido até agora nesses primeiros momentos de campanha eleitoral: por quê?

Por um lado, como muitas vezes acontece, primeiro está se falando principalmente de aposentadorias e pouco mais além disso, tentando angariar os votos dos menos jovens, porque tendemos a pensar que o desinteresse dos jovens pela política seja um fato natural e não um absurdo. Mas não é assim para todos: existem coligações e listas, por vezes apenas candidatos dentro delas, que centram no trabalho sua proposta política. Depois, há a forma como nos meios de comunicação está sendo realizada a campanha, em que pouco se questiona sobre quais seriam os programas sobre o trabalho.

Você recebeu alguma proposta para se candidatar ultimamente? Se sim, por que recusou?

Sim, várias. Por várias razões, algumas pessoais e outras mais políticas. Eu quero continuar a fazer pesquisa e ensinar, que continua a ser um papel político. Além disso, acho que cada um de nós pode dar tanto para a política sem necessariamente ser um parlamentar, colocando à disposição dos processos políticos o que de melhor sabe fazer com generosidade e humildade.

Você escreve no prefácio que investigar as condições de trabalho na Itália é uma descida ao inferno: entre as muitas categorias que analisa, qual a mais significativa a esse respeito?

Embora existam várias formas de exploração, tento evitar a elaboração de classificações, precisamente porque a condição é generalizada e fazer classificações mais divide do que une, desnecessariamente. O que é certo é que a obrigação de trabalho gratuito para estudantes, imigrantes, pessoas já marginalizadas no mercado de trabalho parece-me uma aberração. Isto, repito, não torna mais aceitáveis outras formas.

Você também escreve que não se trata de uma condição inevitável, mas do resultado de escolhas políticas específicas: quais?

Todo o processo de reforma do mercado de trabalho desde 1992 até hoje: do pacto sobre os salários ao pacote Treu, depois a chamada lei Biagi-Maroni, os decretos Sacconi de 2001 e 2011, a reforma Fornero, o Jobs Act e o Decreto Poletti, a "boa escola" e a reforma Gelmini. Mais uma vez, não acredito que seja útil fazer um ranking para entender as razões dessa transformação, mas o Jobs Act estabelece um ponto de não retorno, institucionalizando a mercantilização do direito à reintegração com um pouco de renda, ou seja, a indenização. Mas, novamente, repito que não é apenas isso.

Quais são as responsabilidades do sindicato?

Deveria ter lutado muito mais, e também de forma mais radical para desarmar a fragmentação e segmentação do trabalho. Ceder, mesmo aos poucos, deixou o caminho livre. Além disso, o sindicato deixou de ter hegemonia cultural e produzir aquele conhecimento e saber crítico entre os trabalhadores, indispensável para resistir a essa reviravolta. Em seguida, se me permitem, acredito que não existe uma visão de fundo das relações de produção e de como estas estão mudando justamente a partir da produção. Assim não se consegue ter uma visão mais ampla, mas apenas de algumas vertentes.

Quanto da atual condição de proletarização do trabalho está relacionada com a questão da juventude e quanto às persistentes estruturas de classe?

Se assumirmos, como acredito, que a proletarização dependa das relações de produção, então é a componente de classe que prevalece: para entender melhor, os filhos de um trabalhador, hoje, não se encontra nas mesmas condições do filho de um empresário. O que é certo é que para os jovens que se inserem em um tecido desindustrializado, e com as transformações normativas mencionadas acima, fica difícil tanto dentro como fora do trabalho: também me refiro ao welfare, por exemplo.

Existem saídas políticas? O que um novo governo deveria fazer, como um primeiro passo, para começar a mudar essa situação?

Claro que existem. E a história tem necessidade urgente de um impulso de orientação radicalmente oposta. A primeira coisa seria abolir todas as formas de trabalho de baixa remuneração: alternância escola-trabalho, o Decreto Minniti, tipologias contratuais como o contrato intermitente, temporal, e terceirizado. Em seguida, deveriam ser estendidos erga omnes os contratos coletivas nacionais e trazer para um limiar de dignidade todos aqueles que não auferem uma renda digna. Além disso, eu continuo convencida de que devemos atacar a terceirização selvagem tanto no setor público como privado. Há muito a fazer e, talvez, mais do que fazer, há muito a ser estudado cuidadosamente para compreender a situação real no país.

Leia mais