A grande pergunta diante do céu e da terra. A infância de Jesus de Joseph Ratzinger

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23 Novembro 2012

Publicamos aqui alguns trechos do novo livro de Joseph Ratzinger-Bento XVI sobre a infância de Jesus. O texto foi publicado no jornal Corriere della Sera, 21-11-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Bernardo de Claraval
, em uma homilia sua de Advento, ilustrou de modo dramático o aspecto emocionante desse momento.

Depois do fracasso dos progenitores, todo o mundo está obscurecido, sob o domínio da morte. Agora, Deus busca um novo ingresso no mundo. Bate à porta de Maria. Ele precisa da liberdade humana. Não pode redimir o ser humano, criado livre, sem um "sim" livre à sua vontade. Criando a liberdade, Deus, de certa forma, se tornou dependente do ser humano. O seu poder está ligado ao "sim" não forçado de uma pessoa humana.

Assim, Bernardo mostra que, no momento da pergunta a Maria, o céu e a terra, por assim dizer, seguram a respiração. Ela dirá "sim"? Ela hesita... Talvez a sua humildade será um obstáculo? Desta única vez – diz-lhe Bernardo –, não sê humilde, mas sim magnânima! Dá-nos o teu "sim"! Este é o momento decisivo, em que, dos seus lábios, do seu coração sai a resposta: "Faça-se em mim segundo a tua palavra". É o momento da obediência livre, humilde e ao mesmo tempo magnânima, na qual se realiza a decisão mais elevada da liberdade humana.

Maria se torna mãe mediante o seu "sim". Os Padres da Igreja, às vezes, expressaram tudo isso dizendo que Maria teria concebido mediante a orelha – isto é: mediante a sua escuta. Através da sua obediência, a Palavra entrou nela e nela se tornou fecunda.

Nesse contexto, os Padres desenvolveram a ideia do nascimento de Deus em nós através da fé e do Batismo, mediante os quais, sempre de novo, o Logos vem a nós, tornando-nos filhos de Deus.

Pensemos, por exemplo, nas palavras de Santo Irineu: "Como o ser humano passará em Deus se Deus não passou no ser humano? Como abandonarão o nascimento pela morte se não forem regenerados mediante a fé em um novo nascimento, dado de modo maravilhoso e inesperado de Deus, no nascimento da Virgem, como sinal da salvação?".

O canto dos anjos continua sempre sob novas formas

O anjo do Senhor se apresenta aos pastores, e a glória do Senhor os envolve de luz. "Eles ficaram tomados de grande temor" (Lc 2, 9).

O anjo, porém, dissipa o seu temor e lhes anuncia "uma grande alegria, que será também a de todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor!" (Lc 2, 10s). Ele lhes diz que, como sinal, encontrariam um menino envolto em faixas, deitado em uma manjedoura. "De repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste cantando a Deus: 'Glória a Deus no mais alto dos céus, e na terra, paz aos que são do seu agrado!'" (Lc 2, 12-14).

O evangelista diz que os anjos "falam". Mas, para os cristãos, estava claro desde o início que o falar dos anjos é um cantar, em que todo o esplendor da grande alegria por eles anunciada se faz perceptivelmente presente. E assim, daquela hora em diante, o canto de louvor dos anjos nunca mais cessou. Continua através dos séculos, em formas sempre novas, e na celebração do Natal de Jesus ressoa sempre de modo novo.

Pode-se bem compreender que o simples povo dos crentes, depois, ouviu cantarem também os pastores, e, até hoje, na Noite Santa, une-se às suas melodias, expressando com o canto a grande alegria que desde então até o fim dos tempos a todos é dada.

Pensou e aprendeu de modo humano

Também é importante o que Lucas diz sobre o crescimento de Jesus não só em idade, mas também em sabedoria. De um lado, na resposta do menino de 12 anos, tornou-se evidente que Ele conhece o Pai – Deus – a partir de dentro. Ele conhece a Deus não só apenas através das pessoas humanas que o testemunham, mas Ele também o reconhece em si mesmo. Como Filho, Ele está face a face com o Pai. Ele vive na sua presença. Ele o vê.

João diz que Ele é o Único que "está no seio do Pai" e, por isso, pode revelá-lo (Jo 1, 18). É justamente isso que se torna evidente na resposta do menino de 12 anos: Ele está junto do Pai, vê as coisas e os seres humanos na sua luz.

No entanto, também é verdade que a sua sabedoria cresce. Como homem, Ele não vive em uma onisciência abstrata, mas está enraizado em uma história concreta, em um lugar e em um tempo, nas várias fases da vida humana, e disso recebe a forma concreta do seu saber. Assim aparece aqui, de modo muito claro, que Ele pensou e aprendeu de forma humana.

Fica realmente claro que Ele é verdadeiro homem e verdadeiro Deus, como se expressa a fé da Igreja. Em última análise, não podemos definir o profundo entrelaçamento entre uma e outra dimensão. Permanece um mistério e, todavia, aparece de modo muito concreto na breve narração do menino de 12  anos – uma narração que, assim, ao mesmo tempo, abre a porta para o todo da sua figura, que depois nos é relatado pelos Evangelhos.