O alarme ignorado do papa: terceira guerra mundial em andamento

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19 Abril 2022

 

Ele havia dito isso muitos anos atrás. Foi o primeiro. "Nós entramos na Terceira Guerra Mundial, só que ela é travada em pedaços, em capítulos." O Papa Francisco disse isso há quase oito anos, voltando de sua viagem à Coreia. Os massacres no Iraque consumidos pelo ISIS estavam em andamento, mas esse apelo ignorado ele o teria repetido muitas vezes ao longo dos anos. Nas mensagens do início do ano, encontrando-se com operadores sociais, cooperadores, mas também chefes de Estado, ou simples movimentos populares.

 

A reportagem é de Carlo Marroni, publicada por Il Sole 24 Ore, 17-04-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Sua constante atenção às guerras esquecidas e aos refugiados resultou em suas visitas a Lampedusa, Lesbos, alguns dos locais de desembarque para as fugas desesperadas daqueles conflitos esquecidos (e sempre explorados) no "sul global" que é também o cerne natural da pastoral de Bergoglio. Já na época, ele falava de “um nível de crueldade terrível de que são muitas vezes vítimas civis, mulheres e crianças desarmados. A tortura tornou-se um meio quase ordinário”. Aquela primeira vez, em 2014, seu apelo pronunciado no voo entre Seul e Roma veio – talvez por coincidência nada causal – poucos meses antes da anexação da Crimeia à Rússia, embrião da agressão de Moscou contra a Ucrânia. Hoje esses pedaços estão se recompondo, e Francisco multiplica apelos também com gestos concretos de pacificação, mesmo esses isolados.

 

Na terra da guerra, o Papa envia um de seus colaboradores mais próximos, o cardeal Konrad Krajewski, para levar ajuda à população, mas também para celebrar a Via Sacra em Borodjanka, uma das cidades com maior número de vítimas civis. O cardeal rezou à beira de uma vala comum - a foto deu a volta ao mundo - ajoelhou-se ao lado de um corpo sem vida que saia de um saco plástico no meio da estrada e o acariciou. A mensagem é: a Igreja de Francisco está ali, no local, e está pronta para desempenhar um papel ainda mais delicado, se houver uma abertura para um cessar-fogo.

 

Cardeal Konrad Krajewski em oração à beira de uma vala comum em Borodjanka, Ucrânia. (Foto: Vatican Media)

 

O núncio apostólico D. Visvaldas Kulbokas foi o único embaixador a permanecer sempre em Kiev, mas essa é uma tradição da Santa Sé, e já aconteceu em outros conflitos, como no Iraque ou na Síria. O Vaticano há tempo se move em dois trilhos: por um lado, as posições públicas do Papa, que beija a bandeira ucraniana de Bucha, mas faz com que duas jovens mulheres - uma da Ucrânia, outra da Rússia - carreguem a cruz em uma estação da Via Sacra do Coliseu e, do outro, aquelas mais discretas da diplomacia pontifícia, lideradas pelo Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado.

 

A Igreja ortodoxa ucraniana, em ruptura incontornável com a de Moscou, não seria hostil a uma viagem do Papa, mas certamente alguma frieza se manifestou justamente com a Via Sacra: de Kiev foi criticada a decisão de juntar uma ucraniana e uma russa, mas o Papa não voltou atrás, mesmo que no último minuto o texto tenha sido modificado, talvez para suavizar as arestas. O fato é que a TV do país abafou a celebração.

 

Mas um tema que agora parece claro é que no esquema de Francisco não há geopolítica no sentido tradicional: mesmo que se esteja do lado do atacado, não há posições de aliança funcional.

 

A Igreja de Francisco não é ocidental, como muitas vezes as correntes tradicionalistas tentam enredá-la, e nem mesmo europeia. Talvez nas palavras do Papa a busca pela paz e o pedido de uma verdadeira trégua para a Páscoa ortodoxa - hoje ele provavelmente voltará a pedir quando se dirigir aos fiéis - também escondem uma certa decepção em como os líderes do mundo livre estão se movendo.

 

Mesmo que o tom sobre o rearmamento tenha mudado ligeiramente: “Eu entendo os governantes que compram armas, eu os entendo. Não os justifico, mas os entendo”. Claro, tons anos-luz de distância do patriarca ortodoxo de Moscou Kirill, que incita o chamado às armas. Em um comentário no site oficial do Vatican News, o diretor Andrea Tornielli escreve: "É preciso uma política forte e uma diplomacia criativa, para buscar a paz, não deixar nada sem tentativa, para parar o vórtice perverso que em poucas semanas está fazendo desvanecer as esperanças de uma transição ecológica, está devolvendo novo impulso ao grande business do comércio e do tráfico das armas”.

 

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