Os exercícios espirituais atravessam os séculos. Artigo de Alessandro Santagata

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11 Junho 2021

 

"Investigar os jesuítas significa penetrar nos dispositivos da contemporaneidade secularizada para chegar ao cerne das questões do tempo presente, em seu entrelaçamento entre transformação da política, globalização e reforma da Igreja romana", escreve o historiador italiano Alessandro Santagata, professor da Universidade de Roma Tor Vergata, em artigo publicado por Il Manifesto, 10-06-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Quase desconhecida dos não especialistas, a história da Companhia de Jesus representa um verdadeiro laboratório teológico e político. A ascensão ao trono do primeiro papa jesuíta contribuiu para alimentar novas, ainda que nunca totalmente inéditas, lendas sobre os "papas negros", como foram chamados os prepostos gerais da ordem, fundada por Inácio de Loyola e reconhecida em 1540 por Paulo III. Mas também aguçou a atenção para a longa história deste grupo religioso.

 

I gesuiti dalle origini alla soppressione

 

Dessa forma, realizou uma valiosa operação Sabina Pavone ao reeditar, numa versão atualizada na bibliografia, a sua breve mas eficaz síntese intitulada I gesuiti dalle origini alla soppressione (Os Jesuítas das origens à supressão, em tradução livre, Laterza, pp. 192, euro 16). Nas últimas décadas "os jesuítas passaram de tema da história religiosa em sentido estrito para representar, em vez disso, uma prova para compreender o advento da modernidade entre os séculos XVI e XVIII".

Mais precisamente, eles são agora considerados a primeira ordem religiosa global da era moderna. Um resultado - explica a autora - que só foi possível em virtude daquela capacidade de “adaptar-se ao mundo circunstante, renegociando continuamente o próprio papel na sociedade”. Trata-se do marcador da Companhia, que se voltará contra ela no século XVIII com a acusação, movida por detratores, de ser uma ordem sujeita ao mundanismo, à simulação e ao exercício do poder. É neste ponto que parece girar toda a história dos Jesuítas, que desde o início fazem a opção de "viver no mundo". Portanto, não surpreende que essa história se estenda da Espanha à China, da Polônia ao Japão, passando naturalmente pela Terra Santa; que tenha atravessado por igrejas, colégios e congregações, mas também por todos os principais lugares de poder temporal.

As páginas sobre as origens são muito eficazes. Pavone dedica uma particular atenção à análise dos Exercícios Espirituais: "mais que um livro, um método de misticismo ativo, um sistema de oração e de ações para entrar em união com Deus a partir de um exame de consciência (a ser repetido duas vezes por dia), sobre a oração, a confissão e a comunhão”. A escrita, portanto, associada à oralidade segundo um método que vê no centro a figura maiêutica do diretor espiritual.

Outra passagem é o nascimento do primeiro núcleo da Companhia de Inácio, em Paris, junto com Pierre Fabre e Francisco Saverio, que em 1534 pronunciam os três votos de pobreza, castidade e obediência, acrescentando o propósito de visitar a Terra Santa. Aqui encontramos a origem do quarto voto: obediência ao Papa sobre as missões. O livro segue a rápida expansão da ordem, especialmente nos países latinos, e através das missões no Brasil, Peru e México; o empenho na luta contra os "hereges", mas também as tensões com a Inquisição romana e espanhola; a contribuição dada à educação e à disciplina das elites (com a fundação de uma rede de colégios a partir de 1551); as tensões entre centro e periferia durante o generalato de Claudio Acquaviva (1581-1615).

Nos passos de Adriano Prosperi, a historiadora questiona-se também sobre a estratégia missionária da Companhia, e suas múltiplas sombras, para a "conversão dos corações", para a "civilização" e para a disciplina das consciências. Depois que Portugal, França e Espanha decidem afastar os jesuítas para reduzir seu peso na Igreja, nas colônias e nas instituições políticas, a crise chega ao fim. O lançamento da Encyclopédie desarticula o horizonte de valor em que os jesuítas se movem. Roma se divide sobre o que fazer, mas no final opta pela supressão, que é sancionada em 1773 por Clemente XIV. A restauração acontecerá em 1814 sob a insígnia da reação católica aos valores de 1789 e pelo retorno a um tão desejado cristianismo medieval. Será necessário esperar a virada do Vaticano II para assistir a uma refundação da Companhia, desta vez em nome da campanha por uma Igreja "pobre e dos pobres" e, mais uma vez, com ásperos conflitos dentro e fora do ambiente eclesiástico.

A orientação eclesial e missionária de Bergoglio deve a essa história muito mais do que os analistas costumam considerar. Investigar os jesuítas significa penetrar nos dispositivos da contemporaneidade secularizada para chegar ao cerne das questões do tempo presente, em seu entrelaçamento entre transformação da política, globalização e reforma da Igreja romana.

 

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