A crise pandêmica e seu potencial embrionário

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28 Agosto 2020

"Obriga-nos a olhar o retrovisor não para refugiar-nos e estacionar no passado, mas para acelerar o ritmo da marcha e, não obstante a incerteza do horizonte, caminhar com esperança para um amanhã recriado. Leva-nos a rever os museus histórico-culturais não para nos instalarmos em seus pedestais gloriosos, e sim para renovar, frente às exigências do contexto em que vivemos, os valores herdados", escreve Alfredo J. Gonçalves, cs, padre, vice-presidente do SPM.

Eis o artigo. 

A pandemia do Covid-19 nos traz momentos críticos. Toda crise desenvolve, em sua travessia, algo do que representaram a Semana de Arte Moderna (São Paulo, fevereiro de 1922), a Bossa Nova ou a Tropicália. Ou seja, toda crise carrega intrinsecamente um certo “efeito Macunaíma”, obra publicada em 1928 por Mário de Andrade. A trajetória turbulenta e tortuosa do “herói sem nenhum caráter”, nas suas aventuras e em sua transfiguração, da mesma forma que os momentos de crise, leva o autor a colocar em debate as origens, vicissitudes e características da cultura brasileira. Nudez e mestiçagem se revelam surpreendentemente fecundos.

Nesse processo de metabolismo conturbado e complexo, tanto individual quanto coletivamente, a crise tende a virar do avesso a existência humana, depurando medos e dúvidas, perguntas e respostas, interesses e solidariedades. Também pode virar do avesso determinado itinerário familiar, no sentido de refazer o tecido dos laços que o compõem, bem como de suas relações interpessoais. E costuma virar do avesso, ainda, não poucas instituições, em vista de revisão, renovação, recriação, refundação e uma série de outros “re”. Mas a crise vira do avesso, de modo especial, as distintas culturas, cujo encontro e intercâmbio recicla e purifica valores e contra-valores, anjos e demônios, deuses e ídolos. Desvela a fragilidade, ao mesmo tempo que revela possibilidades ocultas e enriquecedoras.

Em tempos do Renascimento, Iluminismo ou Revolução, a crise costuma visitar a história, não tanto para endeusar o passado, e sim para resgatar seu potencial ainda encoberto e embrionário. Levanta o tapete e varre o lixo acumulado ao longo dos tempos, permitindo a entrada de um raio de luz que há de iluminar veredas desconhecidos. Põe a nu o que há de pior e mais escabroso, ao mesmo tempo que aponta alternativas. Escancara rupturas com uma tradição fossilizada, mas também fortalece a continuidade de expressões culturais que se revelam eternamente juvenis. O confronto crítico vela e revela o potencial oculto.

Na crise foi que provocou a convocação do Concílio Vaticano II, pelo então Papa João XXIII, as janelas até então hermeticamente cerradas abriram-se aos “tempos modernos”. E o fizeram não só para expor e extirpar o ritualismo frio e estéril, a solenidade vazia e inócua e o ambiente cômodo e principesco, mas para remover o mofo úmido e malcheiroso de porões e sótãos dos monumentos centenários. O ar pesado dos bastidores e corredores de tantas catedrais recebeu um sopro vivo e vivificante de oxigênio. Novo pentecostes, onde o espírito divino vem em forma de “barulho”, de “vendaval” e de “línguas de fogo” – para sacudir a letargia de séculos. E rejuvenescer, na fonte, a água pura, límpida e transparente da Boa Nova do Evangelho.

O mesmo pode ocorrer com a crise da pandemia Covid-19. Obriga-nos a olhar o retrovisor não para refugiar-nos e estacionar no passado, mas para acelerar o ritmo da marcha e, não obstante a incerteza do horizonte, caminhar com esperança para um amanhã recriado. Leva-nos a rever os museus histórico-culturais não para nos instalarmos em seus pedestais gloriosos, e sim para renovar, frente às exigências do contexto em que vivemos, os valores herdados. Com efeito, desafios novos requerem modelos e organismos novos”, como dizia o bispo G. B. Scalabrini, precursor remoto, entre outros, do já citado Concílio Vaticano II.

A sinistra passagem do coronavírus, apesar de seu rastro de mortos e enlutados, infectados e afetados, conduz ao silêncio do retiro, não porque nada tenhamos a dizer, mas porque, antes de formular novas palavras, é necessário enriquecê-las com a luz da Palavra. A “sede de coisas novas” e a “agitação febril” (Rerum Novarum, nº 1), própria da sociedade contemporânea, exige que o falar seja precedido por longa reflexão. A crise desencadeada por esse “inimigo invisível”, forçando-nos ao isolamento e à quarentena, oferece-nos o estranho presente de uma parada compulsória, não no sentido de atrofiar nosso entusiasmo e nossas energias, mas para conferir vigor primaveril a nossos projetos, caminhos e novos passos.

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