Papa não vai abrir mão da ousada minoria protestante da Itália

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28 Agosto 2019

Qualquer um que já visitou o templo valdense em Roma, ou apenas passou por ele na Piazza Cavour, perto do imponente castelo papal de Sant’Angelo, deve ter se divertido com a ousada fachada em cima da porta da frente.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 27-08-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Desde 1914, a entrada desse minúsculo acampamento protestante em uma vasta floresta católica exibe um comentário irônico sobre o ambiente ao seu redor: uma única vela bruxuleante sobre uma Bíblia com a frase em latim “Lux Lucet em Tenebris”, ou seja, “uma luz brilha na escuridão”.

(Naturalmente, a construção do templo foi financiada por uma protestante norte-americana, Emma Baker Kennedy, a esposa de um magnata das ferrovias do início do século XX.)

Os valdenses remontam as suas origens a um mercado do século XII de Lyon, França, chamado Pedro Valdo, que rejeitou grande parte do ensino e da prática da Igreja Católica, incluindo a doutrina da transubstanciação e o sistema clerical. Tendo sido expulsos de Lyon e condenados pelo papado, os seguidores de Valdo se estabeleceram nos vales alpinos do norte da Itália, principalmente na região do Piemonte, para escapar dos periódicos ataques de perseguição.

Hoje, os valdenses são considerados proto-protestantes, um dos primeiros tremores do terremoto desencadeado por Martinho Lutero quatro séculos depois. Em 1975, eles se uniram à Igreja Evangélica Metodista da Itália para formar a “União das Igrejas Metodistas e Valdenses”.

O protestantismo nasceu em um espírito de dissensão do papado, e, ao longo das décadas, o centro valdense em Roma (que também inclui uma faculdade de teologia) tem vivido de acordo com essa herança. Em 1981, ele foi um ponto de encontro para os italianos incomodados com aquilo que eles viam como uma “interferência” clerical com o Papa João Paulo II em um referendo nacional sobre o direito ao aborto. Mais recentemente, ele tem sido um centro do movimento do Orgulho Gay.

Quando eu cheguei a Roma no fim dos anos 1990, uma das primeiras histórias que eu cobri foi um congresso realizado pelo movimento católico rebelde “Nós Somos Igreja”, em alta a partir do sucesso das campanhas de abaixo-assinado na Alemanha e na Áustria exigindo reformas na Igreja Católica, incluindo a eliminação do celibato obrigatório para os padres e a ordenação de mulheres.

Naturalmente, o evento foi realizado no templo valdense. Os valdenses permitem o clero feminino e, desde 2010, abençoa as uniões entre pessoas do mesmo sexo. A Igreja também se posicionou a favor da eutanásia e do suicídio assistido.

Há quatro anos, o Papa Francisco fez uma ousada tentativa para superar o legado do antagonismo, tornando-se o primeiro pontífice a entrar em um templo valdense enquanto visitava Turim. Lá, ele foi recebido pelo pastor Eugenio Bernardini, alguém que ele conhecia da Argentina, onde emigrados italianos estabeleceram uma pequena presença valdense.

Durante o encontro, Francisco fez um histórico pedido de desculpas pelas perseguições do passado: “Em nome da Igreja Católica, peço-lhes perdão pelas atitudes e pelos comportamentos não cristãos, até mesmo desumanos, que, na história, tivemos contra vocês. Em nome do Senhor Jesus Cristo, perdoem-nos!”.

Fiéis ao seu espírito, os valdenses pensaram sobre isso e depois, basicamente, disseram não.

O gesto do papa, escreveu o sínodo deles em uma carta a Francisco, embora apreciado, “não nos autoriza, porém, a substituir aqueles que pagaram com o sangue ou com outros sofrimentos o seu testemunho à fé evangélica e perdoar no lugar deles”.

Esse ethos desafiador pode ajudar a explicar por que, embora haja menos de 30.000 valdenses na Itália, cerca de 600.000 contribuintes italianos, no entanto, optam por alocar uma pequena parte dos seus impostos de renda para a assistência social a programas administrados pela Igreja valdense. Em 2018, isso se traduziu em cerca de 36 milhões de dólares [quase 150 milhões de reais] em financiamentos públicos para os projetos da Igreja.

Afinal, pode haver relativamente poucos protestantes de fato na Itália, mas há muitos italianos incomodados com séculos de teocracia e de autoridade clerical arrogante e que admiram qualquer pessoa disposta a contrariar o sistema.

Quanto a Francisco, o fato de que seu pedido de desculpas há quatro anos não saiu como o esperado não significa que ele esteja jogando a toalha ecumênica.

Nesta semana, o sínodo valdense se reúne novamente no norte da Itália, em Torre Pellice – há muito considerada a “capital” da Igreja nos vales piemonteses, localizada perto de Turim –, e, para a ocasião, o pontífice enviou uma mensagem divulgada pelo Vaticano no domingo.

Francisco escreveu para dizer que queria expressar a “proximidade fraterna minha e de toda a Igreja Católica”.

Como de costume, Francisco defendeu um ecumenismo do aqui-e-agora, não focado em queixas e disputas do passado, mas na ação comum no presente sobre valores humanitários e sociais compartilhados.

“Uno-me à oração de vocês também para pedir ao Senhor a consolidação do espírito ecumênico entre os cristãos, assim como uma crescente comunhão entre as nossas Igrejas”, escreveu o papa. “Somos chamados a prosseguir o nosso compromisso no caminho de recíproco conhecimento, compreensão e colaboração, para testemunhar Jesus e o seu Evangelho de caridade.”

“Como discípulos de Cristo, podemos oferecer respostas comuns aos sofrimentos que afligem tantas pessoas, especialmente os mais pobres e os mais frágeis, promovendo assim a justiça e a paz”, disse Francisco aos valdenses.

De certa forma, o “outro” religioso na própria Roma sempre foi o nó mais difícil de se desfazer para o papado em termos ecumênicos e inter-religiosos. A comunidade judaica de Roma, por exemplo, formada por séculos de vida sob o polegar papal, tem uma tendência a ser um pouco mais cética em relação às aberturas do Vaticano do que alguns outros grupos judaicos.

Da mesma forma, a pequena comunidade protestante da Itália, compreensivelmente, pode ser um pouco mais relutante em perdoar e esquecer do que os luteranos da Alemanha, digamos, onde historicamente eles são a Igreja do Estado e podem devolver na mesma moeda.

Resta saber o que esse gesto mais recente de Francisco pode produzir, embora o sínodo valdense desta semana deva discutir o tema do ecumenismo. Supõe-se que, por enquanto, o objetivo do pontífice é simplesmente lançar um pouco mais de luz e um tom menos sombrio, em uma relação que com frequência é vista consideravelmente como mais obscura.

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