A humanidade é a última coisa que se perde

Fonte: Unsplash

Mais Lidos

  • Declaração de Flávio Bolsonaro sobre mudanças na Constituição preocupa juristas

    LER MAIS
  • A classe média decidirá a eleição. Artigo de Frei Betto

    LER MAIS
  • 'Mais um golpe de Estado': crescem os temores com as promessas de Flávio Bolsonaro de 'redemocratizar' o Brasil

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

03 Outubro 2026

“Se o espaço humanitário, reflexo, em última instância, da ideia de uma humanidade compartilhada, é algo que já não podemos tomar como garantido, muito menos podemos nos permitir considerá-lo perdido”, escreve María del Mar Pageo, presidenta da Cruz Vermelha Espanhola, em artigo publicado por Ethic, 02-10-2026.

Eis o artigo.

O espaço humanitário, aquele em que a humanidade é reconhecida como a única forma possível de resposta diante de alguém que sofre, é algo que não devemos tomar como garantido. Costumamos associá-lo a situações de conflito nas quais, graças à neutralidade e à independência, as organizações podem prestar ajuda humanitária de maneira imparcial.

Considerando que o número de conflitos ativos no mundo dobrou entre 2009 e 2024, a preservação do espaço humanitário é indispensável para a sobrevivência de populações inteiras sitiadas pela guerra. Sua necessidade, no entanto, não se esgota nesse contexto. Ela também é relevante em outros âmbitos nos quais diferentes situações de vulnerabilidade exigem respostas da mesma natureza: pode dever-se à exclusão, aos efeitos desastrosos de eventos naturais ou à necessidade de ajuda de quem deixa seu lar e migra. A oferta de apoio para prevenir e aliviar o sofrimento, sem qualquer discriminação, é igualmente imprescindível.

O espaço humanitário garante que, mesmo nas situações mais adversas, existirá um reduto de humanidade que nos sustente. Vários fatos, no entanto, desafiam sua existência. Por um lado, as reiteradas violações do direito internacional humanitário em muitos cenários ameaçam reduzir o espaço humanitário a nada. Isso deixa a população civil, o pessoal de saúde encarregado de assisti-la, o pessoal humanitário comprometido com seu atendimento e os bens dos quais depende sua sobrevivência à mercê dos ataques.

Por outro lado, existe o estado de coisas que permite que isso aconteça: a desumanização. Por meio dela, certos grupos de pessoas são despojados de sua condição humana para serem reduzidos a categorias frias e, muitas vezes, alheias à nossa empatia.

Tudo isso, que fica evidente nos conflitos, transcende os lugares onde ocorrem os confrontos armados. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), em uma intervenção realizada em maio de 2025 perante o Conselho de Segurança, foi muito claro a esse respeito: “Agir de acordo com noções como a de ‘vitória total’ ou a de fazer algo ‘porque podemos’ tem repercussões que ultrapassam amplamente as zonas de guerra. A violência sem limites gera riscos de segurança ainda mais graves, que podem se materializar quando menos esperamos”.

E quando menos esperamos não é algum momento indefinido em um futuro incerto. Fenômenos como a informação nociva, cuja análise é o núcleo da última edição do Relatório Mundial sobre Desastres (FICV, 2026), conferem realidade e atualidade a esses riscos, representando uma “crise humanitária de facto que mina o acesso à ajuda, corrói a confiança, desestabiliza a coesão social e aumenta os riscos para o pessoal, o voluntariado e as comunidades”. A desinformação, a informação incorreta ou as narrativas desumanizantes têm a capacidade de moldar a realidade, de deixar algumas pessoas desprotegidas ou de desumanizar outras.

Se o espaço humanitário, reflexo, em última instância, da ideia de uma humanidade compartilhada, é, à luz desses fatos, algo que já não podemos tomar como garantido, muito menos podemos nos permitir considerá-lo perdido.

Leia mais