A crise habitacional na Espanha reacende o movimento dos Indignados

Foto: Mahmoud Zakariya | Pexels

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29 Setembro 2026

O estopim foi o despejo de Mari Carmen Abascal, uma aposentada de 87 anos, de seu apartamento de toda a vida, por não conseguir arcar com uma forte alta no aluguel em Madri. 

A reportagem é de Héctor Barbotta, publicada por Página/12, 29-09-2026.

O fantasma que percorreu a Espanha na primavera de 2011 voltou a erguer suas barracas na Puerta del Sol. Quinze anos depois de aquele movimento dos Indignados — nascido em um 15 de maio que se transformou no fenômeno político do 15-M — arrasar os alicerces do bipartidarismo, as praças de Madri, Barcelona e outras cidades voltaram a amanhecer ocupadas. No entanto, nesta Espanha golpeada por preços de aluguel proibitivos, a indignação já não filosofa sobre representação democrática ou sobre a ditadura do poder financeiro: tem nome, sobrenome e data de despejo.

O estopim que acendeu o pavio ocorreu na semana passada, no centro de Madri. Mari Carmen Abascal, uma aposentada de 87 anos, foi expulsa do apartamento onde morava havia toda a vida. Vivia ali desde os 17 anos, mas a empresa proprietária do imóvel decidiu quintuplicar o aluguel de uma só vez. A imagem da idosa empurrada para a rua pela polícia desencadeou um rastro de pólvora popular que transbordou as autoridades. À noite, e cedendo à pressão social, a Urbagestión, a empresa que despejou "Maricarmen", decidiu devolver-lhe o apartamento.

A armadilha dos aluguéis

O fenômeno espanhol apresenta um paradoxo sombrio: não se trata de uma crise de desemprego em massa, falta de oportunidades e êxodo juvenil como a que sobreveio à crise financeira deflagrada em 2008, mas sim de uma armadilha salarial. Na Espanha atual há emprego ativo, mas o salário médio é devorado por completo pelos gastos com moradia. Um aluguel médio em qualquer cidade grande ou média exige, no melhor dos casos, 70% da renda de um jovem trabalhador, o que empurra toda uma geração para a impossibilidade de se emancipar e lança os idosos à intempérie diante do avanço impune dos fundos abutre e dos apartamentos turísticos.

Alugar a preços astronômicos um quarto, e não um apartamento, tornou-se a dura realidade não apenas dos jovens estudantes, mas de trabalhadores de qualquer idade. É uma das principais consequências de que a estrutura da propriedade imobiliária nas principais praças espanholas esteja mudando drasticamente com a irrupção massiva dos fundos de investimento, que impõem no mercado a lei do mais forte.

Foi assim que voltou a cenografia do 15-M: a tomada do espaço público emblemático, a organização em assembleias horizontais, a ausência de bandeiras partidárias e o protagonismo de uma juventude sem futuro. Mas a semelhança termina na forma. Enquanto o movimento de 2011 foi uma impugnação sistêmica e generalizada — sob o lema "Não somos mercadoria nas mãos de políticos e banqueiros", que dinamitou a política tradicional, acabou com o bipartidarismo e deu origem a partidos como o Podemos —, a revolta atual é pragmática, monotemática e raivosa.

O movimento dos inquilinos já não pede refundar a democracia nem sonha com constituintes. Vem respaldado por uma rede territorial consolidada ao longo de anos (como os Sindicatos de Inquilinas e a Plataforma de Afetados pela Hipoteca) e exige medidas concretas de intervenção estatal: a redução drástica de 50% dos aluguéis em zonas tensionadas, a proibição da compra de moradia por não residentes e fundos especulativos, o fim do modelo de apartamentos turísticos, o freio aos despejos sem alternativa e a aprovação urgente do batizado "Decreto Maricarmen", que obrigue os locadores a justificar com causa legal a não renovação dos contratos. E, pela primeira vez, paira sobre a mesa uma ameaça explícita de ação direta: a greve coletiva de aluguéis. O inadimplemento em massa como arma de pressão.

Essa escalada de tensão social chega às vésperas da aprovação de um novo decreto de moradia por parte do governo central e escancara as profundas contradições da esquerda institucional. Depois de oito anos de administrações progressistas encabeçadas pelo socialista Pedro Sánchez — e tendo percorrido o trajeto que vai das praças aos carpetes do poder —, o problema não apenas continua intacto como se agravou.

A cena política atual beira o grotesco. Irene Montero, referência do Podemos e figura-chave na tradução eleitoral do 15-M para a política institucional, tentou nos últimos dias se colocar à frente das marchas. Fez isso arrastando um forte desgaste de credibilidade, depois de ser alvo de duras críticas por ter adquirido, anos atrás, após desembarcar na política institucional ao lado de seu companheiro Pablo Iglesias, um chalé com um terreno de 2 mil metros quadrados em uma das zonas mais exclusivas dos arredores de Madri. Em paralelo, a vice-presidenta segunda do governo e líder do Sumar, Yolanda Díaz, incentiva abertamente as mobilizações contra o próprio Executivo do qual faz parte, escancarando a fratura interna de uma coalizão encurralada por suas próprias promessas não cumpridas e por contradições insuperáveis.

Quinze anos depois de os Indignados demonstrarem que as instituições eram vulneráveis à pressão da rua, a história não se repete como farsa, mas como urgência material. Os jovens que hoje acampam em Sol já não buscam criar novos partidos políticos; aprenderam que os governos passam, mas o aluguel tem que ser pago no primeiro dia do mês. E, desta vez, a palavra de ordem já não é discutir o sistema, mas arrancar-lhe as chaves.

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