26 Setembro 2026
As pessoas apenas conferem qual será o escândalo do dia, qual cadáver moral será retirado do armário, qual autoridade aparecerá para explicar o inexplicável com a serenidade obscena dos que nunca pagam a conta.
O artigo é de Paulo Baía, é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ, publicado por Agenda do Poder, 24-09-2026.
Eis o artigo.
O Brasil fede. Fede à coisa estragada, à palavra apodrecida na boca, à promessa abandonada sob o sol. O mau cheiro entrou nas instituições, atravessou as ruas, invadiu as casas e agora paira sobre o país como uma mortalha invisível. Todos sentem. Poucos dizem. Muitos aprenderam a respirar pela metade.
Estou cansado. Não falo do cansaço comum, aquele que uma noite de sono remenda e uma manhã clara dissolve. Falo de um cansaço que se instalou nos ossos, ocupou a sala, abriu as gavetas, deitou-se sobre os livros e passou a respirar dentro de mim.
Vejo esse mesmo cansaço no rosto das pessoas, nas ruas, nas casas, diante das televisões e de seus noticiários, quando levam para diante dos olhos os smartphones que já são uma extensão das mãos. Ninguém espera encontrar uma notícia boa. As pessoas apenas conferem qual será o escândalo do dia, qual cadáver moral será retirado do armário, qual autoridade aparecerá para explicar o inexplicável com a serenidade obscena dos que nunca pagam a conta.
A sensação é a de um elevador cheio, com mais de dez pessoas espremidas, quando alguém solta um pum silencioso e fedido. Todos sentem. Todos sabem o que aconteceu. Alguns desviam os olhos, outros prendem a respiração, ninguém assume a autoria e o elevador continua subindo como se nada houvesse ocorrido. O Brasil tornou-se esse elevador. Estamos presos numa caixa metálica, respirando a decomposição pública, enquanto os responsáveis ajeitam a gravata, consultam o celular e ensaiam expressões de inocência.
O Banco Master, Daniel Vorcaro, o INSS e o seu Careca, as histórias de festas com moças suíças, o uísque especialíssimo e os charutos cubanos compõem uma natureza-morta da República. Uma mesa posta para poucos, iluminada por lustres pagos por muitos. Ainda assim, tudo isso parece incapaz de retirar um único voto de Lula ou de Flávio Bolsonaro.
Os escândalos já não atravessam as consciências, apenas escorrem por elas como chuva sobre uma estátua. A indignação foi domesticada, empalhada e colocada numa vitrine. As pessoas olham, reconhecem o animal morto e seguem adiante.
No STF, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, André Mendonça e Dias Toffoli, Kássio Nunes Marques, Flávio Dino e Luiz Fux não entregam votos a ninguém. Entregam outra coisa, talvez mais devastadora: a imagem de uma Justiça que deixou de inspirar confiança e passou a produzir fadiga, suspeita e ressentimento.
Quando tudo é apresentado como virtude, a virtude apodrece. Quando todos são declarados iguais no mesmo pântano, as diferenças desaparecem, as responsabilidades se dissolvem e o cinismo vence por aclamação. Não há grandeza possível numa República que transforma a exceção em rotina e a perplexidade em mobília.
O que existe hoje não é simples desânimo. É uma apatia revoltada, uma melancolia irritadiça, um silêncio engasgado. É a vontade de gritar que perdeu a voz, mas não perdeu a raiva. As pessoas carregam dentro do peito uma praça vazia depois da manifestação, coberta de papéis molhados, cartazes rasgados e promessas pisoteadas.
Continuam trabalhando, pagando contas, enfrentando filas e atravessando cidades, mas alguma coisa nelas se retirou do mundo. O corpo permanece; a esperança fechou a porta por dentro.
O país é uma casa abandonada com todas as luzes acesas. As instituições funcionam, os microfones permanecem abertos e os discursos continuam sendo pronunciados, mas não há calor humano nos cômodos. Há apenas o ruído das máquinas, o frio dos gabinetes e o desfile de homens satisfeitos com a própria importância.
Pelos corredores circulam papéis oficiais, versões convenientes, cumplicidades bem vestidas e a poeira das palavras traídas. A democracia brasileira não está adormecida. Está sendo sufocada diante de nossos olhos, enquanto seus responsáveis discutem o protocolo do enterro.
Essa apatia não é neutra. Quando os cidadãos se retiram emocionalmente da democracia, o poder não fica vazio. Ele é ocupado pelos profissionais do poder, pelos administradores do desencanto, pelos donos das máquinas, dos cofres, das canetas e das versões oficiais. A desesperança da maioria torna-se o patrimônio político de uma minoria. Cada pessoa que desiste abre uma cadeira para aqueles que fizeram da política um negócio fechado, com entrada reservada e saída de emergência apenas para os mesmos de sempre.
Por isso, o processo eleitoral de 2026 está letárgico, chato e sem pulsação. Não há entusiasmo nas ruas, apenas o ruído cansado de máquinas repetindo nomes, slogans e velhas ameaças. Instalou-se uma Síndrome do Desânimo Acelerado, uma SDA coletiva, que corrói a vontade política e transforma o futuro numa parede úmida.
Eu sinto esse desalento e reconheço sua sombra nas pessoas. O país parece esperar alguma coisa, mas já não sabe o quê. Talvez espere que a porta do elevador finalmente se abra. Talvez espere apenas um pouco de ar.
Mas a porta não se abre. O elevador continua subindo para lugar nenhum, carregado de autoridades, privilégios, escândalos e cidadãos obrigados a respirar o que não produziram. Os culpados permanecem calados, os inocentes desviam os olhos e o silêncio faz o serviço sujo da resignação. Quando finalmente chegarmos a algum andar, talvez não reste ninguém disposto a sair.
Esse é o perigo maior. Um país não morre quando perde a esperança. Morre quando transforma a desesperança em costume, o silêncio em prudência e a indignidade em paisagem. Um país morre quando se acostuma ao fedor.
Leia mais
- O país suspenso. Poder, desgaste e expectativa no Brasil que caminha em 2026. Artigo de Paulo Baía
- Entre a polarização e o empate técnico: notas sociológicas sobre a estrutura eleitoral brasileira em março de 2026. Artigo de Paulo Baía
- Brasil, um país suspenso entre a memória do caos e a paralisia das escolhas cansadas. Entrevista especial com Paulo Baía
- Banco Master: a reconstrução completa de como uma fraude capturou a República
- O assalto do Banco Master foi contratado pelas elites financeira e política. Entrevista especial com André Campedelli
- Condenações e escândalos de corrupção complicam o caminho eleitoral do bolsonarismo no Brasil
- Eleições 2026: a luta de classes, outro nome para o conflito pela divisão das riquezas e oportunidades na nossa sociedade, está no centro da agenda. Entrevista especial com Marina Basso Lacerda
- Candidatura de Flávio Bolsonaro reforça ‘acordão’ da anistia velada e reorganização da direita, avaliam analistas
- Brasil vive Síndrome de Estocolmo com a Faria Lima
- A esquerda se tornou uma espécie de gestora de crises do capitalismo. Entrevista especial com Vladimir Safatle
- “O neoliberalismo é um totalitarismo invertido”. Entrevista com Alain Caillé
- Eleição 2026: ‘Escolha de Tarcísio será por descarte da direita’, avalia cientista político
- ‘Não há herdeiros políticos para candidatura de Bolsonaro’, afirma cientista político
- Com Tarcísio à frente, começa a se desenhar o projeto da extrema-direita para o futuro do Brasil
- De Bukele a Tarcísio: o terror como trunfo eleitoral
- Caiado e Tarcísio disputam com armas a herança da extrema-direita
- Falta de unidade pode enfraquecer extrema-direita nas eleições de 2026, avalia professor
- Por que o presidente mais popular da história brasileira lidera o seu mandato mais impopular?
- Bolsonaro, o STF e o contexto pré-2026: cientistas políticos analisam fotografia do cenário em torno do ex-presidente
- Eleições: um olho em 2024 e outro em 2026
- Como Lula pode evitar o desastre em 2026? Artigo de Paulo Nogueira Batista Jr
- Como os governos estaduais impactam a disputa presidencial de 2026
- Balanço da esquerda no final de 2024. Artigo de Renato Janine Ribeiro
- Xadrez da contagem regressiva para 2026. Artigo de Luís Nassif
- Com ou sem Bolsonaro, bolsonarismo será competitivo nas eleições de 2026