A normalização do discurso de ódio

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24 Setembro 2026

Uma análise psicanalítica do discurso de ódio, sua disseminação nas redes sociais e o perigo de normalizar a construção do outro como inimigo.

O artigo é de Néstor Carlisky, Rubén Zukerfeld e Raquel Zonis, publicado por Página/12, 24-09-2026.

Néstor Carlisky e Rubén Zukerfeld são membros da Associação Argentina de Psicanálise.

Raquel Zonis é membro do Instituto de Psicossomática.

Coautores: Susana Boz, Olga Cartaña, Juan Falcone e Mabel Tripcevich Piovano.

Eis o artigo.

A violência faz parte da história da humanidade, e a agressão é uma dimensão inevitável de nossas vidas psicológicas. No entanto, nem toda agressão ou ódio é igual. Uma questão particularmente preocupante de nossa época surge quando o ódio deixa de ser parte da ambivalência inerente às relações humanas e se transforma em uma forma de crueldade cujo propósito é desqualificar, excluir ou eliminar completamente o outro.

Dessa perspectiva, é crucial distinguir entre a violência dirigida a alguém que continua sendo reconhecido como sujeito e a violência narcisista, na qual esse outro perde sua humanidade: deixa de ser alguém com quem se pode discordar, competir ou entrar em conflito, tornando-se, em vez disso, alguém que deve ser expulso, silenciado ou destruído. É aqui que emerge o ódio cruel, caracterizado precisamente pela dessubjetivação e desumanização do outro.

O chamado discurso de ódio é uma das expressões contemporâneas mais significativas desse fenômeno. Seu perigo reside não apenas na violência das palavras em si. Ele se torna especialmente poderoso quando consegue estabelecer como evidente e natural a ideia de que certos indivíduos ou grupos constituem uma ameaça e, portanto, merecem ser desprezados, marginalizados ou atacados. O problema central, então, é a normalização do ódio: o que inicialmente parecia inaceitável começa a ser incorporado ao senso comum.

Como ocorre essa transformação?

A psicanálise nos permite compreender alguns de seus componentes subjetivos. Estes incluem certas vulnerabilidades narcisistas, intolerância à diferença e a necessidade de pertencer a um grupo que confirme as próprias convicções. Quando reconhecer a alteridade é difícil, a pessoa diferente pode ser vivenciada como uma ameaça à própria identidade. Paradoxalmente, um indivíduo que busca a autossuficiência pode ter uma necessidade intensa de se encontrar entre seus pares. As comunidades digitais, então, proporcionam um senso de pertencimento baseado no compartilhamento de certezas, indignações e inimigos.

Mas explicar o discurso de ódio apenas por meio de características psicológicas individuais seria insuficiente. A psique é formada e funciona dentro de contextos sociais, culturais e políticos. Ideais dominantes, a mídia e, nas últimas décadas, as redes sociais participam ativamente da construção daquilo que uma sociedade considera normal, verdadeiro ou aceitável.

As redes sociais também introduziram uma transformação decisiva: uma expressão individual pode rapidamente alcançar uma dimensão coletiva. Trolls, bots e haters multiplicam mensagens que circulam entre pessoas que tendem a receber informações compatíveis com suas próprias crenças. A repetição produz familiaridade; a familiaridade pode se transformar em certeza e a certeza, finalmente, em senso comum.

Nesse processo, o que chamamos de percepticídio torna-se importante: mecanismos que dificultam a percepção de qualquer coisa que contradiga uma crença prévia. Pode haver uma forma passiva, quando o indivíduo exclui de sua percepção tudo o que possa perturbar suas certezas, e uma forma ativa, quando veículos de comunicação, instituições ou dispositivos de comunicação manipulam informações deliberadamente. O discurso de ódio encontra, portanto, um aliado particularmente eficaz nas notícias falsas.

A pesquisa apresentada em nosso trabalho demonstra que mesmo aqueles com formação psicanalítica não são totalmente imunes a essas influências. Estudamos as respostas de 56 psicanalistas para explorar a presença do discurso de ódio no campo analítico, as reações que ele provocou e sua possível relação com as fontes de informação utilizadas. Os resultados sugeriram diferenças nas respostas dos analistas ligadas ao seu consumo de notícias, o que levanta uma questão particularmente relevante: a escuta do profissional também pode ser moldada por realidades sociais e políticas e pelo discurso midiático.

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O ponto crucial, no entanto, não é determinar quem odeia mais, nem transformar o problema em um novo confronto ideológico. Trata-se de compreender como uma sociedade passa a considerar normal aquilo que antes reconhecia como crueldade.

Quando o discurso de ódio se normaliza, aqueles que são diferentes deixam de ser interlocutores e se tornam inimigos. E quando uma comunidade aceita como legítima a humilhação ou a negação da condição de seres humanos, surge a possibilidade de passar das palavras às ações. A história demonstra que a construção coletiva de inimigos pode preceder a violência contra indivíduos, instituições e democracias, e até mesmo formas extremas de destruição social.

Por isso, propomos uma desnaturalização do discurso de ódio. Desnaturalizar significa recuperar a capacidade de questionar o que é apresentado como óbvio, reconhecer nossos próprios preconceitos e nos perguntar quais interesses, medos, identificações e necessidades de pertencimento estão subjacentes às nossas certezas.

A psicanálise pode contribuir para essa tarefa, mas dificilmente o fará isoladamente. Ela precisa dialogar com a sociologia, a política, a comunicação e outras disciplinas, e reconhecer que o analista também faz parte da sociedade que busca compreender.

Em última análise, talvez uma das formas contemporâneas de resistência ao ódio consista em algo aparentemente simples, mas profundamente difícil: preservar a capacidade de pensar quando tudo nos convida a reagir, defender a diferença quando tudo nos impele a dividir entre iguais e inimigos, e continuar a reconhecer como sujeitos aqueles que pensam, vivem ou desejam de maneira diferente. Essa é a essência do nosso apelo: não aceitar como natural aquilo que leva à desumanização.

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