19 Setembro 2026
Retomamos abaixo a conversa que a teóloga Phyllis Zagano teve com Camillo Barone, jornalista do National Catholic Reporter, em 3 de junho de 2026. A ocasião foi a publicação, pela Orbis Books, de seu mais recente ensaio dedicado ao diaconato feminino: O Vaticano e as Diáconas (aqui está a versão original em inglês da entrevista).
Phyllis Zagano dedicou sua vida acadêmica a uma questão que a própria Igreja Católica parece incapaz de refutar: mulheres foram ordenadas diaconisas no passado? E, em caso afirmativo, o que isso significa para a Igreja hoje? Por décadas, a questão permaneceu em segundo plano no debate eclesial, ressurgindo em comissões do Vaticano, documentos teológicos, sínodos e conversas privadas, apenas para desaparecer novamente sem jamais encontrar uma resolução definitiva. Contudo, a questão nunca desapareceu por completo. Ela permaneceu, como Zagano a define em seu novo livro, O Vaticano e as Mulheres Diaconisas (Orbis Books), uma "questão latente", revisitada repetidamente sem nunca ser resolvida.
Por mais de cinquenta anos, escreve ela, as comissões do Vaticano têm retornado ao tema do diaconato feminino "repetidamente, repetidamente, desde 1973", frequentemente examinando os mesmos materiais históricos e, por vezes, chegando a conclusões conflitantes. Poucas pessoas acompanharam essa questão tão de perto quanto a própria Zagano.
Professora da Universidade Hofstra e autora de mais de 27 livros e centenas de artigos acadêmicos e populares, Zagano é uma das principais estudiosas da relação entre mulheres e o diaconato na Igreja Católica. Em 2016, o Papa Francisco a nomeou para a primeira Comissão Pontifícia para o Estudo do Diaconato Feminino, integrando-a à própria instituição que ela havia estudado externamente por décadas.
Seu envolvimento pessoal remonta a muito antes. Recordando o final da década de 1970, quando era aluna em tempo parcial no Seminário da Imaculada Conceição em Huntington, Nova York, Zagano lembra-se de ter dito ao então Núncio Apostólico, o Arcebispo Jean Jadot, que estava estudando "para se tornar diácona". Depois de lhe fazer algumas perguntas, Jadot deu-lhe um conselho que se revelaria surpreendentemente profético: "Não desista". Anos mais tarde, diz Zagano, o Papa Francisco lhe daria essencialmente o mesmo conselho.
Em "O Vaticano e as Diáconas", Zagano oferece uma investigação sobre a questão, fruto de cinco anos de pesquisa em arquivos por toda a Europa e da descoberta de documentos há muito inéditos ou não publicados. O trabalho a levou a arquivos monásticos no norte da Itália, a coleções em Paris, Londres e Espanha, e finalmente a materiais do Vaticano até então inacessíveis. "Um documento, um arquivo, levou a outros arquivos", explicou ela em entrevista ao National Catholic Reporter.
O quadro que emerge é também uma história do próprio Vaticano: documentos elaborados e depois arquivados, comissões criadas e dissolvidas, questões adiadas em vez de resolvidas. Segundo Zagano, a questão mais profunda talvez não seja mais se, no passado, as mulheres de fato exerceram o ministério diaconal por meio da ordenação sacramental. A questão mais premente talvez seja se a Igreja está disposta a reexaminar o que já descobriu.
A entrevista foi editada para maior concisão e clareza.
A entrevista é de Camillo Barone, publicada originalmente por National Catholic Reporter, e reproduzida por Settimana News, 18-09-2026.
Eis a entrevista.
Professora Zagano, seu livro parece sugerir que a questão não é mais: "Já existiram diaconisas?", mas sim: "Por que a Igreja teve tanta dificuldade em decidir o que significa a existência delas?". Passamos de um debate histórico para um debate sobre a autocompreensão institucional da Igreja?
Acho importante entender que a história por si só não é decisiva. Não se pode afirmar que todas as diaconisas foram ordenadas sacramentalmente, mas também não se pode afirmar que nenhuma diaconisa jamais foi ordenada. E essa questão nunca será resolvida definitivamente. Se você reunir dois acadêmicos, obterá quatro opiniões. É importante entender que, historicamente, sabemos que os bispos usavam a mesma liturgia para ordenar tanto homens quanto mulheres diáconas.
Falando em história propriamente dita: quando exatamente você percebeu que o acúmulo de evidências não estava, de fato, contribuindo para o avanço do debate teológico como um todo?
O Vaticano tinha interesse na história das diaconisas, mas de uma forma negativa, com argumentos como: "As mulheres só batizavam outras mulheres nuas, e hoje em dia não fazemos mais isso". Era isso que ouvíamos nos seminários. Anos atrás, um professor de seminário na Filadélfia me disse que ordenar uma mulher era como ordenar um poste de luz ou um gato. Para mim, esse é o cerne do problema. Acredito que o debate sempre retorna à história porque a história é sempre cíclica e nunca permite uma conclusão definitiva. Mas isso não é necessário.
Não precisamos recriar o que as mulheres faziam no passado; precisamos olhar para o que as mulheres podem fazer hoje. Como o diaconato é praticado hoje? Essa é a questão. Como as mulheres podem exercê-lo? A questão não é se as mulheres podem ser ordenadas. A questão é se elas devem ser ordenadas. Neste momento, acho que os bispos teriam sorte se conseguissem encontrar mulheres dispostas a trabalhar para eles.
Você teve a experiência incomum de ser ao mesmo tempo acadêmica e participante: alguém que estudou os processos do Vaticano, mas que, especialmente sob o Papa Francisco, também se viu inserida neles. Essa experiência mudou sua compreensão de como as decisões sobre esse assunto são realmente tomadas?
Diria que isso esclareceu meu entendimento sobre a forma como as decisões relativas ao diaconato feminino não estão sendo tomadas. Para mim, está bastante claro que, comissão após comissão, o impasse persiste. Dois documentos publicados pelas comissões — um estudo da Comissão Teológica Internacional, publicado em 2022, e, posteriormente, em 2025, uma carta apresentada pela Comissão Petrocchi — ambos afirmam que esta é uma questão que cabe ao magistério decidir.
Então, quer você queira dizer que continuamos a adiar o problema ou que se trata de uma espécie de jogo de serpentes e escadas, cada comissão acabou dizendo: "Não podemos tomar essa decisão sozinhas."
Se uma comissão era mais favorável ou mais contrária, ela não podia decidir de forma independente, porque o diaconato é uma função da Igreja. Foi criado pela Igreja. Sabemos que mulheres eram ordenadas sacramentalmente. Eles não querem admitir, mas sabemos que mulheres eram ordenadas sacramentalmente. Para alguns, isso implica que mulheres poderiam ser ordenadas sacerdotes, mas nesse ponto, ou se acredita no que o Vaticano ensina sobre o sacerdócio ou não.
Você acha que, com toda a atenção dada à sinodalidade nos últimos três anos, a era do segredo e dos trabalhos inéditos sobre a questão do diaconato feminino pode estar chegando ao fim?
Quanto à preparação dos documentos, não, porque os documentos passam por várias versões, e certamente ninguém gostaria que uma versão do Vaticano fosse tornada pública e depois tivesse que ser modificada. Eu não chamaria isso de sigilo, mas sim de falta de transparência.
Existe também um problema de reciprocidade. As decisões são predominantemente tomadas por homens, e por isso só temos uma versão masculina do mundo. Isso também ficou evidente no Sínodo: não pode haver sinodalidade sem compreender a reciprocidade de gênero. É daí que pode vir a mudança mais importante.
Acredito que os problemas de transparência sejam ainda mais profundos, não tanto no Vaticano, mas nas dioceses, especialmente no que diz respeito ao dinheiro. Muitas vezes, não sabemos quem faz o quê com que verbas nas estruturas diocesanas, e esse tipo de decisão tem um impacto significativo nas pessoas, porque os fiéis investiram suas vidas e até mesmo seu dinheiro pessoal em paróquias e estruturas diocesanas.
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Quando se trata de processos de tomada de decisão, acredito que o problema vai muito além dos documentos sobre mulheres e o diaconato. Penso que tudo faz parte do mesmo quadro. O sigilo continuará porque é "a Igreja deles", a Igreja da hierarquia. E este, em última análise, é o verdadeiro problema do clericalismo: "Nós somos clérigos e vocês não são".
Você falou de forma muito direta sobre misoginia. Alguns podem argumentar que a questão é teológica, e não sexista. Por que você passou a considerar a misoginia uma questão central, e não periférica? Você também sugeriu que muitos dos argumentos contra o diaconato feminino se baseiam, em última análise, em pressupostos sobre os corpos e os relacionamentos femininos, considerados menos sagrados do que os dos homens. Até que ponto você acha que esse debate é antropológico, além de teológico?
Penso que toda a discussão é histórica, antropológica e teológica. Não pode ser resolvida sem considerar todos esses aspectos. Se, de uma perspectiva antropológica, não desenvolvermos uma melhor compreensão dos corpos sexuais e superarmos os tabus que cercam o corpo feminino, não chegaremos a lugar nenhum.
Acredito que a decisão do Papa Francisco de permitir que mulheres sejam instituídas como leitoras e acólitas, assim como outros leigos, é muito importante, porque coloca as mulheres do outro lado da balaustrada do altar. Elas se aproximam do sagrado.
O protesto original do Papa Gelásio I contra as diaconisas, no século V, dizia respeito à presença de mulheres no altar. Os antigos tabus em torno do sangue feminino simplesmente desaparecerão.
No século XIV, Mateus Blastares escreveu que, sim, as mulheres eram ordenadas diaconisas, mas que, devido à menstruação, eram proibidas de ter acesso ao altar. Em alguns países, as toalhas do altar tinham de ser lavadas primeiro por um homem e só depois passadas por cima da balaustra para uma mulher lavar e passar a ferro. As mulheres nunca tinham permissão para tocar num vaso sagrado [cálice e/ou patena da Eucaristia].
Depende da cultura, da cultura em que você está inserido. A Igreja não é um bloco monolítico. Acho que o melhor exemplo é a Igreja Ortodoxa Grega, porque ela não tem essas obsessões com casamento, padres casados ou mulheres. Historicamente, a Ortodoxia teve diaconisas e, ainda hoje, na África, uma mulher foi ordenada sacramentalmente como diaconisa com a permissão do Patriarca Ortodoxo Grego de Alexandria e de toda a África.
Na sua opinião, o que a Igreja está perdendo hoje ao não permitir que mulheres sejam ordenadas diaconisas?
Se por Igreja entendermos o povo de Deus, então metade do povo de Deus está sem representação e oficialmente considerada incapaz de representar Cristo. Este é um problema enorme. A Igreja está perdendo metade de sua perspectiva humana sobre a vida, e isso significa também perder metade de suas formas de interpretar o Evangelho e metade de suas formas de compreender as necessidades do povo de Deus.
Não se trata de uma questão de poder. Trata-se, antes, da percepção de que a Igreja Católica está dizendo ao mundo que as mulheres não são importantes ao declarar que elas não podem ser ordenadas diáconas.
Na Europa medieval, surgiu a questão de saber se as mulheres pertenciam à mesma espécie que os homens. Este é, em última análise, o ponto crucial. Quando Deus é masculino, o masculino torna-se Deus. O argumento equivale a dizer que Cristo, na ressurreição, não habita nas mulheres. Afirmar isso é devastador.
Não apenas os cristãos, mas qualquer pessoa no mundo pode apontar para a Igreja Católica e dizer que as mulheres são pessoas de segunda classe e não merecem o mesmo respeito que os homens.
Você trabalhou com o Papa Francisco na questão do diaconato feminino. Se o Papa Leão XIV lhe ligasse amanhã e lhe pedisse apenas um conselho, em uma frase — não um relatório de comissão —, o que você diria?
Sugiro que ele diga à Igreja que não existe doutrina alguma que proíba a ordenação de mulheres ao diaconato; e que, se as conferências episcopais nacionais considerarem isso apropriado em seus territórios, podem pedir permissão para prosseguir, sabendo que os bispos individualmente continuarão livres para fazer o que acharem melhor.
Gostaria de pedir que ele considerasse o seguinte: não obrigar nenhum bispo a ordenar ninguém, mas sim afirmar que essa é simplesmente uma prática abandonada.
Gostaria também de lhe pedir que aceitasse o pedido implícito do Sínodo para que a Amazônia ordene mulheres diaconisas, bem como o pedido feito pelo líder do grupo do Sínodo Europeu por uma maior presença de mulheres em cargos de liderança e pela ordenação de mulheres diaconisas.
A resposta do Papa ao chefe do grupo europeu foi que se tratava de um problema cultural. Um problema cultural pode ser resolvido simplesmente dizendo: "Se for aceitável na sua cultura, então ordenem mulheres diaconisas."
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