Vozes de Emaús: A resiliência da liturgia católica. Artigo de Pedro Ribeiro de Oliveira

Arte: Laurem Palma | IHU

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12 Setembro 2026

"Torna-se assim sensível a contradição hoje vivida pelo povo católico: ao entrar na Igreja para uma celebração, devemos colocar entre parênteses nossa vida enquanto parte da grande comunidade humana, e levar para a celebração apenas nossa vida pessoal e familiar."

O artigo é de Pedro A. Ribeiro de Oliveira, doutor em Sociologia, professor aposentado dos PPGCR da UFJF e PUC-Minas.

Pedro A. Ribeiro de Oliveira (Foto: Tiago Miotto/Cimi)

O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.

Eis o artigo.

Numa troca de correspondência com Marcelo Barros sobre o texto “Cristandade e violência” que ele escreveu sobre o universo simbólico criado pelo regime de cristandade, surgiu uma luz para explicar a resiliência da tradição litúrgica no Catolicismo: ela tornou-se cultura, que, sendo institucionalizada, tende a reproduzir-se de geração em geração. Como ensina a sociologia do conhecimento – especialmente como nos dizem Peter Berger e Thomas Luckmann, na obra A construção social da realidade – a transmissão de normas de comportamento pelos mais velhos vem revestida da prescrição “é assim que se faz”. É preciso um forte abalo na experiência vivida para que uma geração recuse a herança cultural recebida e relegue essa cultura para o campo do folclore. Essa teoria das mudanças culturais pode trazer uma explicação para o mal-estar que me provocam as celebrações litúrgicas de que, como católico, procuro participar regularmente, inclusive quando, em viagem, visito outras comunidades.

Uma fala absolutamente normal do celebrante, ao se referir ao “18º domingo do Tempo Comum”, me chamou a atenção: “tempo comum”? Estamos vivendo um tempo nada comum, de guerra da humanidade contra a natureza e de Estados fortes contra povos indefesos. Além disso, as calamidades climáticas que nos afligem não são comuns e parecem assinalar o início de um tempo de muito sofrimento. Como se pode viver nessa realidade como se fosse tempo “comum”?

Então me dei conta de que o tempo e o espaço que contam para a Igreja são o tempo litúrgico e o espaço dos seus templos. Não por acaso as igrejas e capelas impedem que de dentro se veja a realidade externa: as janelas têm vitrais que permitem a passagem da luz, mas não da paisagem. Ao adentrar o espaço sagrado, nós, leigos e leigas, que viemos celebrar nossa vida no mundo secular somos chamados a esquecer os conflitos no campo da política, da sociedade, da economia e do mundo com suas opressões e violências, e assim trazer para a celebração somente os fatos de ordem pessoal – em geral, doenças, falecimento, aniversários e eventos familiares. Os males do mundo ficam fora, para não tirar a serena solenidade da liturgia agora performada por um celebrante cercado de crianças e adolescentes – coroinhas, acólitos/as e cerimoniário/a – todos vistosamente paramentados e acompanhados por um ou mais pares de ministros da comunhão.

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Ao refletir sobre essa experiência, fica claro que isso é o resultado da cultura católica instituída ao longo de séculos de cristandade. Sabemos que o regime de cristandade construído no período de decadência do Império Romano, foi a base da sociedade medieval, onde o poder espiritual da Igreja legitimava e dava as diretrizes morais para o exercício do poder temporal dos reis e senhores feudais. Essa divisão dos poderes definia as atribuições e limites de poder da Igreja e do Estado: a Igreja definia o bem e o mal, o certo e o errado, o verdadeiro e o falso, enfim: o que era permitido pensar e fazer, e o que era interdito (anathema sit). Daí o medo da excomunhão, que equivalia a perder o direito de cidadania nas sociedades de cristandade.

O regime de cristandade foi derrubado pela Revolução Francesa, que marca o início da moderna sociedade de mercado no século 19 que hoje se impõe no mundo; mas a cultura que o sustentava manteve-se de pé na Igreja e em amplos setores da sociedade. Marx, Darwin, Freud e outros mestres da suspeita colocaram em cheque-mate a religião de seu tempo, mas essa crítica demora a atingir as camadas sociais menos instruídas no saber científico. Só em meados do século 20 após a II Guerra Mundial, a desafeição religiosa começa a ganhar proporções massivas. Isso será mais sentido na Europa, que responde com o Concílio Vaticano II (1962-65). O que seria uma abertura para deixar entrar o ar fresco, como disse João XXIII, tornou-se um vendaval de mudanças que parecia vir a eliminar aquela forma de catolicismo engendrada pelo regime de cristandade. Hoje, porém, temos a impressão de que o vendaval retirou, sim, o excesso da poeira por séculos acumulada na Igreja, mas preservou a cultura de cristandade que está na base de sua estrutura teológica, litúrgica, hierárquica e organizacional. Não por acaso, as missas em latim, com incensações, véus para mulheres e comunhão na boca, recebida de joelhos, são muito apreciadas por quem acredita que no passado a ordem social subordinava-se à vontade divina.

Torna-se assim sensível a contradição hoje vivida pelo povo católico: ao entrar na Igreja para uma celebração, devemos colocar entre parênteses nossa vida enquanto parte da grande comunidade humana, e levar para a celebração apenas nossa vida pessoal e familiar. Não é sem motivo que as celebrações no catolicismo atual estão ganhando uma conotação mágica. M. Mauss, na obra Sociologie et Anthropologie (1966, p. 2) mostrou que religiões socialmente destituídas tendem a ter seus sacerdotes tratados como magos. A intenção dos celebrantes pode ser a melhor possível: falar do amor infinito de Deus por nós; mas o que grande parte das pessoas quer é obter bons resultados na vida profissional, amorosa ou na saúde. E a isso vai-se limitando o catolicismo que busca seu lugar no mundo contemporâneo pela reprodução de rituais antigos, supostamente de eficácia comprovada. E lá se vai por água abaixo o grande projeto do Concílio: uma Igreja Povo de Deus, animada da Palavra, em diálogo com o mundo contemporâneo, cujos sinais dos tempos devem interpelar nossa missão evangelizadora...

Felizmente, este quadro não se aplica a toda a Igreja católica. As Comunidades Eclesiais de Base, os grupos de Pastorais Sociais e outras comunidades não fizeram o caminho de volta ao que o Pe. Libânio chamava a “tradição dos Pios”. Elas persistem, teimosamente, no esforço de inculturar as celebrações no espírito de abertura ao mundo dos pobres e excluídos/as do banquete do mercado. Essas comunidades e seus agentes de pastoral são sementes da Igreja de pós-cristandade, proposta pelo Concílio Vaticano II. Com a força do Espírito, elas hão de frutificar.

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