Marcos nos coloca nos passos de Jesus. É o Evangelho a caminho do Mistério". Entrevista com Vincenzo Paglia

Foto: São Marcos Evangelista de Carlo Maratta

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12 Setembro 2026

"O Evangelho de Marcos não é um livro como todos os outros: não só pode ser lido de uma só vez, mas acima de tudo, questiona quem o lê e exige uma resposta", explica o Arcebispo Vincenzo Paglia, presidente emérito da Pontifícia Academia para a Vida e autor do livro Nos Passos de Jesus (São Paulo).

O evangelista "transforma a história de Jesus em uma boa mensagem que diz respeito a todos os homens", enfatiza o conselheiro espiritual da Comunidade de Santo Egídio. Promotor do diálogo inter-religioso e da paz, ele dirigiu a Federação Bíblica Católica Internacional e é atualmente presidente da Fundação Età Grande.

Entrevista com Vincenzo Paglia, por Giacomo Galeazzi, publicado por La Stampa, 10-09-2026.

Eis a entrevista.

Por que Marcos não é um evangelista como os outros?

No âmago do seu Evangelho reside uma questão fundamental: "Quem é Jesus?" É também a questão central da história. Devemos começar por aqui. Marcos pega no leitor pela mão e o conduz por um caminho que leva à porta do mistério. A questão é urgente: por que Jesus, que fez o bem a todos, foi crucificado? A resposta reside no seu amor infinito, que leva o Pai a ressuscitá-lo: e com ele, todos os que o seguem. Marcos estava meticulosamente informado dos factos e tinha consciência de que a história que estava a compor valia muito mais do que uma simples história: o Jesus sobre quem escrevia ainda falava aos corações daqueles que se juntavam à comunidade.

Como estrutura a história?

"Nos primeiros oito capítulos do Evangelho de Marcos, Jesus tem um rosto plenamente humano, com sentimentos de raiva e compaixão, com medos e cansaço. Um homem entre homens, imerso como todos na vida deste mundo." Nos oito capítulos seguintes, porém, o evangelista revela progressivamente a identidade de Jesus até que, aos pés da cruz, aquele que exclama "verdadeiramente ele era o Filho de Deus" não é um judeu ou um prosélito, mas um centurião romano, isto é, um filho pagão da cidade de Roma, a capital do império.

Por que o Evangelho de Marcos ainda é tão relevante?

Quase vinte séculos se passaram desde a escrita deste pequeno livro que ajudou a mudar a história. Hoje, os crentes podem começar por aqui a viver sua amizade com Deus e com os homens com mais fidelidade. E àqueles que não creem, aconselho que o peguem mesmo assim: aprenderão a beleza do amor de Jesus por todos, sem exceção. É um texto escrito para ser lido de uma só vez, mas também é bom lê-lo em pequenos trechos todos os dias. Retrata Jesus que não só não rejeita ninguém, mas estende a mão a todos. O evangelista convida o leitor a ser atraído por sua narrativa impactante: ouvir o Evangelho é como ouvir Jesus. Colocá-lo em prática é precisamente como seguir Jesus hoje.

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O estilo narrativo?

Embora baseado em eventos históricos, Marcos não pretende escrever uma história verídica sobre Jesus. Ele opta por narrar uma história verídica para envolver o leitor no que aconteceu. Ele transforma a história de Jesus em uma "boa nova" que diz respeito a todos os homens. As páginas do Evangelho tornam Jesus presente e contemporâneo para o leitor, assim como ele era para os discípulos. Marcos quer nos colocar nos passos de Jesus. Ou seja, nos fazer conhecê-lo e, acima de tudo, nos fazer amá-lo. Para que possamos escolhê-lo como o mestre de nossas vidas, que nos conduz progressivamente ao nosso destino eterno.

Quem foi Marcos?

Ele é mencionado diversas vezes no Novo Testamento. Um bispo chamado Papias, em 130 d.C., relata que Marcos, tendo se tornado intérprete de Pedro, anotou tudo o que se lembrava, "sem qualquer ordem, porém, tanto as palavras quanto os feitos de Jesus". Ele, de fato, não o tinha visto e só mais tarde se tornou discípulo de Pedro. Portanto, não deixou de anotar algumas coisas como se lembrava delas. Sua intenção, na verdade, era não omitir nada do que ouvira e não transmitir incorretamente. Como faz um bom cronista.

É este o Evangelho mais antigo?

É o primeiro a ter sido escrito, mesmo que esteja listado em segundo lugar na ordem dos Evangelhos, depois de Mateus. Inicialmente, havia pequenas coleções de ditos e ações de Jesus. Mais tarde, porém, sentiu-se a necessidade de uma narrativa mais orgânica. E entre 64 e 70, o Evangelho de Marcos foi provavelmente escrito em Roma (alguns também pensam em Antioquia, na Síria), quando as grandes testemunhas iniciais já haviam falecido. Quase certamente, Marcos vivenciou as primeiras perseguições em Roma sob Nero. E Jerusalém já havia sido destruída, com o Templo queimado. Lucas e Mateus tomaram o texto de Marcos como base para seus escritos. Comecemos, portanto, novamente pelo Evangelho.

O que o Evangelho de Marcos ensina à humanidade de hoje?

Marcos descreve a primeira missão dos Doze. Jesus os chama e os envia, dois a dois, às aldeias próximas. Poderíamos dizer que o evangelista transmite a primeira lição de Jesus aos discípulos em missão. Ele os exorta (um ensinamento que mantém seu pleno valor ainda hoje) a não viverem para si mesmos e a não permanecerem fechados em seus próprios horizontes estreitos. Eles devem sair e encontrar as pessoas, onde quer que estejam, para proclamar o Evangelho a elas e curar suas enfermidades. É uma missão que não conhece fronteiras e que pede aos discípulos que sempre vão além, que alcancem os limites dos corações e as fronteiras mais distantes.

Uma história "na estrada"?

O evangelista Marcos descreve Jesus "na estrada" com os discípulos caminhando em direção a Jerusalém. Aos poucos, sua figura emerge. Jesus, observa o evangelista, caminha à frente de todos. Os discípulos o seguem. É uma imagem constante na narrativa de Marcos. E é claramente emblemática: não se trata apenas de algo superficial, mas indica o verdadeiro significado de ser discípulo. Jesus é o pastor que guia suas ovelhas. Ninguém é excluído, não há barreiras.

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