O Vaticano enfrenta uma questão perturbadora: uma máquina poderá algum dia dizer "eu"? Artigo de Jesús Lozano Pino

Foto: Merrilee Schultz/Unplash

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10 Setembro 2026

Filósofos e cientistas do Vaticano estão se debruçando sobre uma questão que já não pertence à ficção científica: a inteligência artificial pode se tornar consciente?

O artigo é de Jesús Lozano Pino, missionário e filósofo em formação, publicado por Religión Digital, 08-09-2026.

Eis o artigo.

No dia 2 de setembro, o Vaticano acolheu um evento inusitado: um congresso internacional que reuniu filósofos, neurocientistas e líderes tecnológicos de todo o mundo. O objetivo não era analisar a eficiência dos algoritmos ou medir o impacto económico da tecnologia, mas sim abordar questões que, durante séculos, pareceram ser domínio exclusivo de teólogos e poetas: O que é a consciência? O que significa ser uma pessoa? Pode a inteligência existir sem interioridade? A fronteira entre o humano e a máquina está a esbater-se a uma velocidade vertiginosa, e a questão já não é apenas o que os sistemas inteligentes serão capazes de fazer, mas o que acontecerá connosco quando as capacidades que acreditávamos serem infinitamente nossas deixarem de o ser.

O falso refúgio de uma empresa sem alteridade

Uma máquina que calcula ou processa dados não ameaça nossa identidade. Mas o que acontece quando ela parece nos entender, nos confortar e se lembrar de cada detalhe de nossas vidas? Em uma sociedade fragmentada pela solidão, é tentador buscar refúgio em softwares disponíveis 24 horas por dia, sem pressa, sem julgamento e sem reprovação.

No entanto, um companheiro sem alteridade acaba sendo apenas um espelho. Um amigo de verdade não é programado para nos amar: ele tem seus próprios limites, suas próprias feridas e a liberdade de dizer "não". A tecnologia pode oferecer respostas imediatas ou simular proximidade, mas um encontro genuíno sempre exige duas pessoas livres, dispostas a correr riscos e se expor.

Uma dignidade que não depende do desempenho

Talvez nossa obsessão com a possibilidade de as máquinas algum dia pensarem como nós se deva à percepção de algo pior: que estamos começando a pensar como elas. Somos obcecados por otimização, padrões e produtividade. Mas se medirmos o valor humano pela velocidade ou eficiência, a tecnologia sempre nos superará.

Em contraste com essa lógica, a tradição humanista e cristã — que ressoa fortemente neste encontro na Santa Sé — oferece uma perspectiva crucial: o valor de uma pessoa não se mede pelo seu desempenho. Nossa grandeza reside não na nossa capacidade de processamento, mas naquilo que jamais pode ser reduzido a um cálculo: a dúvida, a vulnerabilidade, o perdão, a generosidade e a coragem de apoiar aqueles que sofrem quando não há uma resposta fácil a oferecer.

Nesse contexto, a advertência do historiador e pensador Yuval Noah Harari em 21 Lições para o Século 21 adquire um significado profundo: “A estupidez natural é um dos fenômenos mais poderosos do mundo, e não devemos subestimá-la. O problema não é apenas que a inteligência artificial possa se tornar inteligente demais, mas que a estupidez humana possa unir forças com ela para semear o caos.”

A citação de Harari resume lucidamente o cerne do dilema ético contemporâneo: a maior ameaça não vem da autonomia ou da sofisticação técnica dos algoritmos, mas da abdicação da humanidade da necessidade de exercer sua própria razão, discernimento e pensamento crítico. Delegar nossas decisões morais a máquinas ou sucumbir ao conforto de não pensar não é uma falha do software, mas uma manifestação daquela "estupidez natural" que amplifica os riscos da tecnologia e nos despoja daquilo que verdadeiramente nos torna humanos.

O mistério de um pronome pequeno

Uma máquina pode articular "Eu entendo" ou "Estou triste", mas não sabemos se uma experiência interior genuína está por trás dessas palavras. Usamos o pronome "eu" milhares de vezes por dia sem considerar seu profundo peso. Dizer "eu" é habitar um mundo subjetivo e irrepetível. Ao imitar nosso comportamento, a inteligência artificial nos oferece um presente filosófico inesperado: ela nos força a redescobrir o encantamento e a nos perguntarmos, mais uma vez, quem somos.

Portanto, a questão crucial que este debate nos deixa não é o que a inteligência artificial acabará por fazer, mas que tipo de seres humanos queremos ser num mundo onde a tecnologia faz quase tudo. Não devemos temer as máquinas que tentam ser humanas; o verdadeiro perigo é esquecermos o que significa ser humano.

A tarefa urgente: salvaguardar o olhar humano.

Este debate não gera uma condenação da tecnologia, mas sim um imperativo ético e existencial: a responsabilidade de não delegar o que é insubstituível. Cabe a nós garantir que a tecnologia permaneça uma ferramenta a serviço da vida e não um substituto para a empatia genuína. Isso exige uma alfabetização do coração: educar as novas gerações para reconhecer a diferença entre interação funcional e presença verdadeira, protegendo espaços de silêncio, vulnerabilidade e escuta mútua. A tarefa não é deter o progresso, mas evitar a atrofia de nossas faculdades mais profundas; garantir que, por mais fascinante que seja a voz do algoritmo, não percamos o hábito de buscar o olhar do outro para saber quem somos.

Em última análise, a resposta para o nosso fascínio por algoritmos não reside no medo da tecnologia, mas sim na necessidade urgente de revalorizar a experiência humana. A inteligência artificial não veio para nos substituir, mas para nos lembrar do nosso valor inestimável. Portanto, o verdadeiro desafio do nosso tempo não é impedir que as máquinas aprendam a dizer "eu", mas sim ter a coragem de permanecermos imperfeitamente humanos, garantindo que jamais nos esqueçamos da responsabilidade, do mistério e da beleza inerentes ao ato de proferir essa palavra.

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