Entenda a maior crise da história do STF e as decisões de Fachin para conter o confronto

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10 Setembro 2026

Sessão extraordinária marcada por Fachin para o dia 15 levará ao plenário o caso envolvendo Moraes e Vorcaro, enquanto presidente da Corte retira do ministro a condução do inquérito das fake news e centraliza decisões para tentar conter a crise no Supremo

A reportagem é de Marcelo Moreira, publicada por Agenda do Poder, 10-09-2026.

O Supremo Tribunal Federal (STF) atravessa uma crise interna marcada por acusações entre ministros, decisões conflitantes e uma disputa que acabou atingindo diretamente o comando da Polícia Federal. Nesta quarta-feira (9), o presidente da Corte, Edson Fachin, entrou de vez no conflito e tomou uma série de medidas para tentar reorganizar a condução dos processos que estão no centro da controvérsia.

Fachin passou a intervir diretamente nos principais focos de tensão da Corte: retirou Alexandre de Moraes da condução do inquérito das fake news, atuou na disputa em torno do comando da Polícia Federal e levou ao plenário embates que vinham sendo travados por decisões individuais. O próximo capítulo está marcado para o dia 15, quando os ministros deverão se reunir para discutir a crise e buscar uma saída institucional para os conflitos que expuseram divisões internas no STF.

A escalada tem como pano de fundo investigações relacionadas ao Banco Master e ganhou força após a divulgação de informações extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O material revelou contatos dele com o ministro Alexandre de Moraes e abriu uma sequência de questionamentos sobre a atuação de integrantes do próprio Supremo.

A partir daí, o confronto deixou de ficar restrito aos processos. Alexandre de Moraes e André Mendonça passaram a protagonizar um embate público e jurídico, enquanto decisões tomadas por diferentes ministros sobre a Polícia Federal aprofundaram a divisão dentro da Corte.

O início: as mensagens de Vorcaro

Um dos pontos que impulsionaram a crise foi a divulgação de um relatório da Polícia Federal contendo mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes.

O material mapeou contatos e encontros ocorridos entre 2024 e 2025. As revelações colocaram a relação entre o ministro e o ex-dono do Banco Master sob escrutínio e provocaram questionamentos sobre a condução de investigações relacionadas à instituição financeira.

André Mendonça, relator de processos ligados ao caso Master, retirou o sigilo do relatório. A partir desse momento, o confronto dentro do Supremo ganhou outra dimensão.

Moraes reagiu e apresentou elementos que, segundo ele, justificariam uma investigação sobre a atuação do próprio Mendonça. Entre os pontos levantados estavam relatórios produzidos pela Polícia Federal.

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As alegações feitas contra os ministros passaram, então, a fazer parte de uma disputa institucional dentro da própria Corte. Nenhuma delas, isoladamente, significa comprovação de irregularidade.

Fachin tenta assumir o controle

Diante do confronto, Fachin abriu, no dia 3 de setembro, um procedimento na Presidência do Supremo para analisar a produção dos relatórios de inteligência da Polícia Federal que mencionavam integrantes da Corte.

O presidente do STF estabeleceu prazos para manifestações dos envolvidos, entre eles Moraes, Mendonça, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e a Procuradoria-Geral da República.

A iniciativa indicava uma tentativa de retirar o confronto dos gabinetes individuais e criar uma instância institucional para analisar as acusações.

Mas, antes que esse processo avançasse, uma nova decisão elevou ainda mais a temperatura.

Mendonça afasta o diretor-geral da PF

Na terça-feira (8), André Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada.

A medida ocorreu após pedido do partido Novo e teve entre seus fundamentos questionamentos relacionados aos relatórios produzidos pela PF que mencionavam o próprio Mendonça.

A decisão atingiu diretamente a cúpula da Polícia Federal e provocou reação imediata do governo federal.

A Advocacia-Geral da União recorreu à Presidência do STF para tentar suspender o afastamento. Entre os argumentos apresentados estava o de que a escolha e a exoneração do diretor-geral da PF são atribuições do presidente da República.

Fachin deu prazo para que Mendonça se manifestasse.

Antes que esse prazo terminasse, porém, outro ministro entrou na disputa.

Dino manda Andrei voltar

Na manhã desta quarta-feira (9), Flávio Dino determinou a reintegração de Andrei Rodrigues e Leandro Almada.

A decisão foi tomada em outro processo, relacionado às investigações sobre recursos de emendas parlamentares destinados ao filme “Dark Horse”.

Dino sustentou, entre outros pontos, que Andrei havia produzido relatórios em cumprimento a determinações judiciais e questionou a possibilidade de Mendonça decidir uma questão diretamente relacionada a informações que mencionavam o próprio ministro.

Também argumentou que o afastamento poderia comprometer investigações em andamento.

O resultado foi uma situação incomum: em menos de 24 horas, um ministro do Supremo havia determinado a saída do diretor-geral da PF e outro integrante da mesma Corte ordenava sua volta.

Crise vira guerra de decisões

O embate passou então a atingir o funcionamento do próprio tribunal.

De um lado, estava a determinação de Mendonça para afastar Andrei. De outro, a decisão de Dino para reintegrá-lo. Paralelamente, Fachin já conduzia na Presidência do STF um procedimento sobre os relatórios da PF que haviam ajudado a desencadear o confronto.

A sucessão de decisões criou uma sobreposição de processos e competências dentro da Corte.

Nesta quarta-feira, Fachin chegou a cancelar a sessão plenária prevista para o dia. Um dia antes, a sessão da Segunda Turma também havia sido interrompida enquanto o colegiado analisava a situação do diretor-geral da PF.

Foi nesse cenário que o presidente do Supremo decidiu intervir diretamente.

Fachin entra no conflito

Fachin classificou a sucessão de decisões como uma situação capaz de provocar “grave lesão à ordem pública” e à integridade institucional da Corte.

Em uma série de atos, ele passou a centralizar na Presidência do STF a condução das questões que envolvem diretamente ministros do Supremo.

O objetivo é evitar que novas decisões individuais se sobreponham enquanto o próprio tribunal tenta definir uma saída institucional para o conflito.

Na prática, Fachin colocou sob sua condução os principais pontos da crise: a situação de Andrei Rodrigues, as potenciais investigações envolvendo ministros e o futuro do inquérito das fake news.

Moraes perde relatoria do inquérito das fake news

Uma das decisões de maior impacto foi retirar Alexandre de Moraes da condução do inquérito das fake news.

Aberto em 2019, o procedimento permaneceu sob responsabilidade de Moraes por mais de sete anos e deu origem a diferentes investigações.

Fachin revogou a designação de Moraes e determinou que inquéritos, petições e procedimentos preliminares ainda em andamento retornem à Presidência do STF.

Os atos já praticados foram preservados. Ações penais em que a denúncia já tenha sido recebida permanecem sob a relatoria de Moraes.

A mudança também impede que o inquérito continue funcionando como caminho para a abertura, sob a relatoria de Moraes, de novas apurações relacionadas ao confronto atual.

Andrei fica na PF

Fachin também suspendeu tanto a decisão de André Mendonça que afastou Andrei Rodrigues quanto a decisão posterior de Flávio Dino que determinou sua reintegração.

Pode parecer contraditório, mas o efeito prático foi manter Andrei no comando da Polícia Federal.

Isso ocorre porque, suspenso o afastamento determinado por Mendonça, deixa de existir por enquanto a ordem que retirava o delegado do cargo. Ao mesmo tempo, Fachin anulou os efeitos da decisão de Dino para centralizar a análise da questão na Presidência.

Andrei deverá prestar esclarecimentos ao STF antes de uma nova definição.

Com isso, Fachin tenta encerrar a sequência em que um ministro desfazia ou contrariava a decisão tomada por outro.

Investigações contra ministros vão para a Presidência

Outro ponto central da intervenção diz respeito às apurações envolvendo os próprios integrantes do Supremo.

Fachin determinou a suspensão de procedimentos voltados a investigar membros da Corte e estabeleceu que essas questões devem passar previamente pela Presidência do STF.

A medida alcança o confronto envolvendo Moraes e Mendonça e as discussões surgidas a partir dos relatórios da Polícia Federal.

Em vez de permitir que diferentes ministros conduzam individualmente procedimentos envolvendo colegas, Fachin concentrou essa análise inicialmente na Presidência.

Parte da controvérsia será submetida ao conjunto dos ministros.

Plenário terá de enfrentar a crise

Fachin convocou uma sessão extraordinária do plenário para terça-feira (15), às 10h.

A intenção é levar ao colegiado questões que até agora vinham sendo tratadas por decisões individuais e que contribuíram para aumentar o conflito interno.

A estratégia representa uma mudança importante na administração da crise. Em vez de novos despachos isolados de ministros diretamente envolvidos na disputa, Fachin tenta fazer com que o Supremo tome decisões coletivas sobre os temas mais sensíveis.

Até lá, Andrei Rodrigues permanece na direção-geral da Polícia Federal, procedimentos envolvendo potenciais investigações de ministros ficam sob controle da Presidência e Moraes não responde mais pelos novos desdobramentos do inquérito das fake news.

Entenda as três principais decisões de Fachin

1. Moraes sai do inquérito das fake news: Fachin revogou a designação de Alexandre de Moraes para conduzir o inquérito aberto em 2019. Procedimentos ainda em andamento retornam à Presidência do STF, enquanto ações penais já instauradas permanecem com Moraes.

2. Andrei Rodrigues continua na chefia da PF: Fachin suspendeu tanto a decisão de Mendonça que afastou Andrei quanto a de Dino que determinou sua reintegração. Com a suspensão da ordem original de afastamento, Andrei permanece no cargo enquanto o STF analisa a questão.

3. Crise passa para a Presidência e o plenário: Fachin suspendeu procedimentos relacionados a potenciais investigações contra integrantes do STF, centralizou a análise na Presidência e convocou sessão extraordinária do plenário para o dia 15.

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