10 Setembro 2026
Basta seguir o tráfico de influência praticado por Vorcaro para escancarar o conluio entre os banqueiros e as instituições que oprimem o povo. Mas a velha mídia fugirá do tema, e a maior parte da esquerda vê no caso apenas um jogo entre mocinhos e bandidos, no STF.
O artigo é de David Deccache, publicado por Outras Palavras, 09-08-2026.
David Deccache é Mestre em Economia pela UFF, ativista dos direitos humanos e, atualmente, exerce o cargo de Assessor Econômico da bancada de Deputados Federais do PSOL.
Eis o artigo.
O caso Master nos coloca diante desse impasse político. O bolsonarismo procura dar à indignação uma direção golpista, a serviço de um imperialismo interessado em submeter o Brasil e se apropriar de suas riquezas. Uma parte da esquerda, diante desse perigo histórico, assume a defesa das instituições que alimentaram a revolta e passa a tratar o descontentamento popular como uma ameaça a ser contida. Por esse caminho, ajuda a entregar à extrema-direita a direção da revolta popular que deveria disputar.
É justamente nessa disputa pela direção da revolta que André Mendonça cumpre seu papel. Sua encenação moralizadora convive com uma condução seletiva do caso que favorece politicamente Flávio Bolsonaro e protege o campo bolsonarista do desgaste de suas relações orgânicas com Vorcaro e com os interesses mais corruptos e abjetos do sistema financeiro expostos no escândalo. A manutenção do sigilo sobre a investigação do financiamento do filme de Bolsonaro, questionada por parlamentares no STF, é um exemplo dessa seletividade. O sentido político dessa atuação é canalizar a revolta popular contra adversários selecionados e colocá-la a serviço de uma recomposição autoritária do poder, preservando as estruturas que sustentam os próprios esquemas que ele afirma combater.
A indignação que poderia alcançar outros banqueiros e ameaçar seus mecanismos de blindagem passa, assim, a fortalecer um projeto que amplia essa proteção e reprime a organização dos trabalhadores. A atuação de Mendonça contribui para que essa revolta fortaleça uma saída autoritária, capaz de destruir as condições democráticas necessárias para enfrentar os próprios abusos que a alimentaram, abrindo caminho para intensificar a exploração do povo, a subordinação do país ao imperialismo e o saque das riquezas nacionais.
Enfrentar essa operação exige também denunciar com dureza a promiscuidade que alimenta a revolta e cobrar que Alexandre de Moraes responda por suas relações com Vorcaro expostas no caso. O escândalo revela a podridão das relações entre dinheiro e poder, e a esquerda precisa abandonar de vez a prática de relativizar suspeitas de corrupção e dar cobertura política à promiscuidade entre banqueiros e autoridades para proteger aliados de ocasião. Nenhuma conveniência tática justifica tamanho erro estratégico.
É preciso lembrar ao povo que Moraes é um homem de direita, com uma trajetória de defesa da ordem, repressão às lutas populares e ataques aos direitos trabalhistas. Ainda assim, encontrou em parte da esquerda uma disposição absurda de apagar sua história e justificar seus atos por ter enfrentado a tentativa de golpe que culminou no 8 de Janeiro. O cumprimento de sua obrigação mais elementar como ministro do Supremo lhe rendeu um cheque em branco de quem deveria preservar a independência política e a capacidade de crítica.
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Reduzir a posição da esquerda à escolha entre Moraes e Mendonça significa subordiná-la à disputa entre frações e forças das classes dominantes, preservando as relações de propriedade e de poder que produziram a crise e sustentam a dominação do capital sobre a vida social. A revolta popular expressa, ainda que de forma difusa e contraditória, o repúdio à promiscuidade e ao poder de uma minoria que submete o Estado e a vida da maioria aos seus interesses.
Portanto, a esquerda precisa construir uma política própria, capaz de reconhecer as razões mais do que legítimas da revolta popular, enfrentar sua apropriação reacionária e organizar a luta contra as relações de poder que o escândalo expôs. Isso exige independência diante das frações dominantes em conflito e disposição para levar o combate à corrupção até suas bases materiais.
Para isso, um primeiro passo é romper os limites do debate moralista em que a cobertura dos escândalos costuma nos aprisionar. As mensagens, os encontros, os favores e as relações pessoais precisam ser investigados, com a responsabilização de todos os envolvidos. Mas cada revelação também deve servir para mostrar como a acumulação privada de riqueza, especialmente no setor financeiro, se converte em poder sobre as instituições e as mais altas autoridades do país. O confinamento dos escândalos à moralidade e à conduta dos indivíduos cumpre uma função política: permite que a sucessão de personagens e denúncias alimente indefinidamente o noticiário enquanto protege de qualquer questionamento a estrutura que produz essa promiscuidade. A grande imprensa participa das relações de propriedade e de poder que esse debate precisa expor. Cabe à esquerda avançar sobre esse terreno, revelar as entranhas do sistema e transformar a indignação contra seus personagens em força organizada contra as bases de sua dominação.
O próprio tamanho do Master oferece um ponto de partida. Vorcaro comandava um banco pequeno diante dos gigantes do setor. Se um banqueiro dessa dimensão conseguiu estabelecer uma rede tão extensa de acesso ao poder, de quais meios dispõem os grandes bancos para fazer prevalecer seus interesses? A pergunta permite avançar da investigação de um esquema para o exame de uma estrutura de dominação. É preciso investigar tanto os crimes quanto os mecanismos legais pelos quais o dinheiro concentrado influencia a elaboração das leis, a definição das políticas públicas e os limites do que se admite discutir.
Quanto mais riqueza se concentra, maior a capacidade de seus proprietários de interferir nas decisões do Estado. E quanto mais conseguem orientar essas decisões, melhores as condições para ampliar sua riqueza e reproduzir seu poder. A brutalidade da acumulação capitalista tem aí uma de suas bases políticas: uma minoria dispõe de meios permanentes para subordinar decisões que afetam milhões de pessoas aos interesses de seus negócios.
Em uma economia financeirizada como a brasileira, bancos, fundos e grandes detentores de patrimônio financeiro ocupam uma posição central na dominação de classe pelo poder que exercem sobre o crédito, o investimento e a apropriação da renda produzida pela sociedade. O endividamento das famílias, a dependência financeira das empresas e a disputa pelo orçamento público ampliam os meios pelos quais o capital rentista se apropria dessa riqueza e impõe suas exigências.
Sua força política permite pressionar por juros elevados e políticas de austeridade que deterioram os serviços públicos e abrem novas oportunidades de mercantilização e financeirização dos direitos sociais. Na educação, a insuficiência da oferta pública favorece PPPs e conglomerados privados. Na previdência, reformas que ampliam a capitalização transformam recursos destinados às aposentadorias em fonte de financiamento para bancos e fundos, como ocorreu nas aplicações do Rioprevidência em papéis do Master. O enfraquecimento da proteção pública e a reorganização de seu financiamento alimentam negócios privados e ampliam o poder financeiro sobre a vida dos trabalhadores.
O capital financeiro encontra oportunidades de acumulação na própria destruição das garantias coletivas que deveriam proteger a população. A captura das instituições integra esse processo: influenciar leis, orientar políticas públicas e obter proteção junto às autoridades permite abrir mercados, assegurar receitas e preservar negócios. A promiscuidade exposta pelo caso Master precisa ser compreendida dentro dessa relação entre acumulação de riqueza e exercício do poder.
Levar essa discussão ao povo abre perguntas que deveriam estar no centro da atuação da esquerda. Por que uma atividade capaz de exercer tamanho poder sobre a sociedade deve permanecer sob controle privado? Por que deixar nas mãos de poucos banqueiros decisões sobre o crédito, o investimento e o destino da riqueza social? A estatização do sistema financeiro, acompanhada de controle democrático e participação dos trabalhadores, precisa entrar nesse debate. O mesmo vale para a democratização do Judiciário: quem fiscaliza os ministros, como se apuram seus conflitos de interesse, quais limites devem existir para suas relações com o poder econômico e como submeter suas prerrogativas ao controle da sociedade?
A esquerda precisa organizar essa revolta para que os trabalhadores possam acertar contas com a ordem que os explora, antes que seus inimigos façam dela a força de um novo golpe.
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