10 Setembro 2026
Não foi apenas a defesa de uma tese de doutorado. Foi um encontro de saberes, trajetórias e lutas que afirmou, dentro e fora da universidade, que catadoras e catadores de materiais recicláveis produzem conhecimento, organizam a vida coletiva e enfrentam diariamente aquilo que chamo de máquina de moer mundos.
O artigo é de Alexandre Cardoso, catador de materiais recicláveis e doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Eis o artigo.
Minha tese, defendida dia 2 de setembro de 2026, em Cruz Alta, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGAS/UFRGS), tem como título “Catadoras e Catadores de Materiais Recicláveis Enfrentam a Máquina de Moer Mundos: Território Vivo e Reciclagem Popular na Cooperativa UNICCA”. Ela não nasceu de um olhar distante sobre uma comunidade, como se pesquisadores e pesquisadas ocupassem lados separados. Nasceu da experiência de quem é catador, vive o trabalho da reciclagem, participa da organização coletiva e compreende que a produção de conhecimento precisa reconhecer aqueles que, durante tanto tempo, foram tratados apenas como objeto de estudo, mão de obra barata ou parte invisível da cidade.
Minha própria caminhada ajuda a explicar de onde vem essa pesquisa. Comecei a catar materiais recicláveis ainda na infância. Fui pai aos 16 anos e, como acontece com tantas pessoas pobres e trabalhadoras, a necessidade de garantir a sobrevivência falou mais alto do que a possibilidade de estudar. Aos 34 anos, eu tinha concluído apenas a quinta série do ensino fundamental. Não era falta de vontade ou de capacidade: era a realidade de quem precisou trabalhar desde cedo, de quem tinha responsabilidades familiares e de quem não encontrava na escola e na sociedade as condições necessárias para continuar.
Essa não é uma história individual. Ainda hoje, muitas catadoras e catadores têm uma trajetória educacional interrompida ou uma formação escolar limitada pelas desigualdades sociais. Há também companheiras e companheiros mais jovens, que tiveram mais oportunidades e já possuem maior escolaridade. A categoria é diversa, mas a exclusão educacional continua marcando profundamente a vida de grande parte dela. Por isso, esta tese é também um chamado: que catadoras e catadores se animem a retornar à escola, a concluir seus estudos e a ocupar a universidade. Não porque um diploma, por si só, resolva as injustiças, mas porque a educação amplia horizontes, fortalece a autonomia e nos permite disputar os lugares onde se produz conhecimento e se tomam decisões.
Tese foi defendida em Cruz Alta, onde funciona a Cooperativa UNICCA. (Foto: Reprodução)
Desde que ingressei na universidade, procurei incentivar catadoras, catadores e filhos e filhas de catadores a voltarem ou permanecerem nos estudos. Muitas pessoas concluíram a graduação; algumas já avançaram para a pós-graduação. Essa é uma das maiores alegrias dessa caminhada. Espero que, em pouco tempo, eu não seja o único catador doutor do mundo. Que outros e outras cheguem ao mestrado, ao doutorado e a todos os espaços que historicamente foram apresentados como inacessíveis para a classe trabalhadora, para a periferia e para quem vive da reciclagem.
Essa caminhada também só foi possível porque existem políticas de inclusão. As cotas sociais são fundamentais para corrigir, ainda que parcialmente, desigualdades que começam muito antes da entrada na universidade. As bolsas de estudo são igualmente decisivas, pois não basta ingressar: é preciso garantir condições materiais para permanecer, pesquisar, escrever, participar das atividades acadêmicas e concluir a formação. Defender a universidade pública, gratuita e de qualidade é defender que pessoas como nós tenham o direito de estudar sem precisar abandonar sua origem, sua comunidade e seu compromisso com a luta coletiva.
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A máquina de moer mundos é a estrutura que concentra riqueza e poder, explora trabalhadores e trabalhadoras, transforma tudo em mercadoria e destrói a natureza para manter seus lucros. Ela atua quando os resíduos são produzidos em excesso e descartados sem responsabilidade; quando os materiais recicláveis são enterrados ou queimados enquanto pessoas sobrevivem com pouca renda; quando se retiram direitos, se privatizam serviços públicos e se tenta transformar a coleta seletiva em negócio para grandes empresas. Atua também por meio do racismo ambiental, econômico e social, que faz recair sobre as populações empobrecidas os maiores impactos da crise climática e da desigualdade.
Mas onde essa máquina tenta produzir descarte, existem pessoas que organizam resistência. Catadoras e catadores transformam aquilo que a sociedade chama de lixo em matéria-prima, trabalho, renda, cuidado ambiental e possibilidade de futuro. A reciclagem popular é essa prática construída coletivamente: ela não se limita ao ato de separar ou comercializar materiais. Ela reúne economia solidária, organização de base, educação ambiental, defesa do território, geração de renda e participação política.
A Cooperativa UNICCA, em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, é um exemplo concreto desse processo. Em seu percurso de organização, a cooperativa avançou de 20 para cerca de 60 catadoras e catadores, de 17 toneladas para aproximadamente 100 toneladas de materiais recicláveis por mês e de rendas muito baixas para uma condição mais digna de trabalho e sobrevivência. São resultados construídos por muitas mãos, com forte protagonismo das mulheres, que representam cerca de 85% da cooperativa e coordenam suas unidades de produção e gestão.
Esses números não devem ser lidos apenas como indicadores de eficiência. Eles expressam vidas que deixaram de depender exclusivamente da informalidade, pessoas que passaram a ter reconhecimento social, famílias que encontraram uma forma coletiva de garantir renda e uma cidade que pode perceber que a reciclagem não é favor, nem caridade: é serviço ambiental, trabalho essencial e parte da solução para a crise ecológica.
Por isso, chamamos a cooperativa de território vivo. Território vivo não é somente o galpão, a esteira, o caminhão ou o material separado. É o espaço onde se constroem relações de solidariedade, partilha de conhecimento, enfrentamento das violências e defesa da vida. É onde se aprende que quem separa um material em casa também precisa compreender o destino dele; que o poder público tem responsabilidade com a coleta seletiva solidária; e que as organizações de catadores devem ser reconhecidas, contratadas e remuneradas pelos serviços que prestam à sociedade.
Encontro Estadual de Catadoras e Catadores de Materiais Recicláveis do Rio Grande do Sul aconteceu entre os dias 1º e 2 de setembro. (Foto: Reprodução)
No território vivo, a reciclagem é também hospital do planeta. Enquanto a máquina de moer mundos produz descarte, contaminação e desigualdade, catadoras e catadores evitam que toneladas de materiais sejam enterradas, retornam matéria-prima à cadeia produtiva e reduzem a pressão sobre a extração de novos recursos naturais. Fazem isso sem receber, na maior parte das vezes, o valor correspondente ao serviço ambiental que realizam. É preciso mudar essa lógica: quem cuida da cidade, da natureza e do futuro não pode continuar sobrevivendo com o que sobra.
A defesa da tese também precisou expressar essa compreensão. Ela foi realizada no território, diante de aproximadamente 150 lideranças de catadoras e catadores do RS e de outros estados com transmissão on-line e tradução para inglês e espanhol, possibilitando a participação de companheiras e companheiros de outros países. Não se tratava de transformar uma defesa acadêmica em espetáculo, mas de dar coerência ao próprio método da pesquisa. Se o conhecimento foi produzido coletivamente, se ele nasce das vivências, da luta e da organização da categoria, era justo que a categoria estivesse presente no momento de sua apresentação e avaliação pública.
A esse modo de pesquisar dei o nome de “pesquisador que vem de dentro”. Não significa abandonar o rigor acadêmico; ao contrário, significa assumir com responsabilidade o lugar de onde se fala, explicitar os vínculos com o campo e reconhecer a potência dos saberes construídos no cotidiano. A universidade pública deve ser um espaço aberto aos sujeitos historicamente silenciados, não para que abandonem suas origens, mas para que possam fortalecer a voz coletiva de seus territórios.
A tese, portanto, não encerra uma trajetória. Ela abre e fortalece uma luta: por políticas públicas de reciclagem popular, por pagamento pelos serviços ambientais, por contratos justos com as organizações de catadores, por infraestrutura, formação e reconhecimento. É uma luta contra a incineração dos recicláveis, contra a privatização da coleta seletiva e contra toda forma de exploração que trata vidas e territórios como descartáveis.
Enfrentar a máquina de moer mundos exige organização coletiva. Exige que a sociedade reconheça quem são as pessoas que estão na linha de frente da defesa ambiental. Exige que a universidade dialogue com os saberes populares e que o poder público escolha investir naqueles que fazem a economia circular acontecer todos os dias.
No território vivo da UNICCA, a reciclagem popular mostra que outro mundo não é apenas uma ideia distante. Ele começa quando aquilo que foi descartado volta a ter valor, quando uma trabalhadora conquista dignidade, quando uma catadora ou um catador decide retomar os estudos e quando a coletividade se organiza para ocupar os espaços de conhecimento e decisão. É dessa prática viva, coletiva e transformadora que nasce o enfrentamento à máquina de moer mundos.
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