Plano de energia do governo prevê 80% dos recursos para petróleo e gás e alta de 18% nas emissões

Foto: Agência Petrobras/Observatório do Clima

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09 Setembro 2026

Análise exclusiva do OC revela contradição entre os discursos de transição energética e uma forte expansão dos combustíveis fósseis projetada até 2035.

A informação é publicada por Observatório do Clima, 04-09-2026.

Um dos mais importantes planos energéticos do país para a próxima década prevê um salto de 18% das emissões do setor e um investimento desproporcional em combustíveis fósseis, incompatíveis com a crise climática atual e necessidade urgente no corte de emissões de gases de efeito estufa. Dos R$ 3,5 trilhões em investimentos previstos no Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2035, R$ 2,8 trilhões (80%) serão destinados para petróleo e gás natural. Ao mesmo tempo, a fatia das fontes renováveis na matriz brasileira deve continuar no patamar atual.

Os preocupantes números para o equilíbrio climático vêm de uma análise exclusiva do Observatório do Clima (OC) sobre as cerca de 600 páginas do PDE, apresentado pelo governo federal no início de julho.

“Há uma forte contradição entre o discurso de transição energética e o futuro desenhado pelo planejamento oficial”, avaliou Suely Araújo, diretora de Políticas Públicas do OC e uma das responsáveis pelo esforço, junto com Mirela Coelho e Fábio Ishisaki, assessores de Políticas Públicas do OC, e Shigueo Watanabe, pesquisador do Climainfo.

O contraste ficou evidente inclusive no lançamento do plano, quando o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que o PDE está “alinhado aos desafios da transição para uma economia de baixo carbono”. Para o governo, o documento reforçaria o protagonismo brasileiro na transição energética.

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Mas a análise do OC mostra que a produção de petróleo e gás pode crescer 56% até 2035 em comparação com 2024. Só a de petróleo deve subir 44% e atingir 4,9 milhões de barris diários. As projeções são, inclusive, de que siga sendo exportada mais da metade da produção.

Também é prevista a expansão em 26,3 gigawatts da geração em termelétricas com fontes não renováveis, sendo quase 19 gigawatts (72%) com gás. O governo alega que parte das usinas cobriria a demanda em períodos de pico, quando fontes como solar e eólica não seriam suficientes.

A maior parte do salto produtivo viria do pré-sal e de “novas fronteiras” como a Margem Equatorial e de uma de suas maiores áreas de possível exploração, a Foz do Amazonas, com grande importância ecológica e elevada vulnerabilidade socioambiental.

Apesar do crescimento das fontes fósseis, a participação das renováveis deve manter a fatia atual de 51% na matriz energética brasileira.

Todo esse desenho se reflete igualmente nas emissões previstas para o setor, que deverão alcançar 516 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2035, ou 18% acima do nível do ano passado.

Para o OC, o conjunto de projeções pode tirar o Brasil da rota de uma transição energética real e até colher prejuízos econômicos. Afinal, usar mais eletrificação e biocombustíveis deve encarecer e tornar menos competitiva a exploração de petróleo no longo prazo.

Mas há alternativas para reduzir a necessidade de mais exploração e de usinas fósseis, ampliando o uso de tecnologias de baixo carbono e até de “hidrelétricas reversíveis”, que usam sobras de eletricidade para bombear água a reservatórios mais elevados e gerar energia quando for mais necessária.

Medidas como essas são importantes porque, embora reduzir o desmatamento e demais perdas de vegetação nativa em todos os biomas seja indispensável, isso não dispensa outros setores de cortar emissões.

Além disso, é fundamental que o governo explique como as projeções do PDE serão equalizadas com instrumentos como a Política Nacional de Transição Energética (PNTE), que pretende reduzir a dependência dos fósseis e alcançar a neutralidade de emissões nacionais nas próximas décadas.

Afinal, para o OC uma transição energética de fato exige planejar não apenas quanta energia o Brasil precisará produzir e quais fontes crescerão, mas também quais combustíveis deverão perder espaço, em que ritmo e como trabalhadores, regiões produtoras e receitas públicas serão protegidos nessa mudança.

Acesse a análise aqui.

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