Pampa perde 21% dos campos naturais em 40 anos

Foto: IMPE/ Flickr

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09 Setembro 2026

No Rio Grande do Sul, conversão para agricultura e silvicultura foi mais intensa que nos países vizinhos; pesquisador defende valorização da pecuária sustentável.

A reportagem é de César Fraga, publicada por ExtraClasse, 04-09-2026

O Pampa gaúcho é a porção da região pampeana sul-americana onde a conversão de campos nativos para agricultura e silvicultura ocorreu com maior intensidade nas últimas quatro décadas. Foram 3,9 milhões de hectares de campos naturais perdidos no período, contra 3,7 milhões na Argentina e 2,9 milhões no Uruguai. O dado, destacado pelo pesquisador Eduardo Vélez, do MapBiomas, integra a Coleção 5 do MapBiomas Pampa Trinacional, que mapeou as transformações ocorridas entre 1985 e 2024. O estudo foi divulgado na manhã desta sexta-feira, 4.

Em toda a região pampeana, que abrange o sul do Brasil, todo o Uruguai e parte da Argentina, a perda chegou a 11,3 milhões de hectares de vegetação nativa, dos quais 10,5 milhões eram campos naturais. A área equivale à superfície de um país como a Bulgária. Atualmente, restam cerca de 56 milhões de hectares de vegetação nativa, aproximadamente metade dos 109 milhões de hectares da região.

A nova coleção incorpora 2024 ao mapeamento e completa uma série contínua de 40 anos. Também corrige erros de classificação da edição anterior e reduz lacunas existentes nas áreas de fronteira entre Brasil, Argentina e Uruguai. A agricultura avançou 33% no período, enquanto a área destinada à silvicultura cresceu 503%.

Vélez entende que o avanço sobre a vegetação campestre não pode ser explicado apenas por uma escolha entre atividades produtivas. “A raiz do problema é vinculada a questões de rentabilidade e de valores de mercado”, afirma. Segundo ele, agricultura e silvicultura se tornaram mais competitivas que a pecuária desenvolvida sobre campo nativo, favorecendo a conversão em larga escala.

O pesquisador defende que a resposta passe pela valorização econômica da pecuária sustentável. “Faltam incentivos econômicos, incentivos tecnológicos e melhores arranjos das cadeias produtivas da carne”, avalia. Isso envolveria desde o manejo do rebanho no campo até a comercialização, com diferenciação e valorização da carne produzida em pastagens nativas.

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A questão não é apenas econômica. Os campos naturais oferecem forragem diversificada e de baixo custo e, quando manejados adequadamente, apresentam capacidade de recuperação diante de eventos extremos. Também contribuem para o controle da erosão, a infiltração da água no solo e a regulação das vazões de arroios e rios. São ainda habitat para insetos polinizadores e outras espécies. O próprio MapBiomas destaca que a conversão da vegetação campestre afeta a biodiversidade e serviços ecossistêmicos como a regulação do ciclo da água e o controle da erosão.

No Brasil, a situação é especialmente preocupante. A vegetação nativa do Pampa passou de 12,4 milhões de hectares, em 1985, para 8,6 milhões, em 2024, uma redução de aproximadamente 3,7 milhões de hectares, ou 30%. A principal pressão foi o cultivo de soja. A silvicultura também avançou fortemente: de 44 mil hectares para 738 mil hectares, crescimento superior a 1.500%.

Efeito esponja

Para o pesquisador, a perda do campo nativo também representa a perda de uma espécie de seguro ambiental e econômico para o futuro. A vegetação campestre ajuda a reter água em períodos de excesso e a liberar umidade durante a seca. A conversão também pode provocar perda de solo e afetar a biodiversidade, inclusive com extinções locais de espécies de distribuição restrita.

“Não sabemos ainda o alcance que as mudanças climáticas vão trazer para as atividades agrícolas atuais, não sabemos como a geopolítica pode afetar as exportações de commodities”, pondera. Em contraste, observa, a vegetação campestre está no Pampa há milhares de anos e já atravessou diferentes extremos climáticos. “Ela é uma garantia de futuro.”

Os números dos três países revelam diferentes dimensões da transformação. A Argentina teve a maior perda absoluta de vegetação nativa, com 4,8 milhões de hectares, redução de 12% em relação a 1985. No Uruguai, a perda chegou a 19%, enquanto a agricultura cresceu 136%.

No país vizinho também ocorreu a maior expansão da silvicultura. A área de florestas plantadas passou de 117 mil hectares, em 1985, para 1,3 milhão de hectares, em 2024, crescimento superior a 900%. O resultado é que o Uruguai passou a concentrar uma área de florestas plantadas maior que a da Argentina, de 619 mil hectares, e a do Brasil, de 738 mil hectares.

 

Alerta

Vélez considera que os dados acumulados pelo MapBiomas deveriam provocar uma reação mais ampla dos setores públicos e privados. A rede disponibiliza anualmente informações sobre a transformação do território e, na avaliação do pesquisador, elas ainda não têm produzido uma resposta proporcional à dimensão do problema.

No Pampa brasileiro, ainda restam cerca de 6 milhões de hectares de campos nativos. Para o pesquisador, esse estoque permite pensar não apenas em interromper as perdas, mas também em recuperar áreas. Entre as medidas apontadas estão o cumprimento da legislação ambiental, a criação de uma rede de pequenas e médias unidades de conservação, o estímulo à pesquisa sobre espécies do Pampa e incentivos à pecuária sustentável.

Outra frente seria criar sistemas de monitoramento e pagamento por serviços ambientais para propriedades que conservem ou recuperem vegetação nativa. “É possível manter campo nativo e produzir sobre ele”, sustenta Vélez. Para ele, essa combinação representa um diferencial do Pampa: uma atividade econômica capaz de conviver com a biodiversidade, em vez de necessariamente substituí-la.

Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores

A divulgação do levantamento ocorre em um momento especialmente simbólico: 2026 foi declarado pelas Nações Unidas como o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, iniciativa destinada a reconhecer o valor ecológico e social das pastagens e das comunidades que delas dependem. Na América do Sul, o Pampa ganha destaque nesse contexto por ser uma das poucas grandes regiões do mundo ainda dominadas por pastagens naturais e por manter uma tradição pecuária histórica, ao mesmo tempo em que enfrenta uma rápida transformação no uso da terra. A região pampeana ocupa 109 milhões de hectares, cerca de 6% da América do Sul, abrangendo a metade sul do Rio Grande do Sul, todo o Uruguai e parte da Argentina.

O que está em jogo

Pesquisador do MapBiomas, Eduardo Vélez analisa as causas da perda dos campos nativos, os impactos dessa transformação e as alternativas para conciliar a conservação do Pampa com a atividade econômica.

O que tem de novidade na Coleção 5 e como o Pampa gaúcho se compara ao dos países vizinhos?

A novidade é a inclusão do mapeamento de 2024, fechando um conjunto de 40 anos mapeados sequencialmente. A nova coleção também corrige pequenos erros de classificação e resolve lacunas nas áreas de fronteira entre os três países. A situação do Pampa gaúcho não é das melhores. Nos últimos 40 anos, aqui foi onde houve mais áreas convertidas para agricultura e silvicultura: 3,9 milhões de hectares de campos nativos foram perdidos, contra 3,7 milhões na Argentina e 2,9 milhões no Uruguai.

O que se perde, na prática, quando um campo nativo é substituído por uma lavoura ou uma floresta plantada?

Primeiramente, perde-se a oportunidade de explorar um negócio ofertado de graça pela natureza: uma forragem natural com centenas de espécies de gramíneas e ervas que servem de alimento para os rebanhos e não dependem de irrigação ou adubação. Além disso, a vegetação diversificada garante resiliência frente a eventos climáticos extremos. Entre as funções ecológicas estão a redução das emissões de carbono, o controle da erosão, a melhora da infiltração da água no solo e a oferta de habitat para insetos polinizadores.

Ainda é possível conciliar produção econômica e conservação do Pampa?

Algo de maior envergadura precisa ser feito. Ainda temos um estoque de cerca de 6 milhões de hectares de campos nativos no Pampa brasileiro. É preciso assegurar o cumprimento da legislação ambiental, criar unidades de conservação, incentivar a pesquisa científica e promover a pecuária sustentável em campo nativo com incentivos econômicos, tecnológicos e assistência técnica. Também é necessário desenvolver mecanismos de pagamento por serviços ambientais. Para deter a perda e inclusive reverter o processo, temos muitas tarefas pela frente.

O MapBiomas

O levantamento é produzido pelo MapBiomas Pampa Trinacional, uma rede colaborativa que reúne especialistas da Argentina, Brasil e Uruguai para acompanhar, por imagens de satélite, as mudanças na cobertura e no uso da terra. A plataforma utiliza imagens do satélite Landsat, com resolução de 30 metros, processadas na plataforma Google Earth Engine. Os mapas são reprocessados anualmente, permitindo acompanhar as transformações do território ao longo do tempo. Os dados, mapas e métodos são disponibilizados de forma pública e gratuita e podem subsidiar ações de conservação e manejo sustentável dos recursos naturais.

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