O ataque em Leipzig expõe a divisão política sobre a Rússia na Alemanha, às vésperas de eleições cruciais para o AfD

Foto: Mark König/Unplash

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04 Setembro 2026

O endurecimento da postura do governo em relação ao Kremlin atraiu críticas tanto da extrema-direita quanto da extrema-esquerda.

A reportagem é de Kate Connolly, publicada por El Diário, 03-10-2026.

As relações com a Rússia já eram um tema proeminente no debate político alemão antes de o governo de Friedrich Merz culpar Moscou, esta semana, por uma tentativa de ataque com drones no aeroporto de Leipzig. Mas o anúncio, tão explosivo quanto previsível, ocorre na véspera de importantes eleições regionais e deixou dolorosamente clara a polarização da política alemã em torno da questão russa.

O partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) lidera as pesquisas tanto em nível nacional quanto no estado da Saxônia-Anhalt, que realiza eleições neste fim de semana. O AfD tem defendido repetidamente laços mais estreitos com o Kremlin e, em particular, o retorno do petróleo e gás baratos de Moscou para a Alemanha, apesar da ofensiva implacável da Rússia contra a Ucrânia.

A Alemanha permanece em estado de alerta. O ministro do Interior, Alexander Dobrindt, já havia advertido que Berlim enfrentava uma crescente ameaça de guerra híbrida. Na manhã de quarta-feira, um dia após o anúncio sobre Leipzig, a polícia investigava um segundo ato de sabotagem, desta vez contra a rede elétrica. Uma explosão na estação ferroviária de Augsburg, na madrugada de quarta-feira, também foi inicialmente atribuída à sabotagem, demonstrando o estado de ansiedade e alerta que toma conta do país devido a potenciais ataques à sua infraestrutura vital.

Embora as autoridades alertem contra conclusões precipitadas, esses incidentes ainda estão sendo investigados, juntamente com outros incidentes recentes que supostamente estão relacionados.

Moscou negou toda a responsabilidade e acusa Berlim de desviar a atenção de seus próprios problemas internos, como a ascensão da extrema-direita e a incapacidade do governo de proteger sua infraestrutura.

Munição para a AfD

A incerteza, o caos e a ansiedade resultantes servem de munição para o AfD. Seu porta-voz para assuntos externos, Markus Frohnmaier, acusou o governo alemão de manipular a classificação de atos de sabotagem “para atender aos seus interesses políticos”. Frohnmaier se referia ao ataque de 2022 ao gasoduto Nord Stream, do qual dois cidadãos ucranianos são suspeitos. Esse gasoduto era uma rota vital para o fluxo de gás russo para a Alemanha.

A sabotagem “piorou a situação com a Rússia em questão de dias”, mas até agora não teve consequências, segundo Frohnmaier. O que se sabe com certeza é que os dois cidadãos ucranianos identificados pela Alemanha como suspeitos foram presos. A Itália extraditou um deles para Berlim no ano passado, e o outro está detido na Croácia.

“Esta não é uma política de segurança coerente, mas sim um exemplo de dois pesos e duas medidas na política externa”, afirmou Frohnmaier, que disse estar convencido de que o governo usaria o incidente de Leipzig “como justificativa para apoiar ainda mais a Ucrânia e envolver a Alemanha ainda mais profundamente nesta guerra”.

O partido de extrema-direita pediu o início de negociações com Moscou, a suspensão das sanções contra a Rússia e uma redução drástica da ajuda à Ucrânia. Agora, exige que o governo Merz divulgue provas que comprovem o envolvimento russo, argumentando que as evidências apresentadas até o momento são insuficientes.

Preocupado com a possibilidade de escalada do conflito com Moscou, o governo alemão esperou vários dias antes de publicar sua conclusão cuidadosamente elaborada. "Não estamos em guerra, mas somos alvo diário de guerra híbrida", declarou o ministro das Relações Exteriores, Johann Wadephul. Esta é a admissão mais franca feita até o momento pelo governo Merz.

Os detalhes revelados na quarta-feira sobre dois russos suspeitos de envolvimento no incidente de Leipzig provavelmente não irão apaziguar as queixas do AfD. Nem as do Partido da Esquerda (Die Linke). Seu principal parlamentar, Dietmar Bartsch, afirmou na quarta-feira que as suspeitas de envolvimento de Moscou não justificam a decisão do governo Merz de fechar o consulado russo em Bonn e o extenso centro cultural Casa Russa em Berlim. Em sua opinião, em vez de melhorar a segurança da Alemanha, tais medidas aumentam o risco de uma "guerra em larga escala".

Com apenas 22% de aprovação nas pesquisas no estado da Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, a União Democrata Cristã (CDU) de Merz está sob forte pressão. O AfD está com cerca de 42% das intenções de voto e pode estar prestes a formar o primeiro governo liderado pela extrema-direita desde a Segunda Guerra Mundial.

Apelos para endurecer a posição contra Moscou

Os apelos por uma postura mais firme em relação a Moscou, e a frustração por não tê-la adotado antes, têm crescido dentro do partido de Merz. Segundo Roderich Kiesewetter, ex-soldado e respeitado especialista em política externa da CDU, várias gerações de diplomatas compartilham há anos com os democratas-cristãos e seus atuais parceiros de coalizão, os social-democratas, a ideia romântica de que a Rússia poderia ser domesticada por meio do comércio e de gasodutos.

“A Alemanha precisa abandonar sua cautela em relação ao terrorismo de Estado russo em solo alemão, assim como essa noção romântica da Rússia como uma grande nação cultural”, disse Kiesewetter à InfoRadio. “A Rússia não dá a mínima para essa cautela, que ela vê como um convite para aumentar ainda mais as tensões.”

Kiesewetter criticou Merz por ter se referido recentemente à Rússia como uma grande nação cultural. "Grandes nações culturais não submetem nações vizinhas à guerra, à violência e ao sequestro de crianças", disse ele. Em sua opinião, já passou da hora de Merz chamar o regime de Moscou pelo que ele é.

Konstantin von Notz, especialista em política externa do Partido Verde, elogiou a "linguagem significativamente clara" do governo Merz em relação ao comportamento de Moscou, embora a tenha considerado "muito tardia". As urnas dirão se os eleitores da Saxônia-Anhalt temem o impacto potencial de uma maior deterioração das relações com Moscou.

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