ONU: "O planeta está em grave perigo. O El Niño atingiu proporções gigantescas e vai durar até fevereiro"

Reprodução: Agência Brasil/Divulgação/Nasa

Mais Lidos

  • Crise no STF após divulgação de conversas entre Moraes e Vorcaro: como chegamos até aqui?

    LER MAIS
  • Gabinete de Mendonça ouviu Vorcaro "a pedido da defesa"

    LER MAIS
  • “Os revolucionários não fazem revoluções, os reformistas não reformam, e a extrema-direita está crescendo”. Entrevista com Pablo Stefanoni

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

04 Setembro 2026

Os danos já estão ocorrendo da América do Sul à Indonésia. Três furacões perigosos estão se formando simultaneamente no Pacífico. "É necessária uma mobilização global."

A reportagem é de Giacomo Talignani, publicada por La Repubblica, 03-09-2026. 

Para descrever o desconhecido, são necessárias palavras e fatos. Estas são as importantes palavras do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, que emite um alerta cristalino: "O planeta, confrontado com um El Niño de proporções gigantescas, está em perigo." "A ciência não deixa margem para dúvidas: a Terra está em águas desconhecidas, e essas águas estão a aquecer. As temperaturas continuam a subir e o mundo está na zona de perigo para eventos climáticos extremos", alerta Guterres, recordando que este fenômeno natural, que tende a aumentar as temperaturas e a provocar eventos extremos, deverá agora tornar-se "muito intenso" e persistir até fevereiro de 2027.

Os três furacões que se aproximam

E há os fatos: mesmo agora, enquanto o El Niño ainda está se desenvolvendo, eventos climáticos extremos estão se intensificando: enchentes e inundações na América do Sul, ondas de calor nos Estados Unidos, incêndios devastadores no Sudeste Asiático, incluindo Indonésia, e na Austrália. A mudança no ciclo das monções na Índia compromete as colheitas. A pesca, como a da anchova, já está em crise no Peru, com a produção dizimada. Ou as chuvas atrasadas e a seca que estão deixando o Sudão de joelhos.

O poder desse fenômeno é melhor descrito por uma imagem capturada e enviada por satélites. Observações do céu revelam a formação simultânea de três grandes furacões no Pacífico. Essa situação rara e perigosa é semelhante à observada no passado durante outra fase do El Niño, em 2015-2016. Simultaneamente, no Pacífico central e oriental, o furacão Lowell (categoria 5) é claramente visível, com seu formato circular característico, movendo-se para oeste, seguido pelo furacão Karina, de categoria 4. Ao lado deles, está o que antes era uma tempestade (Marie), destinada a se tornar um furacão nas próximas horas.

Segundo o Centro Nacional de Furacões (NHC), espera-se que esses gigantes passem ao sul e nordeste do Havaí, com sorte sem afetar a população, embora os riscos não possam ser descartados. Essa situação está claramente ligada à presença do El Niño, que normalmente favorece uma temporada de furacões mais intensa do que o normal no Pacífico (e, inversamente, uma menos intensa no Atlântico).

As consequências

Uma sequência de três ciclones consecutivos não é apenas rara, é alarmante. Ela se encaixa em um contexto claro: os oceanos, especialmente o Pacífico equatorial, estão extremamente quentes. A temperatura média recorde mundial da superfície, de 21,1 graus Celsius, atingida em agosto, também nos indica que a energia potencial que será liberada por esses eventos extremos é, em parte, difícil até mesmo de imaginar. Não é coincidência que a Organização Meteorológica Mundial, uma agência das Nações Unidas, tenha declarado que o El Niño atingirá seu pico no final deste ano e terá "o potencial de infligir um golpe devastador em comunidades e economias ao redor do mundo", afirma Celeste Saulo, Secretária-Geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM).

"Nunca antes, nos 50 anos de história da OMM, lançamos uma mobilização em tão grande escala com os serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais, que estão na linha de frente fornecendo previsões e serviços para salvar vidas e meios de subsistência. Não há tempo a perder." Não há tempo a perder em todas as frentes: da biodiversidade, ameaçada por ondas de calor terrestres e marinhas (como o atual evento de branqueamento de corais, por exemplo), à proteção da vida humana, incluindo o acesso a alimentos.

O Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, por exemplo, afirma que o El Niño corre o risco de levar cerca de 50 milhões de pessoas à fome aguda. Embora seja um fenômeno natural, é preciso lembrar que sua combinação com a crise climática desencadeada pelas emissões humanas torna tudo extremamente complexo para o planeta. A própria ONU alertou recentemente para a iminente ultrapassagem do limite de 1,5 grau Celsius de aquecimento global acima dos níveis pré-industriais, afirmando que, mesmo no cenário mais otimista, provavelmente atingiremos um pico de 1,8 grau, com danos irreversíveis ao planeta.

"Precisamos de uma mobilização"

Por essa razão, diversas organizações globais estão apelando para que a ciência seja ouvida, visto que, como afirma a OMM (Organização Meteorológica Mundial), "a confiança nas previsões é alta". Essas previsões indicam agora uma probabilidade de quase 100% de que o El Niño persista até o início de 2027. Enquanto isso, para o período de setembro a novembro de 2026, os modelos sugerem uma maior probabilidade de temperaturas acima da média em quase todas as áreas da superfície terrestre. A Europa será afetada apenas indiretamente por esse fenômeno, mas o aumento das temperaturas e invernos mais amenos não podem ser descartados. Para se preparar para tudo isso, as Nações Unidas concluem que é necessária "uma mobilização global" para coordenar sistemas de alerta precoce, mitigar os riscos associados a secas, inundações e ondas de calor anormais e salvar vidas.

Leia mais