El Niño nem chegou e 55% dos corais do mundo estão em risco

Branqueamento de corais (Foto: Vardhan Patankar | Wikimedia Commons)

Mais Lidos

  • Quatro grandes grupos não homogêneos se destacam no cenário interno. Entretanto, suas articulações nesse ambiente repressivo estão ainda mais impactadas frente ao conflito deflagrado por Israel e EUA, cuja reação iraniana foi subestimada

    Movimentos sociais no Irã: protagonismo na resistência à política imperialista mundial. Entrevista especial com Camila Hirt Munareto

    LER MAIS
  • A ameaça de Trump: "O Irã precisa aceitar o plano dos EUA ou eu o destruirei da noite para o dia"

    LER MAIS
  • Os deuses enlouquecem a quem querem destruir. Artigo de Giorgio Agamben

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

08 Abril 2026

O aquecimento anormal dos oceanos, impulsionado pelas mudanças climáticas, já coloca mais da metade dos recifes de corais do planeta sob estresse térmico, cenário que pode se agravar com a possível formação do El Niño no segundo semestre de 2026, atingindo também os recifes brasileiros.

A reportagem é de Priscila Pacheco, publicada por Observatório do Clima, 06-04-2026.

Levantamento feito pelo Observatório do Clima a partir de dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) mostra que, das 219 estações monitoradas ao redor do mundo, 55% já registram algum nível de estresse. Desse total, 11% apresentam alertas de branqueamento em níveis 1 e 2 — sendo que o nível 1 indica branqueamento inicial com risco de se espalhar pelo recife, e o nível 2 indica risco de mortalidade para corais mais sensíveis ao calor. Outros 8,6% estão em águas com temperaturas capazes de iniciar o branqueamento, enquanto 35% já enfrentam condições iniciais de risco.

No Brasil, duas estações — Maracajaú (RN) e Todos os Santos (BA) —, das sete monitoradas, já estão sob alerta nível 1. E isso tudo antes mesmo de o El Niño chegar.

Fenômeno natural que eleva ainda mais a temperatura das águas superficiais, o El Niño tem relação direta com o branqueamento dos corais. Historicamente, os episódios mais severos de branqueamento global coincidiram com os anos em que o fenômeno esteve presente, como 1997/98, 2010, 2016/17 e 2023/24.

Na mais recente onda de branqueamento (2023/24), a Grande Barreira de Corais, na Austrália, teve quase 80% de seus corais afetados. No Brasil, uma pesquisa publicada em setembro de 2025 apontou que anomalias térmicas generalizadas frequentemente ultrapassaram 20°C por semana e persistiram por períodos de três a cinco meses, nos anos em que o fenômeno esteve presente.

Como resultado, a incidência de branqueamento chegou a 96% em Maragogi (AL) e 84% em Porto de Galinhas (PE), e a mortalidade a 88% em Maragogi e em 53% em São José da Coroa Grande (PE). Esses locais fazem parte da estação de monitoramento Costa dos Corais, que não registro de branqueamento neste momento.

Segundo Janaína Bumbeer, gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário, o risco atual não está apenas no aquecimento adicional, mas também na falta de tempo para recuperação dos recifes. Após o evento recente, que manteve os corais sob estresse por meses, muitos ainda estão fragilizados. “Mesmo que a temperatura [em 2026] não atinja níveis tão extremos quanto os de 2024, o impacto pode ser grande, porque os corais não tiveram tempo de se recuperar da última onda de branqueamento”, explica.

Os corais estão entre os ecossistemas mais vulneráveis às mudanças climáticas. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), mesmo que o aumento da temperatura global seja limitado a 1,5°C, entre 70% e 90% dos corais podem desaparecer. Com um aquecimento de 2°C, essa perda pode chegar a 99%.

Fim da proteção costeira

Os corais são pequenos animais fixos que vivem em simbiose com algas microscópicas chamadas zooxantelas. Essas algas fornecem nutrientes e oxigênio, enquanto os corais lhes oferecem abrigo. Quando a água permanece aquecida por longos períodos, as zooxantelas são expulsas, provocando o branqueamento e podendo levar à morte dos corais.

Os recifes abrigam mais de 25% da vida marinha e desempenham funções essenciais como áreas de alimentação, berçário e reprodução. Entre os peixes de água salgada, cerca de 65% dependem desses ambientes em alguma fase da vida. Também absorvem gás carbônico, ajudam a melhorar a qualidade da água por meio da filtragem, sustentam atividades turísticas e são fontes de matéria-prima para medicamentos. Além disso, funcionam como barreiras naturais que protegem as zonas costeiras.

Um relatório da Fundação Grupo Boticário aponta que os recifes podem dissipar até 97% da energia das ondas. A degradação dessas estruturas tende a aumentar a vulnerabilidade da costa, especialmente diante de eventos extremos, como ressacas e tempestades. Cerca de 275 milhões de pessoas vivem a até 30 quilômetros de recifes de corais.

Segundo Bumbeer, esse risco é agravado por outros fatores associados às mudanças climáticas e à ação humana. “Esse problema dos corais, somado ao aumento do nível do mar, à sedimentação e ao soterramento dos recifes por causa de construções, reduz cada vez mais a proteção costeira. Além disso, há o aumento da frequência e da intensidade das tempestades”, afirma.

Para a gerente de projetos, a proteção dos recifes exige ações integradas, começando pela redução máxima de emissões de gases de efeito estufa para conter o aquecimento global. Também é necessário ampliar a proteção legal dessas áreas e incluí-las em planos municipais de adaptação costeira e climática, com ações concretas e investimentos.

A preservação depende ainda da redução de pressões locais, como poluição, sedimentação e turismo não sustentável, além da proteção de outros ecossistemas costeiros, como os manguezais.

“Os manguezais têm um papel fundamental na filtragem e na melhoria da qualidade da água doce que chega ao mar. Quando são degradados, os corais também sofrem, porque passam a receber água com pior qualidade”, explica.

No campo tecnológico, cientistas têm testado intervenções como restauração por meio do plantio de corais, reprodução in vitro e o uso de probióticos e antioxidantes para fortalecer o sistema imunológico desses organismos. “Temos que adotar essas soluções científicas com políticas públicas de proteção e restauração”, complementa a especialista.

As estratégias, porém, devem considerar as especificidades de cada região. “Na Austrália, por exemplo, as espécies são diferentes e evoluíram em outras condições. A resposta ao aquecimento e outros estresses também muda. Não dá para simplesmente importar soluções, mas é possível aprender com elas”, comenta Bumbeer.

Leia mais