03 Setembro 2026
O relatório estima que mais de 20 milhões de crianças e adolescentes entre 12 e 17 anos em 21 países sofreram algum tipo de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia durante um período de um ano. Esse número representa um em cada cinco menores que usam a internet nesses países.
A reportagem é de Silvia Laboreo Longás, publicada por El País, 03-09-2026.
Cerca de 300 pastas, divididas por município e organizadas alfabeticamente. Dentro delas, imagens sexualmente explícitas de adolescentes, distribuídas sem o consentimento delas. Foram anunciadas em um grupo do Facebook e posteriormente vendidas via Telegram por apenas 7,5 pesos (0,38 euros). Foi enquanto navegava nas redes sociais que uma garota mexicana de 16 anos descobriu que suas imagens íntimas haviam sido colocadas à venda.
A história delas é contada no relatório "Através dos Olhos das Crianças: Como as Tecnologias Digitais Facilitam o Abuso Sexual", publicado nesta quinta-feira pelo UNICEF, Interpol e ECPAT International. Trata-se de um dos estudos mais abrangentes do gênero. O relatório estima que mais de 20 milhões de crianças e adolescentes entre 12 e 17 anos em 21 países sofreram algum tipo de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia durante um período de um ano. Esse número representa um em cada cinco menores que usam a internet nesses países.
A análise destaca a inteligência artificial (IA) como um novo fator que aumentou os riscos de abuso e exploração sexual. O relatório estima que mais de 1,1 milhão de crianças foram vítimas de imagens ou vídeos sexuais falsos criados com IA, segundo dados dos países pesquisados na segunda fase do estudo, realizada entre 2024 e 2025.
"Você não precisa fazer nada para que alguém pegue sua foto e a coloque sobre a imagem de outra pessoa nua, fazendo com que pareça realista. Mas diversos estudos mostraram que as consequências, em termos de repercussões sociais e traumas de saúde mental, são comparáveis ao abuso físico", enfatiza Kardefelt, que expressa preocupação com o rápido avanço e aprimoramento da IA generativa, o que pode levar a um aumento desse tipo de abuso nos próximos anos.
O estudo baseia-se em pesquisas com 21.000 crianças e adolescentes da Etiópia, Quênia, Moçambique, Namíbia, Tanzânia, Uganda, Camboja, Indonésia, Malásia, Filipinas, Tailândia, Vietnã, Brasil, Colômbia, República Dominicana, México, Armênia, Montenegro, Macedônia do Norte, Sérvia e Paquistão.
Esses países foram selecionados para refletir uma variedade de contextos, incluindo diferentes níveis de renda, taxas de uso da internet, sistemas de proteção à criança e níveis de desenvolvimento digital.
A análise também se baseia em mais de 100 entrevistas aprofundadas com sobreviventes dessa violência, que "lançam luz sobre o problema a partir da perspectiva das crianças", explica Daniel Kardefelt Whinther, autor principal da pesquisa na Unicef, por videochamada.
As crianças participantes podiam selecionar várias opções na pesquisa, que abrangia sete formas de abuso e exploração sexual facilitadas pela tecnologia.
Em apenas um ano, estima-se que 15 milhões de crianças foram expostas a conteúdo sexual indesejado nos 21 países analisados. Nove milhões foram solicitadas a manter conversas sexualmente explícitas ou a compartilhar imagens sexuais contra a sua vontade, e quatro milhões foram vítimas da distribuição de imagens sexuais sem o seu consentimento.
Quase 60% dos casos ocorreram nas redes sociais e 14% em jogos online. 38% das crianças tiveram o primeiro contato com o abusador on-line. No Brasil, uma menina de 16 anos relata ter recebido uma chamada de vídeo sexual indesejada pelas redes sociais de um desconhecido que, posteriormente, a ameaçou para que ela não contasse à mãe. "Até hoje, não sei quem fez isso."
"Também entrevistamos assistentes sociais que nos disseram que é bastante comum os abusadores visarem centenas de crianças e enviarem mensagens ou pedidos de amizade para ver quem responde", explica a pesquisadora. Kardefelt destaca que outros recursos de design da plataforma, como mensagens diretas ou chats ocultos ou criptografados, podem facilitar esse tipo de violência digital.
Pessoas dos arredores
No entanto, embora o abuso ocorra por meio de uma tela, muitas experiências começam pessoalmente. De acordo com a pesquisa, 57% dos casos envolveram alguém que a criança já conhecia, como outras crianças, parceiros, amigos ou familiares. Foi o caso de uma menina mexicana que se lembra de que, aos 14 anos, alguns amigos de sua irmã mais velha lhe pediram fotos de conteúdo sexual.
"Muitas vezes, quando pensamos em abuso sexual on-line, pensamos em um adulto pedófilo", explica o pesquisador. Ele enfatiza que isso existe, mas frequentemente também envolve alguém do círculo social da criança. "A tecnologia se torna o meio pelo qual eles podem acessar essa criança de forma privada", acrescenta. "É possível ganhar a confiança dela, abusá-la e ninguém na comunidade pode ver."
Embora a prevalência dessa violência on-line seja semelhante entre meninos e meninas, o gênero influencia os métodos que os agressores usam para ganhar a confiança das vítimas e coagi-las, bem como as consequências quando elas tentam pedir ajuda e denunciar o ocorrido. "Nossa conclusão é que os meninos sofrem [esse tipo de abuso] com uma frequência muito maior do que imaginamos", resume Kardefelt.
Meninas e adolescentes são mais propensas a enfrentar culpa, pressão social e ameaças por parte de seus agressores. "Muitas das jovens com quem conversamos nos disseram que seus agressores ameaçaram contar para suas famílias e comunidades", explica Kardefelt. Os meninos, continua ela, podem enfrentar maior pressão relacionada à masculinidade e sentir que precisam ser fortes e lidar com o abuso sozinhos. Em alguns casos, meninos agredidos por homens também podem temer serem julgados ou considerados homossexuais, especialmente em países onde isso é um tabu.
Um jovem gay de Montenegro explica por que não contou a ninguém que havia recebido conteúdo sexual indesejado de homens mais velhos: "Eu me sentia desconfortável em compartilhar, tinha vergonha. Não mais, agora posso falar sobre isso. Mas acho que quando você tem 15 anos e ainda é tão inseguro, você se sente envergonhado. Se eu contar para alguém, o que vão pensar de mim? O que vai acontecer?"
Segundo a análise, mais de quatro em cada dez casos não foram denunciados, portanto, a verdadeira dimensão do problema provavelmente é muito maior. Menos de 1% relatou sua experiência à polícia, a um assistente social ou por meio de uma linha de ajuda. O motivo mais comum para o silêncio foi simplesmente não saber a quem recorrer ou contar, o que ocorreu em 25% dos casos.
Crianças que sofreram exploração on-line apresentaram quatro vezes mais probabilidade de exibir pensamentos ou comportamentos suicidas e automutilação, além de mais ansiedade, do que aquelas que não vivenciaram essa violência.
"Queremos enfatizar a ideia de que as crianças não devem ser responsáveis por se protegerem, porque é isso que está acontecendo em grande parte atualmente", destaca Kardefelt.
O pesquisador enfatiza a necessidade de as empresas de tecnologia assumirem maior responsabilidade, identificando e eliminando características de design que facilitem o abuso, aprimorando a privacidade por padrão e fortalecendo os sistemas de moderação e denúncia. Elas também devem ser mais transparentes e avaliar rigorosamente a eficácia de suas medidas de segurança.
Na área de governo e políticas públicas, é necessário modernizar a legislação para adaptá-la às novas formas de abuso sexual on-line e fornecer aos órgãos reguladores autoridade e recursos suficientes para responsabilizar as plataformas, entre outras medidas.
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