Morreu Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose

Foto: Wikimedia Commons

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02 Setembro 2026

"Nascido em Castel Boglione, na região italiana do PiemonteBianchi abandonou ainda jovem uma possível carreira política e uma vida ligada à Ação Católica para procurar uma forma de vida mais próxima do Evangelho. Passou pela França, onde conviveu com comunidades ligadas a Abbé Pierre, e estabeleceu uma relação próxima com o irmão Roger Schutz, fundador da Comunidade de Taizé. Na década de 1960, participou também em grupos ecumênicos em Turim."

O artigo é de Clara Raimundo, publicado por 7Margens, 01-09-2026.

Eis o artigo.

Enzo Bianchi, fundador da Comunidade monástica de Bose e, mais recentemente, da Fraternidade da Madia, morreu esta terça-feira, 1 de setembro, aos 83 anos, no hospital Molinette, em Turim. A notícia foi dada pelo jornal Corriere della Sera, que recorda uma vida marcada pela procura de uma experiência cristã assente na oração, na hospitalidade e no diálogo entre diferentes confissões cristãs, mas também por muitas tensões.

Nascido em Castel Boglione, na região italiana do Piemonte, Bianchi abandonou ainda jovem uma possível carreira política e uma vida ligada à Ação Católica para procurar uma forma de vida mais próxima do Evangelho. Passou pela França, onde conviveu com comunidades ligadas a Abbé Pierre, e estabeleceu uma relação próxima com o irmão Roger Schutz, fundador da Comunidade de Taizé. Na década de 1960, participou também em grupos ecumênicos em Turim.

Em 1965, instalou-se em Bose, numa pequena localidade abandonada da Serra de Ivrea. Aí começou a experiência que viria a dar origem à Comunidade de Bose, uma comunidade monástica ecumênica que reuniu católicos, protestantes e membros de outras tradições cristãs numa vida comum de oração, trabalho, estudo bíblico e acolhimento.

A comunidade cresceu ao longo das décadas seguintes e tornou-se uma referência internacional no diálogo ecumênico e na espiritualidade cristã. Por Bose passaram numerosas figuras da Igreja, da cultura, da política e da investigação, e a comunidade tornou-se conhecida também pela sua produção editorial e pelos encontros sobre Bíblia, espiritualidade e ecumenismo.

A história de Bose não foi, contudo, isenta de conflitos com a hierarquia católica. Nos primeiros anos, a comunidade chegou a ser alvo de um interdito imposto pelo então bispo de Biella, situação que viria a ser ultrapassada com a intervenção do cardeal Michele Pellegrino, arcebispo de Turim.

Bianchi permaneceu como prior de Bose durante mais de meio século. Em 25 de janeiro de 2017 apresentou a sua demissão, deixando uma comunidade que, segundo o Corriere della Sera, se encontrava então numa fase de grande expansão, com várias fraternidades ligadas à casa-mãe.

A crise mais grave surgiria alguns anos depois. Em 2019, o Vaticano enviou um visitador apostólico a Bose e, em maio de 2020, o Papa Francisco aprovou um decreto que determinava a saída definitiva de Bianchi da comunidade, juntamente com outros três membros. A decisão provocou uma profunda crise interna e levou à saída de vários monges e monjas.

Bianchi instalou-se então na Casa della Madia, a cerca de dez quilômetros da comunidade, onde viria a fundar uma nova fraternidade. Francisco manteve com ele uma relação pessoal, apesar da decisão que determinara o seu afastamento de Bose.

Ao recordar os últimos anos da vida de Enzo Bianchi, o historiador Alberto Melloni, que assina o obituário publicado esta terça-feira pelo Corriere della Sera, recorda uma carta que Francisco lhe enviou durante a crise. O Papa pedia-lhe que não abandonasse a sua vocação perante a experiência de desolação, abandono e aquilo que Bianchi terá sentido como uma forma de traição.

A relação entre os dois era anterior à eleição de Francisco. O então cardeal Jorge Mario Bergoglio conhecia os escritos de Bianchi e, segundo Melloni, referia-se a ele como “meu mestre”.

Autor de dezenas de livros, Bianchi tornou-se uma das vozes mais conhecidas da espiritualidade cristã italiana contemporânea. A Bíblia, a vida monástica, a hospitalidade, a unidade dos cristãos e a relação entre cristianismo e sociedade estiveram entre os temas centrais da sua reflexão.

Em entrevista a António Marujo, publicada no Publico em 2006 e agora republicada pelo 7Margens, Enzo Bianchi explicava que “o cristianismo ou se conjuga em termos de humanização ou se torna irrelevante”. E acrescentava: “A indiferença vive e prospera quando não se põe em evidência a diferença”, defendendo que os cristãos deveriam mostrar essa diferença “no comportamento, na comunicação, na comunhão, no modo de viver”.

Para Melloni, não restam dúvidas: a morte de Bianchi deixa um vazio que ultrapassa a comunidade que fundou. “Todos, monges e bispos, fiéis e ateus, serão menos feridos, mas menos nutridos”, conclui.

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