Erasmo e Lutero: defensores da fé e do pensamento. Artigo de Gianfranco Ravasi

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02 Setembro 2026

Deus estimula o livre-arbítrio e o conduz à plenitude, mas não o priva da possibilidade de decidir se aceita ou rejeita a salvação, possibilidade inerente à liberdade humana. Sem tal interação, não poderia existir o ato moral responsável.

O artigo é de Gianfranco Ravasi, publicado por Il Sole 24 Ore, 30-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Foram dois gigantes do pensamento, duas presenças imponentes na história, na religião e na cultura, ambos agostinianos, assim como o Papa Leão XIV: Erasmo de Roterdã (1469-1536), filho ilegítimo de um padre, e Martinho Lutero (1483-1546), futuro esposo de uma ex-freira. Suas trajetórias intelectuais e teológicas entrelaçaram-se, emaranhando-se também na teia da polêmica. É o caso de dois ensaios cuja tensão mútua é evidente já nos títulos: O Livre-Arbítrio, de Erasmo, e Nascido Escravo, de Lutero. Ambas as obras são citadas e resumidas no Lessico delle opere teologiche, uma compilação de textos considerados fundamentais na história do cristianismo, preparada por um grupo de estudiosos alemães (Queriniana, 2015).

Na verdade, a relação entre as duas figuras sempre foi uma mistura de estima e desconfiança, admiração e vigilância. O ponto de virada dialético ocorreu quando O Livre-Arbítrio foi impresso em Basileia, em 1524, e Lutero reagiu asperamente, definindo-o como um panfleto sem erudição e irritante, apesar de ter lido apenas dois "quaterniones" antes de se considerar incapaz de prosseguir. Efetivamente, a obra de Erasmo era uma flecha certeira no coração da reforma teológica luterana, ou seja, na questão da liberdade humana e da graça divina.

Erasmo da Rotterdam - Martin Lutero, Il libero arbitrio - Il servo arbitrio, Rosenberg & Sellier, 412 págs.

Temos agora à disposição uma nova edição que apresenta essas duas obras em contraponto, trazendo os textos originais em latim ao lado de traduções para o italiano, realizadas por Domenico Lassandro e Elisa Tinelli, respectivamente, e acompanhadas por uma preciosa introdução, notas e comentários de Francesco (Franco) Buzzi, ex-prefeito da Biblioteca Ambrosiana de Milão. Fazem parte da série Corona Patrum Erasmiana, sediada em Turim, cidade onde Erasmo obteve seu doutorado em 1506. Tracemos brevemente os dois itinerários, começando pelo tema do livre-arbítrio. A reflexão de Erasmo, como é práxis da teologia cristã, fundamenta-se no corpo das Sagradas Escrituras, avaliadas em sua complexidade e que pode conter até mesmo posições antitéticas.

Segue-se a "diatribe", ou seja, a discussão que tem seu ponto principal na livre vontade humana que, embora enfraquecida, não é extinta pelo pecado original inerente à pessoa, que exclui (com Lutero) qualquer autossalvação humana. A redenção operada por Cristo "recriou" o homem, permitindo-lhe redescobrir sua identidade; de forma que graça divina e livre vontade humana se movem em conjunto como causa primeira e causa segunda. Deus estimula o livre-arbítrio e o conduz à plenitude, mas não o priva da possibilidade de decidir se aceita ou rejeita a salvação, possibilidade inerente à liberdade humana. Sem tal interação, não poderia existir o ato moral responsável.

Lutero replica veementemente com sua obra Nascido Escravo, publicada em Wittenberg no ano seguinte, 1525; trata-se de um dos textos mais provocativos da história da teologia, a ponto de ter sido posteriormente contestado até mesmo por uma figura importante do protestantismo como Karl Barth. Em páginas frequentemente prolixas e redundantes, e que tem apenas parcialmente como palimpsesto o texto de Erasmo, o Reformador contesta sobretudo a base bíblica da obra, apoiando-se principalmente em passagens paulinas e joaninas. Ele trava, assim, uma verdadeira batalha contra a abordagem mediadora pacata e refinada de seu interlocutor, desferindo um golpe contra a livre vontade humana em defesa da graça divina.

Segundo essa abordagem "combativa", e muitas vezes assertória, apenas Deus possui livre-arbítrio perfeito. O ser humano possui alguma margem de liberdade na esfera profana, onde atua a sua razão, mas não possui nenhuma liberdade em sua relação religiosa com Deus. Para ilustrar isso, recorremos, assim como faz Lutero, a uma passagem do profeta Ezequiel na qual o Senhor declara: "Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? Não desejo eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva?" (18,23). Dessa afirmação, Lutero deriva a famosa e radical distinção entre Lei e Evangelho, entre o "Deus oculto" e o "Deus revelado".

O "Deus oculto, em Sua majestade, opera vida, morte e tudo em nós", inclusive no ímpio e em Satanás. É à Sua onipotência que, em última análise, se dirigem tanto o bem quanto o mal. O "Deus revelado", pregado no Evangelho e encarnado em Cristo, por sua vez, lamenta a corrupção do ímpio e o redime. Como diz São Paulo: "ninguém será declarado justo diante dele pelas obras da lei, pois por meio da lei nos tornamos conscientes do pecado" (Romanos 3,20).

O "Deus oculto" situa-se do lado da Lei, indicando o que o homem deve fazer; contudo, sendo fraca e pecadora, a criatura humana não pode nem quer cumpri-la. Em última análise, como escreve Buzzi em sua introdução, esse Deus "é apenas o lado ou o reverso sombrio do rosto revelado de Deus". E prossegue: "O verdadeiro foco da teologia é o Deus encarnado e crucificado em Jesus. Portanto, Lutero foge do Deus que se oculta e encontra refúgio no Deus que se fez homem e se revelou na cruz". O binômio "Deus oculto" e "Deus revelado" reflete, nas entrelinhas, o contraste entre Lei e Evangelho. A grande expectativa da fé é a esperança de que, à luz da glória do juízo universal final, a tensão entre o "Deus oculto" e o "Deus revelado" seja resolvida, quando Deus será tudo em todos.

Permanece, contudo, difícil decifrar plenamente a intensidade vulcânica do pensamento de Lutero em contraposição ao pensamento claro e pacato de Erasmo.

Ficha técnica

Erasmo da Rotterdam - Martin Lutero, Il libero arbitrio - Il servo arbitrio, Rosenberg & Sellier, 412 páginas.

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