A guerra em Gaza continua a matar, também na mente. Artigo de Riccardo Michelucci

Foto: UNICEF

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21 Agosto 2026

"O caso de William Shakin ilustra isso com especial crueza. Seu caso também reabre a questão da assistência a veteranos que vivem no exterior e das dificuldades no reconhecimento de feridas psicológicas. Pois, mesmo quando termina no campo, a guerra pode continuar na mente daqueles que dela participaram."

A reportagem é de Riccardo Michelucci, jornalista, publicada por Avvenire, 19-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Enquanto cresce em Israel a consciência de que uma parte da ofensiva em Gaza está sendo travada agora na mente daqueles que retornaram do front, 2026 se revela o ano mais trágico já registrado em suicídios nas Forças de Defesa desde o início da guerra.

A guerra havia ficado dentro de William Shakin. Aos vinte e cinco anos, após ter deixado Nova York para se alistar no exército israelense logo após o 7 de outubro, ele lutou em Gaza com o 13º Batalhão da Brigada Golani e testemunhou a morte de alguns de seus companheiros. Depois retornou aos Estados Unidos, dispensado do serviço e deixando o front de batalha no passado, mas também carregando as lembranças e o fardo pesado do que havia vivenciado. Mês após mês, suas condições pioraram, mas seu transtorno de estresse pós-traumático não havia sido formalmente reconhecido pelo Ministério da Defesa de Israel. Há uma semana, Shakin tirou a própria vida, e sua família agora pede que ele seja sepultado no Monte Herzl, em Jerusalém, o cemitério onde Israel sepulta seus mortos em combate.

O ano de 2026 está se revelando o mais trágico já registrado em termos de suicídios nas forças armadas israelenses desde o início da ofensiva em Gaza. O caso de Shakin faz parte de uma sequência que assumiu contornos cada vez mais alarmantes nas últimas semanas. Em 31 de julho, um reservista das IDF foi encontrado morto em uma floresta perto de Be'er Sheva; ele era o terceiro militar a tirar a própria vida em apenas uma semana.

Poucos dias antes, duas mulheres-soldado haviam morrido em um intervalo de 48 horas: uma, combatente do Batalhão Bardelas, encontrada gravemente ferida em uma base no sul de Israel e que acabou morrendo depois no hospital; a outra, que prestava serviço na inteligência militar, foi encontrada morta na base de Glilot, perto de Ramat HaSharon. Cresce em Israel a consciência de que uma parte da ofensiva em Gaza está sendo travada agora na mente daqueles que retornaram do front. Segundo os dados mais recentes citados pelo jornal Haaretz, pelo menos dezoito militares da ativa cometeram suicídio desde o início de 2026. No entanto, esse número não inclui ex-militares que tiraram a própria vida após o desligamento, como o próprio Shakin. As estatísticas oficiais de suicídio em Israel abrangem militares em serviço regular, de carreira ou na reserva; não incluem veteranos que morrem após deixarem as forças armadas, mesmo quando pode haver uma ligação com a experiência militar.

Embora não seja um fenômeno novo, a natureza prolongada do drama em Gaza o agravou significativamente. Em 2025, as IDF registraram 22 suicídios; houve 21 em 2024 e 17 em 2023. Contudo, o desafio mais amplo reside no âmbito do trauma psicológico. Uma análise do Ministério da Defesa de Israel, citada pela Reuters em janeiro, indicou um aumento de quase 40% nos casos de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) em comparação com setembro de 2023, ou seja, antes dos atentados do Hamas em 7 de outubro. Entre os mais de 22.000 militares e membros das forças de segurança tratados por ferimentos relacionados à guerra, 60% apresentavam sequelas pós-traumáticas.

Mas o quadro é ainda mais amplo. Uma comissão governamental encarregada de reformar o atendimento aos veteranos estimou que cerca de 50.000 ex-militares necessitam de assistência para traumas emocionais e, em julho, o governo de Tel Aviv aprovou uma reforma abrangente do sistema de reabilitação para soldados feridos e membros das forças de segurança. A sobrecarga dos serviços já era evidente: em fevereiro, o Ministério da Defesa informou ao Knesset que havia apenas um profissional de saúde mental para cada 850 veteranos com transtornos pós-traumáticos. Os dados sobre a prevenção também são alarmantes. Entre janeiro de 2024 e julho de 2025, 279 soldados tentaram o suicídio; desses, apenas 17% haviam passado por atendimento com um profissional de saúde mental. Além disso, por trás das estatísticas, existe uma forma específica de desgaste. Muitos reservistas alternaram repetidamente entre períodos de combate e de descanso: semanas ou meses no front, o retorno à família e ao trabalho, seguido por uma nova mobilização.

O trauma pode se manifestar mesmo depois de a ameaça ter passado, quando o corpo retorna para casa e a mente finalmente começa a processar o que testemunhou. É por essa razão, entre outras, que em julho o Knesset aprovou uma lei introduzindo a definição de "reação de estresse em combate" na legislação israelense e reconhecendo a natureza específica do TEPT decorrente do combate, prevendo tratamento e apoio especiais nos casos mais complexos. O trauma da guerra entrou, assim, formalmente na categoria dos ferimentos de guerra que exigem cuidados e indenização; há um reconhecimento explícito de que pode surgir inclusive meses após um combate, quando o soldado já não está mais usando a farda. O caso de William Shakin ilustra isso com especial crueza. Seu caso também reabre a questão da assistência a veteranos que vivem no exterior e das dificuldades no reconhecimento de feridas psicológicas. Pois, mesmo quando termina no campo, a guerra pode continuar na mente daqueles que dela participaram.

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