O conselheiro Fernando Cerimedo e o poder por trás dos bastidores da nova direita latino-americana

Foto: rawpixel | JusBrasil

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20 Agosto 2026

O caso de Cerimedo, preso na Bolívia por uma suposta tentativa de feminicídio, expõe a crescente influência daqueles que não precisam de um cargo para exercer poder.

O artigo é de Hugo Alconada Mon, publicado por El País, 20-08-2026.

Eis o artigo.

“Como é o Milei?”, perguntei a ele.

"Dócil".

Em maio de 2023, quando Javier Milei ainda não era presidente da Argentina e poucos acreditavam que ele chegaria à Casa Rosada, sentei-me com o consultor de comunicação e operador político Fernando Cerimedo. Diante de um gravador, ele admitiu operar trolls para a campanha libertária, orquestrar campanhas difamatórias e muito mais. Hoje, Cerimedo está detido na Bolívia, sob investigação por um ataque a tiros contra sua companheira, que está grávida de seu filho. E entre essas duas cenas reside mais do que uma simples biografia pessoal: há uma história sobre como opera a nova direita latino-americana e sobre a crescente influência daqueles que não precisam de cargos públicos para exercer poder público.

Em 2023, Cerimedo foi o homem que explicou como fabricar discursos políticos, manipular algoritmos, construir exércitos digitais e transformar uma campanha eleitoral em uma operação permanente nas redes sociais, com fazendas de trolls e bots. Depois, enfrentou uma investigação criminal no Brasil por seu suposto papel na tomada do Congresso, como assessor de Jair Bolsonaro, para impedir que Lula da Silva assumisse o cargo. E hoje aparece na Bolívia assessorando o presidente Rodrigo Paz… e preso.

Diante desse contexto, é interessante perguntar como alguém que atuava nos bastidores de uma campanha eleitoral argentina acabou assessorando presidentes e candidatos de direita em diversos países da América Latina.

Assim, podemos vislumbrar que, enquanto os partidos tradicionais da região continuam a pensar na política país por país, uma parte da nova direita construiu algo diferente: consultores, estrategistas digitais, influenciadores e operadores que cruzam fronteiras e que não precisam de cargos públicos para exercer poder.

Cerimedo é um caso ilustrativo, mas Javier Negre, uma figura conhecida na Espanha, também aparece nesse esquema. Negre acabou se tornando sócio de Cerimedo ao comprar metade do La Derecha Diario, um pequeno veículo de mídia digital inicialmente sediado na Argentina que se transformou em uma das plataformas do ecossistema libertário, notório por disseminar notícias falsas.

É claro que não se trata de apresentar Cerimedo, Negre e outras figuras da nova direita latino-americana como membros de uma única organização, nem de atribuir-lhes uma coordenação que não foi demonstrada. Trata-se de observar algo mais simples e, ao mesmo tempo, mais inédito: a circulação de consultores, métodos e narrativas que replicam a mesma metodologia questionável em diferentes países da região e, em mais de uma ocasião, servem de elo entre líderes, de Milei a Bolsonaro, de Nayib Bukele a Paz, e de Daniel Noboa a Abelardo de la Espriella, tendo Donald Trump como guia.

Assim, a prisão de Cerimedo na Bolívia revela mais do que apenas os aspectos altamente incomuns do caso policial. O governo reconheceu que Cerimedo assessorava o presidente Paz, embora tenha negado que ele ocupasse um cargo oficial. Esse esclarecimento levanta uma questão politicamente incômoda: quanto poder pode acumular uma pessoa que não ocupa nenhum cargo público? Porque a mulher que ele supostamente tentou assassinar testemunhou que Cerimedo, por exemplo, dirigia a polícia boliviana nos bastidores. E daí surge outra questão: que controles existem sobre pessoas que, como ele ou Santiago Caputo na Argentina, e tantos outros, sem serem funcionários públicos, têm acesso direto a presidentes, participam de campanhas eleitorais ou de comunicação, lidam com informações políticas sensíveis e trabalham simultaneamente em diferentes países?

Cerimedo não inventou esse fenômeno, é claro. Mas sua trajetória profissional nos permite observá-lo com uma clareza incomum: de estrategista digital para um candidato argentino a operador com ligações com a campanha de Bolsonaro; daí para uma rede internacional próxima ao trumpismo e, finalmente, a assessor de outros presidentes. Um entre tantos consultores que governam sem governar.

Naquela entrevista de 2023, quando Milei parecia longe de chegar ao poder, Cerimedo admitiu que trabalhava com trolls e contas falsas nas redes sociais, que organizava campanhas negativas e que usava estruturas digitais para interferir no discurso público. Ele também afirmou que estava disposto a “se sacrificar” — essa foi a palavra que usou — por Milei, a quem acabara de descrever como “dócil”.

"Ele acabou de me dar um diploma", eu disse, e ele caiu na gargalhada.

“Eu tinha a mesma sensação que você até conhecê-lo”, acrescentou ela. “Ele não é nada arrogante. Se ele achar que sua ideia é melhor que a dele, ele a adotará. Ele é uma pessoa muito aberta.”

Três anos depois, essa palavra — "dócil" — adquire uma ressonância diferente. Não porque explique o que aconteceu na Bolívia, algo que os investigadores terão de apurar, mas porque revela como o homem sentado à minha frente se via: como alguém que sabia sugerir ideias e influenciar candidatos e líderes.

Talvez aí resida a verdadeira história do caso Cerimedo. Não a de um consultor argentino que acabou detido na Bolívia, mas a de uma nova geração de agentes latino-americanos que aprenderam que, para exercer poder, não é necessário vencer uma eleição, ocupar um cargo público ou assinar decretos. Basta ter acesso e influência sobre a pessoa no poder.

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