Devemos tratar os estrangeiros como Jesus os tratou. Artigo de Thomas Reese

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20 Agosto 2026

"As Escrituras nos lembram que os estrangeiros são filhos de Deus, merecedores do nosso amor e respeito. Quando clamam por ajuda, devemos seguir o exemplo de Jesus e auxiliá-los", escreve escreve Thomas Reese, ex-editor-chefe da revista America, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 19-08-2026.

Eis o artigo.

No último domingo (16 de agosto), no Evangelho lido em muitas igrejas ao redor do mundo, Jesus se mostra um verdadeiro idiota. Ele soa como o presidente Donald Trump e o vice-presidente JD Vance.

O Evangelho era Mateus 15,21-28, a história da mulher cananeia que vai até Jesus implorando que ele cure sua filha, que está atormentada por um demônio.

Jesus a princípio a ignora, fingindo que ela não está ali. Mas ela continua a segui-lo, chamando-o. Ela ignora as tentativas dos discípulos de se livrarem dela. Finalmente, eles pedem a Jesus que a mande embora.

Ele responde que foi enviado "apenas às ovelhas perdidas da casa de Israel". Sua missão é para os judeus, não para os gentios. Mas a mulher continua vindo e implora: "Senhor, ajuda-me".

Jesus responde de uma maneira muito pouco cristã: "Não é certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorros". Em outras palavras, ele a chama de cadela.

Prefiro acreditar que essa história pouco lisonjeira foi inventada por Mateus. Mas por que Mateus a inventaria? Talvez porque ele tivesse uma mensagem importante para ensinar aos primeiros judeus cristãos — e a nós.

Esta passagem do Evangelho reflete a relutância dos primeiros judeus cristãos em aceitar gentios na comunidade cristã. Sabemos pelos Atos dos Apóstolos que os líderes dos judeus cristãos em Jerusalém, incluindo Pedro, se opunham ao batismo de gentios. Pedro mudou de ideia quando viu que os gentios haviam recebido o Espírito Santo. Como poderia ele negar o batismo àqueles a quem Deus havia dado o Espírito Santo?

Da mesma forma, no Evangelho, Jesus inicialmente rejeita a mulher cananeia por ela não ser da casa de Israel. Mas ele muda de ideia ao ver quanta fé ela tem. Ele muda de ideia ao ver o quanto ela ama sua filha. O Evangelho está dizendo aos primeiros judeus cristãos que, assim como Jesus, eles devem mudar sua atitude em relação aos gentios.

Nem todos os judeus tinham uma visão completamente negativa dos gentios. Deutero-Isaías (ou Segundo Isaías), autor dos capítulos 40 a 55 do Livro de Isaías, acreditava que os gentios podiam se unir ao Senhor.

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Aqueles que amavam o Senhor, se tornavam seus servos e permaneciam fiéis à sua aliança seriam levados pelo Senhor ao seu santo monte, Jerusalém. Eles se alegrarão na minha casa de oração; os seus holocaustos e sacrifícios serão aceitos no meu altar, pois a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos (Isaías 56,1, 6-7).

Isaías diz ao seu povo que, judeu ou estrangeiro, todos serão julgados por "observarem o que é certo e praticarem a justiça". Este foi um ensinamento revolucionário que nem sempre foi acolhido pelo povo de Israel.

São Paulo era o líder do grupo pró-gentios entre os judeus cristãos. Ele ficou desapontado porque seus irmãos e irmãs judeus não aceitaram Jesus como o Messias. Mas seu amor por eles o fez estar disposto a ser amaldiçoado por sua salvação.

Paulo argumenta que tanto judeus quanto gentios foram desobedientes a Deus e precisam de sua misericórdia, portanto, nenhum dos dois deve desprezar o outro.

Mas Paulo não negava a singularidade do povo judeu. Ele acreditava que Deus havia feito uma aliança especial com a casa de Israel. Essa aliança é irrevogável e permanece em vigor até hoje.

No passado, a maioria dos cristãos ensinava que não havia salvação fora da igreja, argumentando que, se você não estivesse na igreja deles, iria para o inferno. Algumas igrejas ainda falam dessa maneira. Elas acreditam que se apegar a Jesus significa excluir quem está de fora.

Hoje, os católicos acreditam, como Isaías e Paulo, que todos serão julgados por suas ações e seu amor, mas isso não significa que pensamos que não haja diferença entre as religiões.

Cremos que Jesus é a revelação especial de Deus, uma presença única de Deus entre a humanidade; cremos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo. Cremos também que, embora sejamos pecadores, a Igreja Católica é uma comunidade especial onde a Palavra de Deus, os sacramentos e o Espírito Santo estão presentes. Cremos que, como Igreja, temos uma responsabilidade especial de testemunhar o amor de Deus e de trabalhar com outros para construir o Reino de Deus, de justiça, paz e amor.

Mas hoje, assim como na época de Jesus e Isaías, as pessoas não gostam de estrangeiros. São recebidas com suspeita e medo.

O governo Trump parece concordar com Jesus antes de ele mudar de ideia sobre a mulher cananeia: estrangeiros são cães que não devem ser alimentados à mesa da nação.

Por exemplo, Trump se referiu a estrangeiros como criminosos, pessoas doentes que estão "envenenando o sangue do nosso país". Ele disse sobre imigrantes: "Não, eles não são humanos, eles não são humanos. Eles são animais."

Da mesma forma, quando Vance argumentou que a caridade começa localmente com a família e os concidadãos, ele soou muito como Jesus dizendo: "Não é certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorros".

Mas essa não foi a palavra final de Jesus. Ele mudou de ideia.

Infelizmente, muitos americanos não mudaram de ideia. Aqueles que buscaram refúgio da perseguição, do crime e da pobreza estão sendo expulsos do nosso país. Programas, como o da USAID, que visavam ajudar estrangeiros, foram destruídos ou drasticamente reduzidos. Só sobrou para os cães.

As Escrituras nos lembram que os estrangeiros são filhos de Deus, merecedores do nosso amor e respeito. Quando clamam por ajuda, devemos seguir o exemplo de Jesus e auxiliá-los.

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