11 Fevereiro 2026
Já faz um ano desde que o governo Trump desmantelou a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), com cortes na ajuda que levaram ao fechamento de clínicas de HIV na África do Sul, ao encerramento de programas médicos no Afeganistão e ao fim de inúmeros programas de combate à desnutrição e doenças evitáveis em todo o mundo.
A reportagem é de Lauren Kent, publicada originalmente por CNN Word e reproduzida por Viento Sur, 10-02-2026. A tradução é do Cepat.
A redução da ajuda externa dos EUA foi seguida por cortes do Reino Unido, Alemanha, Canadá e outras nações desenvolvidas, que entrarão em vigor este ano e no próximo, o que exacerbará o impacto.
Agora, um novo estudo publicado na revista médica The Lancet visa quantificar o custo humano dessas decisões orçamentárias, prevendo que os cortes na ajuda global podem levar a pelo menos 9,4 milhões de mortes até 2030, caso as tendências atuais de financiamento continuem. Estima-se que cerca de 2,5 milhões dessas mortes serão de crianças menores de cinco anos.
O estudo, revisado por pares e realizado pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) com financiamento do governo espanhol e da Fundação Rockefeller, modelou o resultado caso os cortes na ajuda externa continuem em linha com as médias recentes e comparou esses números com as mortes que teriam ocorrido se a ajuda tivesse permanecido nos níveis de 2023. O estudo baseou-se em dados de 93 países de baixa e média renda que recebem assistência externa ao desenvolvimento.
Os pesquisadores também modelaram o que poderia acontecer se os cortes no financiamento se agravassem ainda mais até o final da década, projetando que o número de mortes adicionais poderia chegar a 22,6 milhões.
“Nossas análises mostram que a ajuda ao desenvolvimento é uma das intervenções de saúde global mais eficazes disponíveis. Nas últimas duas décadas, ela salvou um número extraordinário de vidas e fortaleceu Estados de bem-estar social e sistemas de saúde frágeis”, disse o coordenador do estudo, Davide Rasella, professor pesquisador do ISGlobal e do Instituto Brasileiro de Saúde Coletiva.
“Retirar esse apoio agora não apenas reverteria conquistas arduamente alcançadas, mas resultaria diretamente em milhões de mortes evitáveis de adultos e crianças nos próximos anos”, afirmou Rasella em comunicado.
O estudo também destacou algumas das conquistas atribuídas à ajuda ao desenvolvimento no exterior nas últimas duas décadas. Entre 2002 e 2021, a ajuda global contribuiu para uma redução de 39% na mortalidade infantil entre crianças menores de cinco anos.
Também contribuiu para um declínio expressivo na mortalidade por diversas doenças transmissíveis importantes, incluindo uma queda de 70% nos casos de HIV/AIDS e de 56% nos casos de malária, enquanto as mortes por desnutrição caíram 56%, conforme documentado pelos pesquisadores.
A nova pesquisa aparece aproximadamente um ano depois de o governo Trump ter começado a desmantelar a USAID e a encerrar o financiamento de um grande número de programas de ajuda humanitária em todo o mundo, incluindo aqueles focados em salvar vidas.
De acordo com funcionários da ONU, os Estados Unidos financiaram cerca de 47% do total de pedidos de ajuda humanitária global em 2024, tornando-se o maior provedor mundial de ajuda humanitária (posição que ainda mantém). Historicamente, a ajuda externa representa cerca de 1% do orçamento federal dos EUA.
Questionado sobre o estudo, um alto funcionário do Departamento de Estado dos EUA chamou a revista The Lancet de “revista fracassada” e afirmou: “Alguns ‘estudos’ recentes baseiam-se em ideias ultrapassadas e insistem que o antigo e ineficaz sistema global de desenvolvimento é a única solução para o sofrimento humano. Isso simplesmente não é verdade”.
“Em vez de ajudar os países beneficiários a se ajudarem, o antigo sistema criou uma cultura global de dependência, agravada por significativa ineficiência e desperdício. Isso levou doadores para o desenvolvimento em todo o mundo, não apenas nos Estados Unidos, a reconsiderarem sua abordagem à ajuda externa”, acrescentou o alto funcionário. Em julho passado, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, descreveu a nova abordagem como “priorizar o comércio em vez da ajuda, as oportunidades em vez da dependência e o investimento em vez da assistência”.
Pessoas estão morrendo
Especialistas em ajuda humanitária e desenvolvimento disseram à CNN que os modelos matemáticos que projetam o número de mortes têm limitações. No entanto, o impacto dos cortes na ajuda já está sendo sentido, embora ainda não esteja claro exatamente como os cortes se desenrolarão e como os países beneficiários irão reagir.
“O que podemos afirmar com certeza é que esses cortes já estão matando pessoas. A magnitude disso ainda é difícil de quantificar, em parte porque os próprios cortes na ajuda humanitária tornaram essa tarefa mais difícil”, disse Jeremy Konyndyk, presidente da Refugees International. Por exemplo, clínicas de saúde que costumavam coletar dados de mortalidade em muitas comunidades fecharam. “Nenhum dado está sendo coletado. Estamos às cegas”.
“Mas vemos evidências de que pessoas já estão morrendo. Vemos evidências de que os sistemas que sabemos que estão salvando vidas estão entrando em colapso”, disse Konyndyk à CNN. “Se as tendências atuais continuarem, a situação piorará consideravelmente nos próximos anos”.
Lee Crawfurd, pesquisador sênior do Centro para o Desenvolvimento Global, que não participou do estudo publicado na The Lancet, disse à CNN que os modelos que projetam o número de mortes podem variar e que “devemos considerar os números exatos com cautela, mas acredito que a conclusão geral esteja correta: haverá um grande número de mortes”.
A própria análise do Centro para o Desenvolvimento Global sobre os cortes na USAID revelou que a atual redução de gastos poderia ter resultado em entre 500.000 e 1.000.000 de mortes a menos em 2025 em comparação com anos anteriores. A análise projeta que futuros cortes de gastos resultarão em entre 670.000 e 1.600.000 mortes por ano.
“Os cortes do ano passado foram significativos”, disse Crawfurd à CNN. “Muitos dos cortes anunciados por países europeus ainda não foram implementados, mas estão planejados para este ano e para o próximo, então haverá mais notícias ruins”. No entanto, ele observou que o estudo da The Lancet não levou em consideração iniciativas filantrópicas ou as respostas dos governos de países em desenvolvimento, que “ajudaram a mitigar alguns dos piores danos”.
Vários países, incluindo Quênia, Ruanda e Nigéria, assinaram acordos bilaterais de política de saúde com os Estados Unidos que canalizam a ajuda por meio de seus governos, em vez de por meio de parceiros e organizações internacionais de ajuda, como parte da nova “Estratégia Global de Saúde 'América Primeiro’” do governo Trump. Contudo, especialistas em políticas de saúde alertaram que a nova estratégia acarreta riscos de corrupção e de negligência dos mais vulneráveis. Os especialistas também criticaram o escopo limitado da estratégia, uma vez que ela se concentra principalmente em HIV/AIDS, malária, tuberculose e surtos de doenças infecciosas, negligenciando outras áreas-chave, como saúde materno-infantil e nutrição.
Enquanto isso, a ONU respondeu às pressões de financiamento com um processo de austeridade, trabalhando para reduzir a burocracia e realocar doações para as medidas que salvam mais vidas.
Konyndyk argumentou que os dados de mortalidade não refletirão muitos dos efeitos adversos dos cortes na ajuda, já que os trabalhadores humanitários e os beneficiários estão realocando fundos freneticamente – por exemplo, retirando dinheiro da educação para a alimentação. Ele também afirmou que a Refugees International testemunhou pessoas vulneráveis adotando estratégias de sobrevivência de curto prazo que terão efeitos adversos a longo prazo, como vender seus pertences, contrair dívidas insustentáveis e tirando os filhos da escola.
“O custo correspondente é que menos pessoas encontrarão empregos, as pessoas se tornarão mais dependentes da ajuda no futuro e a pobreza aumentará”, acrescentou. “A ideia do governo de que se pode cortar drasticamente o financiamento da ajuda global e depois encontrar eficiências para compensar totalmente isso é uma ilusão”.
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