Filosofia pra quê? Artigo de Alexandre Francisco

Foto: Escola de Atenas | Rafael Sanzio/1509-1510

18 Agosto 2026

A resposta para a pergunta "filosofia pra quê?" está no fundamento básico que deve guiar toda experiência de vida humana, descrito por Sócrates: "conhece-te a ti mesmo", e eu acrescentaria, "antes que seja tarde demais".

O artigo é de Alexandre Francisco, advogado, mestre em Filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), membro da equipe do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Filosofia pra quê?

Não foi uma, não foram duas, não lembro ao certo quantas vezes foram, mas essa pergunta "filosofia pra quê?" ronda o meu cotidiano há um bom tempo. Amigos, familiares e conhecidos. Jantares, passeios, divagações. "Mas afinal, pra quê fazer filosofia hoje em dia?"; "com que você vai trabalhar depois?"; "filosofia pra quê?".

Talvez as pessoas que façam essas perguntas não tenham nenhuma intenção de me desestimular. Acho interessante partirmos dessa premissa: as pessoas, ao verbalizarem seu ponto de vista, têm a melhor das intenções. Mas então por que fazemos a pergunta "pra quê filosofia?" ao invés de "pra quê medicina?", "pra quê direito?", "pra quê engenharia?". A resposta parece meio óbvia, mas se eu fosse ficar no raso, não haveria também sentido em estar me dedicando ao estudo filosófico. Precisamos aprofundar.

Dinheiro, empregabilidade, prestígio social. Pressupomos que os cursos de ensino superior que formam médicos, advogados e engenheiros possuem um nível na hierarquia social maior do que outros cursos e profissões. Os chamados "doutores" possuem um espaço no arauto do estrato social reservado pra eles. Qual não seria o choque se um filósofo tivesse o mesmo prestígio social que teve na Antiguidade?

Filosofia não produz sombra

Conta-se que, certa manhã, Diógenes, filósofo cínico, tomava sol sentado ao lado de seu barril. Alexandre, o Grande, andava por aquelas terras e, de tanto ouvir falar no homem que morava dentro de um barril, quis conhecê-lo.

Informado de onde se encontrava o filósofo, Alexandre, montado em seu Bucéfalo, pôs-se frente a frente com Diógenes e, com este, teve o mais memorável de seus diálogos.

Alexandre e Diógenes, 1818 | Nicolas Andre Monsiau

Desta forma apresentou-se o general:

— "Sou Alexandre, o Grande; diante de mim prostram-se os reinos, eu sou possuidor de muitas riquezas".

Diógenes, sem esboçar sinal algum de surpresa, unicamente respondeu ao general:

— "Eu sou Diógenes, e isto me basta".

Alexandre, pasmo com a reação indiferente de Diógenes diante de sua imponência, ainda tentou persuadi-lo, com o pretexto de fazer o filósofo segui-lo:

— "Ouvi muito sobre sua sabedoria, e te ofereço metade de minhas riquezas se quiser acompanhar-me".

Diógenes, para a surpresa de Alexandre e de todos que estavam presentes, prontamente respondeu:

— "De você não desejo nada, quero apenas que saia da frente do meu sol, pois estás me fazendo sombra".

Os soldados do temível general ainda quiseram zombar de Diógenes, mas foram censurados por Alexandre, que os repreendeu desta maneira:

— "Não zombem deste homem, pois se eu não fosse Alexandre Magno, eu queria ser Diógenes".

Alexandre então se retirou, deixando em paz o filósofo, sem nunca esquecer o exemplo de Diógenes, tendo também a certeza de que estivera diante do mais diferente homem de seu tempo.

Conhece-te a ti mesmo 

A anedota é ótima, e talvez nela encontremos nossa resposta. A filosofia nos permite enxergar para além do óbvio, para além das ilusões, aparências e fantasias. Aquilo que, dentro de uma sociedade, em um determinado período de tempo, em determinada cultura, seja para a maioria das pessoas o valor último de sua existência, para aqueles que estudam filosofia, percebem que a eudaimonia, ou seja, a busca de felicidade e florescimento humano, está bem longe de ser apenas bens materiais e paixões passageiras.

O utilitarismo capital da vida moderna nos tornou cegos para nossa própria existência; nossa vida é consumida pelo exterior, sem que possamos elaborar e construir nosso interior humano com integridade, paz e sabedoria. Uma forma ética alternativa à deriva de controle social que nos cerca. Afinal, nossa sociedade subverteu a ética de Aristóteles, e utilizamos até mesmo nosso corpo como meio para atingir determinado fim, um instrumento utilitário, e não como um fim em si mesmo. Tornamo-nos máquinas de fazer dinheiro, e o lucro, o deus secular da modernidade, consome nossa vitalidade de forma veloz e feroz.

A resposta para a pergunta "filosofia pra quê?" está no fundamento básico que deve guiar toda experiência de vida humana, descrito por Sócrates: "conhece-te a ti mesmo", e eu acrescentaria, "antes que seja tarde demais".

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