A IA agora consegue projetar vírus que atacam bactérias

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12 Agosto 2026

Utilizando algoritmos, um grupo de cientistas criou bacteriófagos que podem resolver muitos problemas médicos.

A reportagem é publicada por Página|12, 12-08-2026.

Cientistas de Stanford usaram inteligência artificial para criar bacteriófagos, vírus que atacam exclusivamente bactérias. De 285 projetos testados, 16 funcionaram, e alguns conseguiram superar a resistência de várias cepas de E. coli. Esse avanço pode ajudar no desenvolvimento de novos tratamentos, mas também levanta questões sobre os controles de biossegurança.

A inteligência artificial acaba de ultrapassar uma nova fronteira. Ela não se limita mais a escrever textos, criar imagens ou ajudar na descoberta de medicamentos: agora também pode projetar o genoma completo de um vírus e fazê-lo funcionar em laboratório.

A descoberta foi feita por pesquisadores da Universidade de Stanford e publicada na revista Science. A notícia, também divulgada pelo Axios, inclui um esclarecimento importante: os cientistas não criaram vírus capazes de causar doenças em humanos. Eles trabalharam com bacteriófagos, um tipo de vírus que infecta bactérias.

Uma IA treinada para entender o DNA

Para realizar o experimento, a equipe utilizou o Evo 1 e o Evo 2, dois modelos de inteligência artificial especializados em genética. Eles funcionam de maneira semelhante a grandes modelos de linguagem, como o ChatGPT, mas em vez de aprenderem como as palavras se relacionam, analisam as regras e os padrões presentes nas sequências de DNA.

Os modelos foram treinados com mais de dois milhões de genomas de bacteriófagos. Em seguida, receberam um treinamento mais específico com 14.466 sequências pertencentes à mesma família de vírus.

Os cientistas usaram o bacteriófago ΦX174, que infecta certas cepas da bactéria Escherichia coli, como referência. Trata-se de um vírus pequeno: seu genoma possui 5.386 componentes básicos — chamados nucleotídeos — e apenas 11 genes. Mesmo assim, projetá-lo do zero exige a coordenação de diferentes fragmentos genéticos para que ele possa se formar, se reproduzir e reconhecer a bactéria correta.

A IA gerou milhares de genomas possíveis

Os pesquisadores filtraram os candidatos mais promissores e selecionaram 285 projetos para fabricação e teste em laboratório. Destes, 16 produziram vírus funcionais. Isso equivale a uma taxa de sucesso de aproximadamente 5,6%.

Pode parecer uma pequena porcentagem, mas o resultado é cientificamente relevante: três dos vírus criados por IA superaram até mesmo o bacteriófago natural usado como referência.

Vírus projetados para atacar uma bactéria específica

Um dos principais desafios da terapia com bacteriófagos é impedir que eles ataquem bactérias benéficas ao organismo. Portanto, os pesquisadores também analisaram a precisão dos projetos.

De acordo com o Arc Institute, os 16 vírus funcionais infectaram duas cepas de E. coli, mas não conseguiram se replicar em outras seis cepas bacterianas testadas. Isso indica que a IA foi capaz de modificar extensivamente os genomas sem que os vírus perdessem completamente a capacidade de reconhecer um alvo específico.

A descoberta mais significativa surgiu quando os cientistas testaram os bacteriófagos artificiais contra três cepas de E. coli que haviam desenvolvido resistência ao vírus natural ΦX174. Ao combinar diferentes vírus geneticamente modificados em um único coquetel, eles conseguiram superar essa resistência em apenas alguns ciclos experimentais. O bacteriófago natural, no entanto, não conseguiu fazer o mesmo.

Será que poderiam substituir os antibióticos?

Ainda é muito cedo para afirmar com certeza. O experimento foi conduzido com bactérias em laboratório, não em animais ou humanos. Além disso, as cepas estudadas eram resistentes a um bacteriófago, não necessariamente a antibióticos.

No entanto, o estudo revela uma estratégia potencial para combater as chamadas superbactérias. Se uma bactéria aprende a se defender contra um vírus, a IA poderia ajudar a gerar rapidamente novas variantes e combiná-las em um tratamento mais difícil de ser evitado.

A necessidade de encontrar novas ferramentas é urgente. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a resistência bacteriana esteve associada a mais de 4,7 milhões de mortes em 2021. Além disso, aproximadamente uma em cada seis infecções bacterianas confirmadas em laboratório em 2023 apresentou resistência a antibióticos.

O outro lado do progresso

A pesquisa também levantou preocupações. Se a IA consegue projetar vírus que atacam bactérias, uma tecnologia semelhante poderá ser usada no futuro para tentar produzir organismos mais perigosos.

Para reduzir esse risco, os pesquisadores removeram sequências virais que infectam humanos, animais ou plantas dos dados de treinamento. Eles também utilizaram bactérias não patogênicas e trabalharam sob medidas especiais de contenção.

O problema é que esse cuidado depende de quem usa a tecnologia. Os especialistas Thomas Inglesby e Moritz Hanke, do Centro de Segurança da Saúde Johns Hopkins, alertaram que a capacidade de projetar genomas virais com IA já existe, mas as regulamentações globais para controlá-la ainda estão atrasadas.

A discussão não se limita mais à regulamentação de algoritmos. Será necessário também monitorar quem pode encomendar DNA sintético, reforçar os controles em laboratórios e estabelecer avaliações de segurança antes da fabricação de um organismo projetado por inteligência artificial.

O experimento não significa que a IA possa facilmente criar uma pandemia. Os bacteriófagos utilizados são pequenos, infectam apenas certas bactérias e foram desenvolvidos em condições controladas. Mas a mensagem científica é clara: a inteligência artificial começou a migrar do mundo digital para o biológico. E, juntamente com seus potenciais benefícios médicos, vem uma responsabilidade igualmente grande: aprender a controlar o que ela é capaz de criar.

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