11 Agosto 2026
Teerã mantém uma posição de força e reafirma muitas das exigências incluídas no memorando de junho. Trump afirma que a República Islâmica acabará cedendo porque o bloqueio naval dos EUA a levou à falência.
A reportagem é de Antônio Pita, publicada por El País, 10-08-2026.
Quase seis meses depois de os EUA e Israel terem lançado uma guerra contra o Irã, matando seu Líder Supremo, Ali Khamenei, e esperando derrubar rapidamente o regime, Teerã se apresenta cada vez mais como o país "poderoso e vitorioso" neste conflito, como descreveu o presidente Masoud Pezeshkian no domingo. O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, insiste que continuará as negociações com Washington até que o país resolva as "violações" do cessar-fogo assinado em junho, que entrou em colapso pouco depois, embora sem um retorno às hostilidades abertas. Por enquanto, eles estão apenas "trocando mensagens", o que "não se chama negociação", enfatizou.
Teerã também acaba de especificar suas seis condições — irrealistas sem uma mudança completa na política externa dos EUA — para a reabertura do Estreito de Ormuz, a principal questão pendente. As exigências agora expressas pelo regime iraniano estavam em grande parte incluídas no acordo de junho, que nunca foi implementado devido à renovação das tensões e ao restabelecimento do bloqueio em Ormuz.
Mohammad Bagher Zolghadr, que até o último fim de semana era secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã e atualmente é conselheiro político de Khamenei, delineou as exigências em um comunicado. Ele pede que seu país nunca mais seja ameaçado (algo que Donald Trump vem fazendo diariamente, intercalando com apelos ao diálogo) e que seus locais sagrados religiosos não sejam profanados. Ele também exige o fim definitivo da guerra, travada pelos EUA e por Israel, contra o Irã e seus aliados no Líbano, na Palestina, no Iêmen e no Iraque.
O regime também exige que os EUA suspendam o bloqueio marítimo e retirem suas forças navais e aéreas estacionadas perto da costa iraniana, além de compensá-lo pelas perdas sofridas nas duas guerras travadas ao lado de Israel desde 2025 — uma condição não explicitamente mencionada no memorando assinado há dois meses. Por fim, na crucial frente econômica, busca o levantamento das sanções e a liberação incondicional de seus ativos congelados.
Ilha Kharg, bloqueada
O bloqueio dos EUA paralisou as exportações de petróleo da ilha de Kharg por 22 dias, com “zero carregamentos e partidas”, segundo a empresa de monitoramento marítimo Windward. Kharg é o principal terminal petrolífero do Irã, responsável por 90% das exportações de petróleo bruto do país. A Windward informa que todos os três terminais e o oleoduto de exportação estão inativos.
São precisamente os problemas econômicos de Teerã que Trump parece estar depositando suas esperanças para se livrar do atoleiro militar em que se meteu em fevereiro ao lado do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, e do qual ele aparentemente não tem uma estratégia de saída clara. "Estamos observando o Irã com sua inflação galopante e o fato de que eles não têm dinheiro", disse ele em uma entrevista no domingo. O presidente americano indicou que Teerã está "em uma situação muito ruim", sem sequer fundos para pagar seus soldados, devido ao bloqueio naval dos EUA. E que, neste momento, os dois países estão apenas "seminegociando". "Isso será resolvido. Sempre é. É como um jogo de xadrez", disse Trump sobre o diálogo com o Irã.
Neste jogo de xadrez, o Irã não parece ter pressa em fazer seus movimentos. Aliás, o Ministro do Petróleo do Iraque, Basim Mohammed Judair, indicou no sábado que está em negociações com Teerã para permitir que o país exporte petróleo pelo Estreito de Ormuz. O Iraque produz cerca de 2,7 milhões de barris de petróleo bruto por dia e exporta pouco mais da metade: entre 1,5 e 1,7 milhão, afirmou o ministro.
O Irã também está negociando com Omã um acordo para estabelecer uma nova rota marítima para navios comerciais no Golfo Pérsico, permitindo que entrem por uma rota sob controle iraniano e saiam por outra controlada por Omã. O pacto, cujo anúncio final é esperado há dias, está "muito próximo", segundo o ministro das Relações Exteriores iraniano, no sábado. Sua duração seria limitada a 60 dias, período durante o qual Teerã abandonaria sua intenção anunciada de cobrar dos navios pela travessia e retomaria as negociações com Washington sobre seu programa nuclear.
Mas, como vários líderes iranianos reiteraram nos últimos dias, o acordo em Omã não implica a reabertura do Estreito de Ormuz. "Mesmo que seja alcançado", o retorno da navegação em larga escala pelo estreito "depende" do cumprimento das demais condições por parte dos EUA, nas palavras de Araghchi.
Nesse contexto, os combates não cessaram. Pelo contrário, deslocaram-se para o Golfo, com os houthis (aliados de Teerã, mas operando com maior autonomia do que outros grupos armados) intensificando seus ataques contra a Arábia Saudita e as forças estatais iemenitas. Na quinta-feira, mataram 30 soldados em acampamentos militares em duas províncias da área controlada pelo governo internacionalmente reconhecido, sediado em Riad (os houthis controlam a capital, Sanaa), em uma divisão que já dura uma década. A milícia rebelde reivindicou a autoria de outro ataque no domingo: desta vez contra uma refinaria pertencente à estatal petrolífera saudita Aramco. O Ministério da Energia do país reconheceu um incêndio na refinaria que não causou feridos e foi extinto, embora não tenha especificado a causa. Os houthis mantêm um bloqueio naval à Arábia Saudita e têm acesso a outro ponto estratégico de escoamento de petróleo entre o Mar Vermelho e o Golfo de Aden.
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