A Palantir e o neorreacionarismo. Artigo de Daniel Barreiros

Foto: Salvador Rios/Unplash

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05 Agosto 2026

Magnatas como Peter Thiel sustentam que, em momentos decisivos, as democracias se paralisam. Propõem transferir a soberania para as big techs e os algoritmos, com base em leis desenhadas pelo mercado. Estados sem projeto nacional sólido já são alvo.

O artigo é de Daniel Barreiros, publicado originalmente por Boletim de Conjuntura n. 18, julho de 2026, do Observatório Internacional do Século XXI, do Nubea, UFRJ, e reproduzido por Outras Palavras, 03-08-2026.

Daniel Barreiros é professor Associado do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil, professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ (PEPI) e do Programa de Pós-Graduação em História Comparada da UFRJ (PPGHC).

A edição do boletim, na íntegra, pode ser baixada aqui.

Eis o artigo.

A democracia liberal, com suas instituições representativas, checks and balances, grupos de pressão e partidos, provou-se um fracasso civilizacional. Os mercados competitivos, incensados pelos mantras de consultores ocidentais e vendidos como panaceia, provaram-se custosos, ineficientes, sem direção, sem projeto de futuro. A horizontalização do corpo político, a pretensa igualdade entre desiguais, e a implosão das hierarquias mediante falsas promessas de inclusão, alimentaram o pior nos seres humanos: a disputa mimética, o desejo de ter o que o outro tem — poder, riqueza —, lançando as sociedades à fúria irracional das massas, ao cadafalso da guerra fratricida, em que todos se acham reis, nunca súditos.

A globalização produziu um falso progresso, incremental, em que nações imitam umas às outras fazendo mais do mesmo, copiando tecnologias ultrapassadas, tentando sobrepujar suas adversárias em uma disputa sem vencedor. Não há saltos disruptivos que decidam a guerra em definitivo: sempre há um dia seguinte para se seguir lutando.

Democracia e mercados são os porteiros da discórdia, do atraso, da energia desperdiçada em disputas emulativas. Sem o bode expiatório, aquela instituição pagã eliminada pela democracia e pela soteriologia cristã, já não há um culpado sagrado por todos os males, sobre o qual a violência legítima possa ser deflagrada, unindo a coletividade em um só corpo e propósito.

A razão iluminista, que pretendeu domar a violência humana através da discussão e do debate, produziu corpos políticos disfuncionais, perdidos em deliberações intermináveis, que antes de controlar o conflito mimético, o fazem existencialmente perigoso. Em momentos decisivos, as democracias se tornam inúteis, paralisadas, atoladas em um lamaçal de exigências éticas e conflitos de interesse. Como o escorpião, interesses particulares difusos inoculam seu veneno no dorso do coletivo, fazendo naufragar a todos.

Estão livres dessa deficiência os chineses, e em menor medida os russos, com seu aparato de controle social autoritário, progresso tecnológico livre de restrições éticas, e claro senso de propósito civilizacional, instigado por um megaestado dominado por uma figura monárquica com aura heroica. Mas eles são os inimigos civilizacionais, bárbaros, e não serão eliminados com palavras de ordem ou apelos humanitários.

Fight fire with fire. Basta de competição; é hora do endgame. Este é o credo do filósofo girardiano e investidor Peter Thiel, uma das figuras mais influentes na geopolítica global da terceira década do século XXI. Ao lado de Curtis Yarvin (Mencius Moldbug), teórico do “Iluminismo Sombrio”, e de Nick Land, filósofo aceleracionista e defensor da extinção humana, Thiel forma a tríade de maior destaque do chamado “ecossistema neorreacionário” (Nrx).

Influenciado por Leo Strauss, Oswald Spengler e Carl Schmitt, Thiel crê que as sociedades ocidentais alcançaram um ponto de degradação irreversível. Assim, ou sucumbirão diante de seus adversários, ou precisarão desfazer o impasse criado pela democracia e pelos mercados através de uma nova forma de autoridade, baseada em suprema infraestrutura tecnológica, que substitua a deliberação e a escolha pelo ordenamento baseado em gestão algorítmica invisível. Thiel não crê no poder da educação e do esclarecimento: não se deve ensinar às massas que a verdadeira essência da política é definir quem é o “amigo” e quem é o “inimigo”, pois se disso souberem, a insensatez se converterá em catástrofe. 

O povo perderia suas bases morais se confrontado com a verdadeira natureza do poder. Ele deve continuar acreditando que manifestos, deliberação, debate e bandeiras ideológicas são a essência da política. Enquanto se distrai com trivialidades liberais, sua conduta é monitorada e determinada pelo emprego de aparato tecnológico de vigilância e controle de comportamento. A estabilidade depende de mentiras vitais, diz Thiel, amparado em Strauss.

O soberano, ecoando Schmitt, é aquele que decide na exceção; é o único ator que deve ignorar as regras que ele mesmo sustenta, de modo a identificar um perigo existencial, conhecer sua natureza, e eliminá-lo. Agir na exceção, violar as normas sem rompê-las, é a verdadeira natureza do poder, é emular a capacidade de Deus de proceder a milagres, suspendendo as leis da natureza.

E o Estado democrático-liberal — tecnologicamente obsoleto, afogado em burocracia e paralisado por deliberações intermináveis, vulnerável a acusações de violações éticas movidas por interesses particulares — não é capaz de lidar com a velocidade dos desafios existenciais do século XXI. O poder de exceção tem de ser transferido, e, segundo Thiel, os próprios Estados liberais já o estão fazendo, sem que seus líderes necessariamente o saibam.

O chamado “consenso do Vale do Silício” é o de que startups disruptivas e as gigantes da alta tecnologia devem avançar sobre zonas de ambiguidade legal, ignorando regulações vigentes de modo a criar fatos consumados. Uma vez desenvolvidas tecnologias com base em processos obscuros, os Estados nacionais são colocados na posição de ter de legitimá-las, como um mero carimbador, sob pena de perder uma vantagem apropriável por seus inimigos.

Thiel vê nisso o primeiro passo na transferência da soberania para as corporações de alta tecnologia; são elas que tomam para si o poder schmittiano de agir na exceção, já que o Estado liberal-democrático é incapaz de fazê-lo. Elas passam a operar sistemas que capturam as funções do Estado — como faz a Palantir, que controla a espinha dorsal informacional do exército norte-americano e parte do National Health Service britânico.

Os sistemas da Palantir monitoram e mapeiam, em tempo real, dados sobre “objetos” (pessoas e máquinas) e suas relações, produzindo um “gêmeo virtual” de uma organização ou parcela da sociedade, ampliando o controle social em escala sem precedentes. É a operação dos algoritmos que determina o que existe, o que a autoridade pública “vê”, o que deve ser levado à sua atenção, o que deve ser ignorado, e o significado do que é visto. A torrente de informações torna impossível em muitos casos a supervisão humana; o agente público assume, então, a função de carimbador das decisões tomadas pelos sistemas de inteligência artificial.

Uma vez capturadas essas funções, o custo de saída é impagável; negar a captura significa tornar-se menos ágil na disputa por poder e riqueza; são, então, operações do sistema interestatal que fazem em 2026 os Estados abrirem mão de parte de suas soberanias em nome do poder privado.

A história é mesmo cheia de ironias.

Uma vez que a soberania dos Estados liberais for capturada, o comportamento dos indivíduos controlado e o conflito social mimético eliminado por via algorítmica, Thiel encontra em Yarvin — e no chamado neocameralismo — o horizonte institucional de futuro. A transformação neocameralista exige a supressão da concorrência empresarial, a constituição de posições ultramonopolistas por empresas com base no domínio de tecnologias disruptivas, lideradas por “fundadores” de capacidade excepcional, e a transformação do Estado-nação em Gov-Corp: uma empresa de capital fechado com propriedade sobre todo o território, em que o CEO-Monarca tem poder absoluto e autoridade total para tomar decisões rápidas, a fim de garantir supremacia geopolítica e geoeconômica irrestrita. 

No Gov-Corp não há direitos, nacionalidade nem voto: a cidadania é a adesão a um serviço por assinatura, e os cidadãos são clientes de serviços de governança. Toda a economia gira em torno de enriquecera Gov-Corp, análogo futurista ao cameralismo mercantilista de Frederico Guilherme I, cuja doutrina orientava a economia nacional para o engrandecimento do Estado prussiano no século XVIII.

É evidente que o programa neocameralista é teórico, mas aponta a direção projetada por seus ideólogos.

O mundo, e em especial a periferia do sistema interestatal, é hoje um campo de testes para a expansão das ideias neorreacionárias. Desde a cidade-estado privada de Próspera, em Honduras, com cidadania por contrato e sistemas legal e fiscal próprios, à “cidade-startup” de Itana na Nigéria, passando pelo projeto da megacidade NEOM na Arábia Saudita, e o plano para uma “Bitcoin City” em El Salvador, talvez o que mais se destaque seja a guarida que o governo argentino estende hoje ao projeto neorreacionário.

O Ministério de Capital Humano implantou o Gemelo Digital Social, sistema de IA de cruzamento de dados de cidadãos argentinos, que a oposição e especialistas suspeitam ter ligação com a Palantir. Além disso, um projeto de lei foi enviado ao Congresso para um regime de incentivo fiscal e regulatório (Super RIGI); o governo Milei propôs legislação para a criação de empresas operadas por agentes de IA com responsabilidade limitada.

Diz-se que Peter Thiel mudou-se para Buenos Aires com o marido Matt Danzeisen e seus filhos por razões fiscais, receio de um colapso global e ansiedade com os riscos da IA; não se pode excluir que veja a Argentina como um santuário e uma ponta de lança para o experimento neorreacionário.

Devemos, assim, esperar que até a próxima década os Estados fracos da periferia do sistema interestatal, com sociedades civis polarizadas e sem projetos nacionais sólidos, sejam assediados por projetos neorreacionários, funcionando como plataforma de lançamento para protótipos de engenharia social replicáveis em escala mundial.

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