O ar que mata, mas não entra na estatística. Artigo de Kamila Camilo

Foto: Johannes Plenio/Unplash

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28 Julho 2026

Como a subnotificação das mortes associadas à poluição do ar e ao calor extremo invisibiliza uma das maiores crises de saúde pública do nosso tempo.

O artigo é de Kamila Camilo, ativista e empreendedora social brasileira, publicada por ((o))eco, 27-07-2026.

Eis o artigo. 

Durante um grupo focal realizado pelo Instituto Oyá como parte da pesquisa do Laboratório de Inteligência em Narrativas e Algoritmos (LINA), um relato ficou ecoando na minha cabeça. Um jovem contou que a avó havia falecido, que ela era doadora de órgãos, mas seu pulmão foi recusado para transplante porque estava comprometido, isso aconteceu devido a poluição a que era exposta cotidianamente, a senhora tinha um pulmão de alguém que havia fumado a vida inteira. Ela morava na Zona Leste de São Paulo. No atestado de óbito, porém, a poluição do ar não aparecia em lugar nenhum como causa ou fator associado à sua morte.

Essa história revela uma das maiores distorções da crise climática e ambiental: muitas pessoas morrem por consequências da poluição do ar e do calor extremo, por exemplo,mas essas mortes raramente são registradas dessa forma. Elas entram para as estatísticas como infarto, AVC, insuficiência respiratória, pneumonia ou agravamento de doenças crônicas. A causa imediata é registrada, mas causa estrutural permanece invisível.

É justamente essa invisibilidade que torna o problema tão difícil de enfrentar. Quando uma enchente leva casas ou um incêndio florestal destrói uma cidade, a tragédia é evidente, já a poluição do ar age em silêncio. Ela acelera doenças cardiovasculares, agrava crises de asma, compromete o desenvolvimento infantil, aumenta o risco de demências e cânceres e reduz a expectativa de vida. O calor extremo segue lógica parecida, raramente alguém morre “de calor”, morre de desidratação, de falência múltipla dos órgãos, de um infarto precipitado pelo estresse térmico ou pela piora de uma doença preexistente.

Um estudo publicado na The Lancet estimou 1,53 milhão de mortes por ano, em média, atribuíveis à poluição do ar causada por incêndios em paisagens (landscape fires) entre 2000 e 2019. Em paralelo, pesquisas internacionais mostram que a exposição contínua ao material particulado fino (PM2,5) aumenta significativamente o risco de mortes por doenças cardiovasculares, respiratórias e por todas as causas. A ciência já não discute mais se a poluição faz mal à saúde.

Essa subnotificação produz um efeito perverso: se não contamos essas mortes, também não dimensionamos a urgência do problema. E aquilo que não é medido dificilmente se transforma em prioridade nas políticas públicas. A conta, no entanto, chega todos os dias aos hospitais e unidades básicas de saúde. Crescem os atendimentos por doenças respiratórias, cardiovasculares e complicações relacionadas às ondas de calor. No Guia de Mudanças Climáticas e Saúde, o governo federal afirma que a exposição à poluição provoca inflamação das vias aéreas, aumenta a suscetibilidade a infecções respiratórias, agrava casos de asma e DPOC e está associada ao aumento de internações hospitalares, especialmente entre crianças, idosos e pessoas expostas às queimadas

Quem mais sofre, como quase sempre acontece, são as populações que já convivem com outras formas de desigualdade. São pessoas que vivem próximas a grandes vias, polos industriais ou áreas com pouca arborização. São trabalhadores que passam horas expostos ao sol, crianças que brincam em bairros sem áreas verdes, idosos que enfrentam temperaturas recordes em casas mal ventiladas. A crise climática não cria todas essas desigualdades, mas amplia cada uma delas.

Por isso, precisamos aprender a enxergar as conexões que os formulários oficiais ainda não registram. Melhorar os sistemas de vigilância epidemiológica, incorporar fatores ambientais nas análises de mortalidade e ampliar o monitoramento dos impactos do calor extremo e da qualidade do ar são passos fundamentais. Mas também precisamos mudar a forma como contamos essas histórias. Porque números importam, mas narrativas também. Quando uma família descobre que o pulmão de uma mulher que nunca fumou já não podia salvar outra vida, existe ali uma verdade que nenhuma planilha consegue esconder.

Enquanto continuarmos registrando apenas a causa imediata e ignorando as condições ambientais que adoecem milhões de pessoas, seguiremos produzindo estatísticas incompletas e políticas insuficientes. 

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