O Rio Grande do Sul sofre com as chuvas intensas. Por que o estado foi pego de surpresa por inundações mais uma vez? Zohran Mamdani se torna uma nova voz contra os crimes de Benjamin Netanyahu.
Desemprego, dívidas e desigualdade: jovens de todo o mundo se unem em protestos por condições melhores de vida. Ainda faz sentido falar em esperança? Diante de tudo que acontece no mundo, a esperança deixa de ser uma promessa confortável e se torna um ato de resistência.
Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.
O Rio Grande do Sul iniciou a semana com chuvas torrenciais, ventos fortes e tempestades em grande parte dos municípios. A previsão inicial da Defesa Civil era de que não ocorreriam inundações. O Governador Eduardo Leite afirmou em suas redes sociais que não havia “previsão de cota de inundação para o Rio Taquari”.
Na quarta-feira, dia 22 de julho, o Rio Taquari transbordou, registrando inundações nos municípios de Lajeado, Encantado, Arroio do Meio, Estrela, Santa Tereza, Cruzeiro do Sul, Roca Sales e Muçum. O Vale do Taquari, composto por 36 municípios da região central do Rio Grande do Sul, foi um dos mais atingidos na enchente histórica de 2024.
No Vale do Caí, diversas cidades também foram bastante atingidas e a elevação do rio destruiu a ponte da cidade de Feliz. A mesma ponte foi destruída pelo desastre climático de maio de 2024 e reconstruída pela própria comunidade, com arrecadações de recursos por meio de rifas e doações.
Mesmo com a diminuição das chuvas ao longo dos últimos dias, boa parte do Rio Grande Sul ainda sofre com os efeitos dos temporais da semana. Conforme dados da Defesa Civil do estado, 194 municípios foram afetados por algum tipo de dano causado pelas tempestades e 1,6 mil pessoas tiveram que deixar suas casas.
Em um momento em que muitos líderes internacionais evitam confrontar diretamente Benjamin Netanyahu, uma das declarações mais contundentes da semana veio de um político norte-americano. Zohran Mamdani, prefeito de Nova York, afirmou que, caso o primeiro-ministro israelense entre em território americano sob sua jurisdição, as autoridades deveriam cumprir o mandado expedido pelo Tribunal Penal Internacional, o TPI. A declaração rompe com o silêncio de grande parte da classe política dos Estados Unidos e coloca, mais uma vez, o direito internacional no centro do debate.
Mamdani chamou Netanyahu de criminoso de guerra e de arquiteto de um genocídio contra o povo palestino. A fala de Mamdani não surgiu do nada. Desde novembro de 2024, o Primeiro-Ministro de Israel é alvo de um mandado de prisão emitido pelo TPI, acusado de crimes de guerra e crimes contra a humanidade relacionados à ofensiva militar israelense na Faixa de Gaza. Pela primeira vez, um dos principais aliados históricos dos Estados Unidos passa a ser formalmente procurado por uma das mais importantes instituições da justiça internacional.
Tudo começou alguns dias antes, numa entrevista ao New York Times, quando Mamdani afirmou que Netanyahu deveria responder em Haia, sede do Tribunal Penal Internacional. Na ocasião, ele já reconhecia não possuir autoridade legal para ordenar que sua própria polícia prendesse um chefe de Estado estrangeiro, e revelou estar em conversas com o departamento jurídico da cidade sobre o tema.
Poucos dias depois, o próprio Trump interveio publicamente, garantindo que Netanyahu não seria preso "sob nenhuma circunstância" em solo americano. Foi essa resposta que fez Mamdani voltar a público, desta vez de forma ainda mais contundente.
Enquanto alguns governos se preocupam com a permanência no poder, a população global sofre com a desigualdade e falta de perspectiva de futuro. A economista italiana, Mariana Mazzucato, destaca a necessidade do poder público focar em atender as populações e não o mercado financeiro. “É impossível alcançar prosperidade compartilhada se continuarmos a ter governos que acreditam que sua função se limita a corrigir as falhas do mercado e um setor privado que recebe subsídios”, afirma Mariana.
A especialista ainda reflete sobre o papel do estado e sua relação com o setor privado: “Quando um Estado simplesmente busca agradar o setor privado e concede contratos absurdos, prejudica a população, o planeta e até mesmo o crescimento, já que o setor privado não é forçado a inovar para atingir um objetivo público. Quando socializamos os riscos e privatizamos as recompensas, permitimos lucros excessivos”, explica.
Essa impossibilidade de alcançar a “prosperidade compartilhada” apontada por Mariana, gera um descontentamento muito forte na população global, em especial nas camadas mais jovens, que vê o desemprego e endividamento aumentarem cada vez mais.
No ano passado, o desemprego persistente e a escassez de oportunidades levaram manifestantes às ruas no Quênia, Peru, Nepal, Indonésia e Filipinas. De acordo com reportagem de Timothy Rooks, publicada por Deutsche Welle, a dificuldade de inserção de jovens no mercado de trabalho deixou de ser um problema localizado e passou a mobilizar diferentes países.
Nessa semana, na Argentina, milhares de pessoas protestaram contra as reformas de Milei. De acordo com a reportagem de Mercedes López San Miguel, publicada por El Diario, a manifestação faz parte de um plano de ação inspirado no modelo francês para levar às ruas as reivindicações contra a reforma trabalhista regressiva promovida pelo governo de extrema-direita de Javier Milei, bem como a demanda por salários e aposentadorias dignos. O desemprego na Argentina atingiu 7,8% no primeiro trimestre, segundo dados oficiais. Há dois anos e meio, a taxa de desemprego em Milei era de 5,7%.
Na Índia, o desemprego entre os jovens se tornou um dos pilares das manifestações. A reportagem de de Hannah Ellis-Petersen, publicada pelo The Guardian, aponta que a campanha que começou como uma brincadeira na internet e se transformou em uma explosão de descontentamento juvenil contra o sistema educacional e o alto índice de desemprego.
Depois de direitos ameaçados e democracias tensionadas, talvez reste uma pergunta que parece simples, mas nunca foi tão difícil de responder. Ainda faz sentido falar em esperança? Em tempos de barbárie, esperança não parece mais significar esperar que tudo melhore sozinho. Talvez ela seja a coragem de continuar atravessando o mundo sem permitir que ele nos transforme naquilo que combatemos.
É justamente essa reflexão que o filósofo Alexandre Francisco propõe ao analisar A Odisseia, novo filme de Christopher Nolan. Mais do que revisitar um clássico da antiguidade, Nolan recupera uma história que continua profundamente atual. A jornada de Ulisses deixa de ser apenas uma aventura mitológica. Ela passa a representar a travessia da própria humanidade diante de um mundo marcado por guerras, perdas, tentações e escolhas morais.
Alexandre lembra que talvez seja justamente por isso que Nolan tenha escolhido contar essa história agora. Porque toda geração possui sua própria odisseia. Se antes Ulisses enfrentava ciclopes e tempestades, hoje nossos monstros carregam outros nomes. A guerra permanente. O autoritarismo. A desigualdade. O preconceito. A destruição ambiental. E a crescente incapacidade de reconhecer a dor do outro.
Essa perda da sensibilidade é justamente o alerta do filósofo Enrique Díaz Álvarez. Em entrevista ao El Salto, ele afirma que aumentamos nosso limite de tolerância a níveis alarmantes. Imagens de crianças mortas em Gaza, embarcações de migrantes afundando no Mediterrâneo ou civis morrendo em bombardeios já não provocam o mesmo impacto. A violência não diminuiu. Nós é que nos acostumamos a conviver com ela.
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