Moçambique: bispo de Pemba se pronuncia sobre a crise sem fim

Igreja de São Luís de Montfort destruída | Foto: Divulgação/Diocese de Pemba

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25 Julho 2026

A rebelião parecia subjugada. Os militantes aparentavam estar derrotados. A intervenção conjunta das tropas ruandesas, da SADC e moçambicanas dera a impressão de ter sufocado o surto de insurgência. Em vez disso, das cinzas, o fogo reacendeu. Ataques ferozes, seguidos de uma fuga para a mata. Mais ataques, e mais ataques. Para Cabo Delgado, a província mais ao norte e mais pobre de Moçambique, não há paz.

Combatentes jihadistas ligados ao Estado Islâmico continuam a atacar comunidades, aldeias e cidades. Matam, destroem e aterrorizam. Um massacre que tem sido perpetrado em silêncio pela comunidade e pelos meios de comunicação internacionais desde 2017. Dom António Juliasse Ferreira Sandramo, bispo da Diocese de Pemba, explica:

"Este ano, janeiro e fevereiro foram os meses mais trágicos, com uma série de ataques na parte leste do distrito de Chiure, onde 18 igrejas católicas foram destruídas em 18 aldeias. Houve mortes e muitas pessoas foram forçadas a se deslocar, aumentando o número de deslocados internos, que já chegou a um milhão desde o início desta instabilidade militar em 2017".

O outro ataque importante ocorreu em 10 de maio, quando jihadistas islâmicos invadiram a capital do distrito de Macomia, causando mortes, danos a parte da infraestrutura e saques generalizados a empresas e organizações não governamentais.

A entrevista é publicada por Rivista Africa e reproduzida por Settimana News, 23-07-2026.

Eis a entrevista.

O que levou ao início desta guerra?

Os problemas subjacentes a este conflito são extremamente complexos: terrorismo islâmico (ISIS), pobreza, apropriação ilícita de recursos naturais e minerais, corrupção de certas figuras no poder que buscam enriquecimento rápido através do tráfico de drogas, tráfico de seres humanos e outras atividades ilícitas.

Como reage a população local?

A população encontra-se numa situação vulnerável, muitas vezes forçada a cooperar quando não tem para onde fugir. Geralmente, a população indefesa é a vítima desta violência militar. Os jihadistas por vezes pedem apoio às comunidades islâmicas, mas a sua cooperação baseia-se mais no medo do que num compromisso convicto com os ideais dos fundamentalistas.

Essa revolta criou uma situação humanitária dramática. Qual é a situação atual?

A situação humanitária exige atenção redobrada; muitos campos de reassentamento para deslocados internos permanecem sem condições adequadas. A colheita deste ano não foi suficiente e, portanto, haverá fome nos campos de reassentamento para deslocados internos e até mesmo entre aqueles que retornaram às aldeias atacadas.

Faltam medicamentos e apoio educacional. As organizações que prestavam apoio psicossocial e proteção a pessoas vulneráveis ​​ficaram sem verba e estão abandonando suas atividades. Há o receio de que os problemas relacionados a violações dos direitos humanos, especialmente contra mulheres e crianças, se agravem novamente entre os deslocados internos.

Qual o papel da Igreja Católica nesta crise?

Desde 2017, a Igreja Católica apoiou mais de 250 mil pessoas deslocadas internamente, oferecendo cuidados de saúde, transporte, alimentação, construção de abrigos, apoio educacional, apoio psicossocial e assistência espiritual.

A Igreja Católica está empenhada em prestar esse apoio por meio da Cáritas Diocesana de Pemba, o setor de emergência da nossa diocese, e por meio do envolvimento direto de missionários nas paróquias onde atuam. Muitas pessoas necessitadas batem às portas de padres e freiras em busca de ajuda.

Infelizmente, desde que a atenção da mídia se voltou para a guerra na Ucrânia e no Oriente Médio, nosso problema ficou em segundo plano e a ajuda não está mais chegando como antes. Sem ajuda, a Igreja sofre por não poder auxiliar outras vítimas necessitadas dos ataques jihadistas.

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