17 Julho 2026
Jeffrey administra uma loja de souvenires no centro de Austin, a capital do Texas e o coração liberal de um estado conservador entre petróleo, Bíblia e armas liberadas. Ele tem um filho que frequenta uma escola pública de ensino médio e não se interessa por política, explicando sua posição com clareza e eficácia: "Eu trato do meu negócio; a política nunca o afetou".
A reportagem é de Alberto Simoni, publicado por La Stampa, 16-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
No entanto, algo nas últimas semanas despertou sua curiosidade. Estamos na 7th Street — um polo de vida noturna, música ao vivo e shows de comediantes de “stand-up”; nesse aspecto, Austin parece uma pequena Nashville. A dois quarteirões dali, na North Congress Avenue, às 20h, há duzentas pessoas — jovens e outros — que participam de uma aula de ioga, enquanto na rua adjacente cerca de uma dezena de pessoas negras em situação de rua estão reunidas. A residência do governador Abbott, um conservador conhecido por sua postura rígida em relação a impostos e segurança nas fronteiras, fica na esquina, vigiada por uma patrulha policial. A cúpula do Capitólio estadual destaca-se ao fundo do jardim.
Jeffrey pensa em seu filho, que terminará o ensino médio em um ano; no entanto, a partir de 2030, os mais jovens serão obrigados a estudar a Bíblia na escola. "Eu achava que as aulas da escola dominical eram suficientes", ele nos conta com um sorriso discreto.
Isso deixará de ser verdade para 5,5 milhões de estudantes do Texas, que representam um décimo de toda a população estudantil dos Estados Unidos. No fim de junho, o Conselho de Educação do Estado do Texas, com o aval de Abbott e de sua maioria conservadora, decidiu que os alunos da rede pública (do jardim de infância ao ensino médio) deverão ler alguns livros da Bíblia juntamente com uma série de textos de ficção e ciências sociais que vão ser incluídos no currículo escolar obrigatório. A lista ocupa 17 páginas e abrange desde Davi e Golias, ao Livro dos Salmos e os Evangelhos até a destruição de Jerusalém, que será ensinada associada ao Holocausto, o Gênesis e a história de Adão e Eva.
Serão precisos quatro anos para criar, imprimir e distribuir os livros didáticos. Mas a decisão está tomada; não há como voltar atrás. Susan Perez, membro da Comissão que revisou o currículo, explica que o "foco dos novos programas se baseia nos fundamentos da nação, e não devemos nos envergonhar disso". Ela se refere ao ensino da cultura ocidental e do cristianismo. Ela considera que os Pais Fundadores tinham uma visão clara da nação como uma nação cristã. No entanto, a decisão tomada no Texas não representa uma ruptura radical, mas apenas acelera um sentimento profundamente sentido no meio conservador dos EUA — especialmente entre os evangélicos: a defesa dos valores ocidentais contra o ataque da cultura woke, do mundo progressista, de imigrantes e, agora, até mesmo do comunismo, que Donald Trump apontou como uma grande ameaça em seu discurso de 4 de julho. A batalha cultural aqui encontrou nas escolas seu campo de batalha, e serve de exemplo para outros estados: Oklahoma está seguindo a mesma linha, e a Flórida estuda medidas semelhantes. No Alabama e no Mississippi, a Bíblia já faz parte do material de estudo.
Ken Paxton, candidato ultraconservador ao Senado nas eleições de meio de mandato e apoiado pelo presidente dos EUA, resumiu a introdução do Livro Sagrado desta forma: "É uma vitória para o Texas e para os nossos valores éticos".
Em 2025, o Texas tornou-se o primeiro estado da União a tornar obrigatória a exibição dos Dez Mandamentos nas escolas, em cartazes medindo pelo menos 40 por 50 centímetros. Em 2023, autorizou a contratação de religiosos (padres, pastores evangélicos) para atuar como conselheiros nas escolas, e a Bíblia já havia sido introduzida, embora não como matéria de estudo obrigatória, em várias séries em 2024. Yolanda Leyva, historiadora e professora de ciências sociais da Universidade do Texas em El Paso, atuou como uma das consultoras do Conselho de Educação. "Tudo foi manipulado; o veredito já estava escrito desde o início", explica ela, enquanto conta que entre seus colegas a maioria era conservadora e alguns pareciam ter uma missão bem específica a cumprir. Cita David Barton, fundador do movimento "Wall Builders", um grupo anti-imigração que em seu documento de fundação escreveu que a religião é o elemento básico da Constituição dos EUA. "A religião", dizia ele, "deve ser ensinada nas escolas". Barton defende a abolição da separação entre Igreja e Estado. Shannon Trejo, era a consultora principal, muito próxima de Abbott e tinha um objetivo claro em mente: lanças a bases para uma escola pública cristã. A Bíblia que será adotada, confirma Leyva, é aquela tradicional de protestantes e evangélicos, a do “Rei James, que contém diferenças significativas em relação à versão católica”. Até mesmo esse aspecto, aparentemente secundário, provocou protestos e dúvidas entre os católicos, "até mesmo aqueles que votam em Trump e se alinham à visão conservadora".
Nos dias da aprovação, houve várias manifestações em frente ao Capitólio, desde a associação de pais que se sentiu ignorada por uma imposição vinda de cima, a ONGs e movimentos mais liberais, que denunciam o uso indevido da religião, até aqueles que veem isso como mais um passo em direção à construção de um país nacionalista-cristão-branco. Dessa forma, as centenas de observações que chegaram antes da aprovação da lei foram ignorados.
Além da introdução do Antigo e do Novo Testamento, na reforma será reforçado o ensino da história do Ocidente: "A história romana, a história grega e a história da nossa civilização se tornarão o fulcro dos novos estadunidenses", diz Perez. Os cursos de história global serão eliminados.
Anne Russey, cofundadora do “Texas Freedom to Read Project”, é direta: "Apesar das objeções de pais, alunos e educadores, a Comissão votou pela introdução de propaganda nacionalista cristã branca nos currículos escolares". O problema adicional — diz ela — é que "o que acontece no Texas não vai parar por aqui; teremos doutrinação e disseminação de ideologia, certamente não educação".
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