Concentração da riqueza e desigualdade social. Artigo de Frei Betto

(Foto: Reprodução | Fundação FHC)

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08 Julho 2026

"Com sistemas tributários progressivos e serviços públicos de qualidade, conseguem manter altos níveis de bem-estar e baixa desigualdade. Esses modelos mostram que a equidade não é inimiga do crescimento, e sim uma condição para o seu fortalecimento", escreve Frei Betto, escritor e autor do romance sobre massacre de indígenas na Amazônia, “Tom vermelho do verde” (Rocco), entre outros livros.

Eis o artigo.

Nas últimas décadas, o mundo enfrenta um fenômeno econômico paradoxal: a produção global de riquezas aumenta significativamente e sua distribuição é cada vez mais desigual. O acúmulo em mãos de uma minoria privilegiada desperta inquietações. Basta dizer que 1% da população global (80 milhões de pessoas) amealha 2/3 da riqueza de todo o planeta. Essa abissal desigualdade não é apenas questão moral, mas significa obstáculo ao desenvolvimento sustentável, à coesão social e à estabilidade política.

O avanço tecnológico, a globalização e a expansão dos mercados financeiros contribuem para um crescimento econômico sem precedentes em muitos países. Contudo, os frutos desse progresso são colhidos de forma desigual. Essa concentração é alimentada por sistemas tributários regressivos, isenções fiscais para grandes fortunas, paraísos fiscais, e estruturas corporativas que priorizam o lucro dos acionistas em detrimento dos trabalhadores e da sociedade. De modo geral, os mais ricos veem suas fortunas crescerem por meio de rendimentos de capital, enquanto o pobretariado depende do trabalho assalariado ou informal, muitas vezes mal remunerado e instável.

A desigualdade gritante afeta diretamente a qualidade de vida da maioria da população. Está associada a menores índices de saúde, educação precária, aumento da violência e menor mobilidade social. Quando uma parte significativa da população não tem acesso a recursos básicos, oportunidades ou representação política, forma-se um ciclo vicioso de pobreza e exclusão.

Economistas alertam que a desigualdade compromete o próprio crescimento econômico. Sociedades mais igualitárias tendem a ser mais estáveis e produtivas. Quando a renda é mais equitativamente distribuída, há maior consumo, inovação e investimento em capital humano. Em contraste, a concentração excessiva da renda reduz a demanda agregada e limita o potencial de desenvolvimento.

Outro fator que contribui para a desigualdade é a transformação do mercado de trabalho. A automação e a digitalização favorecem trabalhadores altamente qualificados e donos de capital tecnológico, mas precarizam empregos de baixa qualificação. O trabalho informal, os contratos temporários e a “uberização” das relações trabalhistas se expandem, muitas vezes sem a devida proteção social.

Grandes empresas de tecnologia, as Big Techs por exemplo, tornam-se símbolos dessa nova economia, concentrando fortunas imensas e poder político. Seus fundadores acumulam bilhões enquanto milhões de trabalhadores enfrentam insegurança financeira.

Diante desse cenário, o papel do Estado torna-se fundamental na correção das distorções do mercado. Políticas públicas progressivas, como tributação de grandes fortunas, combate à evasão fiscal, investimento em educação e saúde públicas, salário mínimo digno e proteção social ampla, são instrumentos essenciais para reduzir a desigualdade.

Alguns países nórdicos, como a Finlândia e a Islândia, demonstram que é possível crescer economicamente com justiça social. Com sistemas tributários progressivos e serviços públicos de qualidade, conseguem manter altos níveis de bem-estar e baixa desigualdade. Esses modelos mostram que a equidade não é inimiga do crescimento, e sim uma condição para o seu fortalecimento.

A desigualdade não é apenas um problema interno de cada país, é um desafio global. As cadeias produtivas transnacionais, o sistema financeiro internacional e os fluxos de capitais afetam diretamente a distribuição de riqueza entre países e dentro deles. Por isso, é necessário um esforço coordenado entre nações para criar mecanismos mais justos de governança global, como a regulação das redes digitais e dos paraísos fiscais, a cooperação tributária internacional e a promoção do desenvolvimento sustentável.

O aumento da riqueza mundial, longe de beneficiar a todos, tem acentuado as disparidades sociais e econômicas. A concentração de riqueza em poucas mãos enfraquece a democracia, corrói a confiança nas instituições e impede a construção de sociedades mais justas e solidárias.

Essa disparidade demonstra que a democracia, tal como a conhecemos hoje, é uma falácia. Como justificá-la se a democracia política, fundada no sufrágio universal, não é complementada pela democracia econômica? Todos votam, nem todos comem. Portanto, frente a essa contradição a humanidade se defronta com duas alternativas: a partilha da riqueza, o socialismo; ou a concentração, o poder político em mãos de quem já detém o poder econômico, a autocracia plutocrática. Esta última tendência se propaga na atual conjuntura.

Combater a desigualdade não é apenas uma exigência ética, mas uma necessidade urgente para garantir um futuro mais equilibrado, inclusivo e sustentável para todos.

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