Lampedusa entre Jerusalém e Jericó: a ilha e a "geoteologia" do Papa Leão. Artigo de Giulio Albanese

Foto: Shahrokh Pazhman/UNOCHA

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07 Julho 2026

"Por isso, a homilia do Santo Padre é, olhando bem, um ensaio de geoteologia. O texto torna realmente inteligível um lugar concreto - uma ilha, um cais, um mar, uma fronteira como um ponto onde Deus questiona o destino dos povos. Vai muito além da fria interpretação da geopolítica regulada pelos ditames do interesse, pois introduz na história uma pergunta mais radical: que tipo de humanidade desejamos nos tornar?", escreve Giulio Albanese, missionário comboniano fundador da Agência Misna, em artigo publicado por Avvenire, 05-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A homilia proferida por Leão XIV em Lampedusa possui uma força que supra a contingência imediata da crise migratória. Não se trata nem de um discurso "sobre migrantes" nem de uma simples exortação humanitária; é uma profecia missionária. O Papa coloca a ilha dentro da geografia bíblica da estrada de Jerusalém a Jericó, onde o homem ferido não pede, em primeiro lugar, para ser classificado, mas para ser reconhecido. Antes de qualquer cálculo, de qualquer sentimento de pertencimento ou de qualquer medo, há um corpo vulnerável que interpela: “Vocês também têm um corpo". Disso nasce a proximidade, não como sentimento genérico, mas como expressão concreta e histórica da fé. O ponto crucial é que Lampedusa é, de fato, um lugar teológico. O Mediterrâneo, com suas rotas e suas feridas, não é apenas um cenário geopolítico; é um espaço onde o Evangelho, mais uma vez, volta a julgar a história e a comunidade das nações.

O Papa afirma isso com clareza: o Evangelho ressoa onde os povos se encontram, mas fica mudo onde cada pessoa se transforma em uma ilha. Aqui, a missão não coincide com a ocupação religiosa do espaço, mas com o testemunho de um Reino que chega quando o amor se organiza, quando a compaixão se torna decisão e quando o acolhimento se traduz em cuidado, proteção, promoção e integração. A esse respeito, é útil fazer referência à encíclica missionária de São João Paulo II, Redemptoris Missio. A Igreja não é um fim em si mesma; está orientada para o Reino de Deus, do qual é semente, sinal e instrumento. Precisamente por isso, não pode refugiar-se na defesa de suas próprias fronteiras visíveis, nem reduzir a missão a gestão identitária do sagrado. O Reino é inseparável de Cristo e da Igreja, mas não é propriedade administrativa da Igreja. O Espírito precede, acompanha e transcende as nossas categorias; sopra onde quer, tornando possível reconhecer, mesmo além das fronteiras eclesiais, os sinais de um amor que liberta do mal, restaura as relações e devolve a dignidade.

Isso não autoriza nenhum sincretismo. Pelo contrário, impede que o Cristianismo seja reduzido a uma ideologia, seja ela humanitária, política ou confessional. O Reino não é um programa pronto nem uma moral mínima compartilhada; tem o rosto de Cristo, o Samaritano que se inclina sobre o homem ferido.

Mas, precisamente por apresentar esse rosto, ela desmascara toda religião que desvia o olhar por medo da contaminação, toda política que calcula o ser humano apenas em termos de segurança e toda economia que mede a vida pela lógica do interesse ou da maximização dos lucros. A fé, se for fé no Deus de Jesus Cristo, jamais separa o culto da carne ferida do irmão. A profecia missionária da homilia reside justamente aqui: a evangelização não começa quando o outro entra em nossos recintos, mas quando o crente se torna próximo da grande humanidade sofredora.

A proclamação da Boa Nova torna-se crível quando assume a forma da misericórdia. Lampedusa revela a face de uma Igreja samaritana, não senhora do Reino, mas sua serva; não despachante da salvação, mas sinal de que a salvação de Deus se estende a todos: pessoas, sociedades, mundo inteiro.

Por isso, a homilia do Santo Padre é, olhando bem, um ensaio de geoteologia. O texto torna realmente inteligível um lugar concreto - uma ilha, um cais, um mar, uma fronteira como um ponto onde Deus questiona o destino dos povos. Vai muito além da fria interpretação da geopolítica regulada pelos ditames do interesse, pois introduz na história uma pergunta mais radical: que tipo de humanidade desejamos nos tornar? Lampedusa não é apenas uma periferia da Europa; é um púlpito do Reino. Dali, percebe-se que a civilização do amor não nasce de proclamações solenes, mas de pequenos e tenazes atos de fidelidade de comunidades capazes de parar, de se comover, de se curvar e de cuidar dos outros. Esta é a missão: tornar visível, sem reivindicar a sua posse, o Reino que Deus já está semeando na história.

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