Como a guerra em Gaza massacrou a educação de jovens palestinos

Foto: Khames Alrefi/Anadolu Ajansi

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07 Julho 2026

Em dois anos, 95% dos campi universitários foram danificados ou totalmente destruídos no enclave. Jovens estudam entre escombros e tentam migrar para terminar ensino superior.

A reportagem é de Jennifer Holleis, publicada por DW, 06-07-2026.

Aos 24 anos, Amira Al-Khatib, de 24 anos, deixou Gaza na semana passada para iniciar um mestrado na Holanda. Ela se viu, então, dividida entre a alegria de finalmente alcançar um lugar seguro e a tristeza de deixar sua casa.

"Sou muito grata a todos que me apoiaram e, ainda assim, deixar Gaza foi um dos momentos mais difíceis que já vivi", diz ela na nova casa na cidade de Nijmegen.

A jovem se formou em engenharia de sistemas de computação pela Universidade Al-Azhar de Gaza em 2025. "Nos últimos dois anos, estudei num ambiente sem conexão de internet garantida."

O único lugar onde ela conseguia sinal era no telhado de casa. "Concluí meu projeto de graduação com drones sobrevoando, colocando a mão sobre o coração a cada poucos minutos, esperando sobreviver o suficiente para terminá-lo", relembrou.

Para ela, engenheiros que vivenciaram uma guerra entendem, talvez melhor do que qualquer outra pessoa, do que as comunidades impactadas realmente precisam. "É por isso que escolhi continuar meus estudos em ciência de dados e inteligência artificial (IA). Meu sonho é ajudar a construir sistemas tecnológicos que permaneçam confiáveis mesmo durante crises humanitárias e emergências."

Entraves burocráticos

Mohammad Herzallah, um estudante de engenharia de 20 anos, também deixou Gaza na última segunda-feira para se matricular na Universidade de Ciências Aplicadas de Haia. Antes da guerra, ele nunca imaginara sair de Gaza.

"Quando as bombas caíam, parei de pensar nos estudos ou na minha carreira", conta. Ele esperava retomar os estudos no território palestino após a guerra. "Mas a situação só piorou, então me candidatei ao exterior, mesmo não querendo deixar minha família."

Ambos os estudantes receberam bolsas por meio da Gazan Student Support Network (GSSN), uma ONG com sede em Amã, a capital da Jordânia, criada em janeiro de 2024 para ajudar estudantes de Gaza a continuar a educação superior.

"Há muitos obstáculos burocráticos, e cada país tem os próprios desafios", afirma a diretora executiva da GSSN, Mabrookah Heneidi. Na Holanda, por exemplo, garantir a aprovação para os estudantes levou mais de oito meses e envolveu processos judiciais movidos por universidades.

Para outros 62 estudantes palestinos com bolsas na Malásia, a data de partida permanece incerta. "Eles obtiveram autorização de trânsito da Jordânia, mas não podem sair de Gaza porque a Malásia não mantém relações diplomáticas com Israel", explica Heneidi.

Educação interrompida para 88 mil

Todas as saídas de estudantes devem passar pela passagem de Kerem Shalom, na fronteira de Gaza com Israel. Até agora, no entanto, o órgão militar israelense responsável pela coordenação de assuntos civis em Gaza não respondeu aos pedidos para autorizar a saída dos estudantes.

Questionados pela DW, porta-vozes do órgão disseram que "a saída de moradores da Faixa de Gaza está sujeita à apresentação de um pedido por um terceiro país disposto a receber o indivíduo, bem como à conclusão da triagem de segurança exigida pelas autoridades israelenses competentes. A grande maioria dos pedidos apresentados é aprovada."

Desde o início da guerra, quase 50 mil moradores da Faixa de Gaza partiram para terceiros países por diversos motivos, incluindo tratamento médico, cidadania estrangeira, vistos de residência e estudos acadêmicos, acrescentou o comunicado de resposta do órgão israelense, sem mencionar detalhes sobre o caso dos estudantes que tentam se mudar para a Malásia.

Ao mesmo tempo, a maioria dos 88 mil estudantes universitários de Gaza teve a educação interrompida. Junto com mortes generalizadas, deslocamentos repetidos e uma crise humanitária prolongada, muitos também perderam registros acadêmicos e pessoais, já que grande parte do sistema de ensino superior foi destruído.

ONU falou em "escolaricídio"

Em abril de 2024, especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) alertaram para a "obliteração sistêmica" do sistema educacional de Gaza. "Com mais de 80% das escolas de Gaza danificadas ou destruídas, pode ser razoável perguntar se há um esforço intencional para destruir de forma abrangente o sistema educacional palestino, uma ação conhecida como 'escolaricídio'", disseram.

A ONU atualizou esse número no seu relatório mais recente, em junho. "Até novembro de 2025, 95% dos campi foram afetados: 22 dos 38 campi foram completamente destruídos, e outros 14 sofreram diferentes níveis de danos."

Já a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) estimou, quando a guerra completava dois anos, que cerca de 745 mil crianças e estudantes em Gaza estavam fora da escola. "A perspectiva de retomar a educação permanece altamente incerta devido aos extensos danos à infraestrutura educacional", afirmava o texto.

Cursos on-line e aulas presenciais limitadas foram retomados nas maiores universidades de Gaza, incluindo a Universidade Al-Azhar e a Universidade Islâmica de Gaza. Não existe contagem oficial do total de matrículas, mas diretores afirmam que os números parecem maiores do que no ano letivo cortado pelo início do conflito.

Entre avanços e limitações

A guerra em Gaza também prejudicou significativamente a educação de Ahmad Zohair Abu Daqqa. "A guerra levou tudo, mas eu mantive meu laptop — minha única ferramenta para continuar aprendendo", conta o jovem de 20 anos.

Durante dois anos, e apesar de múltiplos deslocamentos, sua rotina diária era sair da tenda da família pela manhã e procurar internet e eletricidade. "Às vezes eu encontrava sinal no canto de um prédio destruído, ou na cozinha de um hospital, ou ao lado de um poste de luz quebrado", diz, acrescentando que nenhum desses lugares era seguro e que se deslocar entre eles era perigoso.

Ele relata que não apenas obteve notas máximas no ensino médio, como também concluiu "mais de 15 cursos profissionais on-line após baixá-los onde quer que eu pudesse", com o apoio da família.

Apesar dos esforços, Abu Daqqa se sente preso. "Entrei em contato com mais de 200 acadêmicos e enviei mais de mil mensagens para universidades e organizações em todo o mundo. Até agora, nenhuma porta se abriu", diz.

Ele ainda espera obter uma bolsa no exterior para estudar engenharia, praticar design criativo e participar de competições. "Minha história é pessoal, mas reflete a realidade de toda uma geração de estudantes em Gaza que se recusa a se render", diz.

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