Qual o propósito da vida? Uma pergunta quase subversiva. Artigo de Tomás Muro Ugalde

Foto: berkay08/Canva

26 Junho 2026

"Hoje, evangelizar pode significar transmitir a vida e o sentido da vida", escreve Tomás Muro Ugalde, teólogo basco, em artigo publicado por Religión Digital, 22-06-2026.

Eis o artigo.

01. A Palavra: uma canção para a vida

As três leituras de hoje nos falam sobre a vida.

1. Na primeira leitura do Segundo Livro dos Reis, o profeta anuncia àquela mulher sunamita o nascimento de um filho, de uma nova vida.

2. São Paulo, na carta aos Romanos, nos diz que viveremos com Ele.

3. Jesus nos diz no Evangelho para não perdermos nossas vidas, mas para ganhá-las servindo a Ele.

02. Desperdiçando a vida. Perdemos o sentido da vida

Jesus nos adverte para não desperdiçarmos nossas vidas: "Quem busca a si mesmo, perderá a si mesmo", porque nós também corremos o risco de desperdiçar nossas vidas buscando a nós mesmos. O egoísmo é uma forma de desperdiçar a vida. Pensamos que a vida é para ser vivida ao máximo e muitas vezes dizemos: "É isso que você vai levar consigo".

É uma visão muito míope da vida, da existência humana.

Hoje, em nossas sociedades ocidentais, existe outra maneira, mais profunda e sutil, de perdermos nossas vidas. Perdemos o sentido da vida.

Acredito que essa perda de sentido seja a causa desse tipo de epidemia que está assolando muitas pessoas, pelo menos no País Basco.

A saúde mental, as doenças mentais, a depressão, a ocorrência frequente de suicídio (um suicídio a cada dois dias), além das tentativas de suicídio, parecem-me ser causadas pela perda de sentido na vida.

Quando a pergunta "qual o sentido da vida?" nos assombra e corrói nossa existência, estamos à beira do colapso pessoal. Tudo isso prejudica a saúde mental e nosso senso de propósito na vida.

Hoje em dia, ninguém pergunta: Qual o sentido de tudo isso? Para onde a nossa vida está caminhando? Por que temos que morrer? Para onde iremos depois da morte, se é que iremos para algum lugar?

Essas não são questões triviais, e são temas que sempre reaparecem, sondando nossa consciência.

Talvez a questão mais séria que nós, humanos, enfrentamos seja: qual é o propósito da vida?

É por isso que a questão do significado, "qual o propósito da vida?", é uma questão proibida, clandestina e, portanto, um momento cultural.

A situação atual faz uso do "moral do sobrevivente"; precisamos sobreviver e, para isso, utilizamos o "catálogo de rotas de fuga".

“Viva a vida ao máximo, porque o terceiro dia, a Páscoa, não existe.”

03. A modernidade só poderia terminar na pós-modernidade

Pode-se dizer que a modernidade, o pensamento moderno e a vida moderna atingiram seu ápice no Iluminismo do século XVIII, que envolveu uma exaltação da razão, da ciência e do progresso, o que levaria à tecnologia.

Aderimos a essa forma moderna e esclarecida de pensar e acreditamos que a razão, a ciência, o progresso e a tecnologia nos salvarão das grandes questões e problemas da vida.

O homem moderno acredita que a salvação, a perfeição, o melhor virá "amanhã", no futuro. "Amanhã" surgirá um computador melhor, a medicina atingirá novos patamares terapêuticos, a democracia melhorará nas próximas eleições, um sistema de governo perfeito será estabelecido, amanhã a Igreja "mudará", e assim por diante. O melhor ainda está por vir, em progresso... Continuamos a acreditar que "amanhã" tudo será melhor e mais perfeito.

Mas essa modernidade, esse iluminismo, está ruindo, se é que já não morreu. Hoje, já somos pós-modernos; vivemos em uma pós-modernidade cínica. O que significa uma desconfiança brutal da modernidade. O homem pós-moderno não acredita mais em nada. E daí surge a pergunta: qual o sentido da vida?

04. Os seres humanos não se salvam sozinhos

Para quem reflete um pouco, o princípio da modernidade está morto como força salvadora.

Os seres humanos não podem se salvar sozinhos. Não detemos as chaves para solucionar as grandes questões da vida. O significado da vida, da morte, da ética e da salvação não estão em minhas mãos.

Laín Entralgo (1908-2001) escreveu que “os seres humanos naturalmente esperam algo que não está em sua natureza”.

Penso que a grande ideia errada do subconsciente moderno foi acreditar que a ciência e a tecnologia nos salvariam.

A história nos mostra que não é esse o caso.

O progresso científico, econômico e político não trouxe consigo progresso pessoal.

As ideologias políticas são necessárias, mas não são a salvação. A economia é necessária, mas não é a salvação. A ciência é necessária, mas não salva.

05. O sentido da vida nos salva. Só Deus pode nos salvar

O sentido da vida não é um objeto, um produto vendido no supermercado ou na farmácia 24 horas (não existem comprimidos que curem a decepção e o desespero).

O sentido da vida pode ser entendido como a existência de algo – ou Alguém – pelo qual valha a pena continuar existindo.

O sentido da vida é Deus, o Ser. O horizonte está “além” das conquistas humanas.

Em seu discurso ao parlamento há alguns dias, Leão XIV disse que a Europa "perdeu suas raízes espirituais". É óbvio (se você quiser ver).

Rompemos a dimensão espiritual dos seres humanos. Simplesmente dizemos: os seres humanos não são espirituais, portanto, “o jogo se desenrola aqui, porque não estamos aqui nem existe nada além”.

Contudo, o anseio e a esperança da humanidade encontram sua plenitude na Transcendência, em Deus; no nosso caso, em Jesus Cristo. O objetivo da nossa esperança é a manhã da Páscoa, o Senhor ressuscitado. O sentido da vida é Deus.

06. Ex memoria, spes. A esperança se baseia na memória

Os resquícios da modernidade que ainda restam pensam em termos de futuro. A solução virá, a política mudará, a economia melhorará, a Igreja mudará com um papa mais progressista, etc.

Para o crente, a salvação é Cristo. A salvação é a lembrança sempre presente de Jesus Cristo. O sentido da vida e o objetivo da nossa esperança é Jesus Cristo.

07. Vamos transmitir significado, esperança e vida

Hoje, evangelizar pode significar transmitir a vida e o sentido da vida.

E isso é bom para a vida e para a transmissão do conhecimento, ainda que apenas para a higiene mental e, sobretudo, para a salvação.

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