A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo Mateus 10,26-33 que corresponde ao 12° domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico. O comentário é elaborado por Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.
Naquele tempo, disse Jesus a seus apóstolos: Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido. O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados! Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno! Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais. Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus.
Em várias ocasiões, Jesus diz aos discípulos e a toda a comunidade: “Não tenham medo”. Talvez o medo de serem perseguidos e enviados para a prisão para serem condenados por se terem oposto ao Império Romano e sofrerem as consequências que vários cristãos já haviam enfrentado. Medo porque suas ações iam contra o que «deveria ser» segundo os romanos e segundo o judaísmo que havia condenado Jesus. Medo de serem denunciados por fazerem reuniões em segredo para partilhar a palavra e a mesa, e ainda medo de serem desamparados pela família por terem escolhido esse caminho, já que isso os colocava em perigo.
O medo muitas vezes paralisa, gera insegurança e desconfiança. Jesus não quer que as comunidades de discípulos vivam com medo e nos apresenta o rosto de um Deus que liberta, que cuida de cada um de seus filhos, que não os deixa à mercê do império do momento. É um convite à confiança, a seguir o caminho empreendido com a certeza de um Deus Pai que cuida de nós e está sempre ao lado. As comunidades se sentiam frágeis e estavam conscientes de sua vulnerabilidade. Eram um pequeno grupo, mas a atração por Jesus, a sensação de que Ele estava ao seu lado, as impulsionava a seguir em frente, a não abandonar o caminho. Todos sabiam das ameaças que enfrentavam e, por isso, as palavras de Jesus procuram consolá-los nesses momentos difíceis. São comunidades que vivem em tensão e, entre si, precisam se apoiar mutuamente para manter acesa a chama da esperança.
Quais são os nossos medos? Hoje não vivemos sob ameaças “visíveis” por seguirmos Jesus, mas talvez possamos nos perguntar se estamos levando adiante o compromisso que Ele nos convida a viver como seus discípulos, na realidade que nos toca. É um tempo marcado pelo individualismo, onde cada pessoa é incentivada a buscar apenas seus próprios interesses e a proteger sua esfera privada. É uma lógica que fragmenta os vínculos e torna difícil a construção da fraternidade, pois o outro é visto mais como concorrente do que como irmão. Ao mesmo tempo, o consumismo se impõe como promessa de felicidade: compramos, acumulamos, descartamos, acreditando que a plenitude virá do que possuímos.
A fé cristã nos convida a olhar além dessa lógica. Jesus nos mostra que a vida verdadeira não se encontra no isolamento nem na acumulação, mas na partilha e no cuidado mútuo. A fraternidade não é um ideal distante, mas um chamado concreto: reconhecer no outro um irmão, especialmente nos mais frágeis e esquecidos. O Evangelho nos desafia a romper com a cultura do consumo e a redescobrir a simplicidade, a gratuidade e a comunhão. É nesse caminho que se revela a esperança: um mundo onde o “eu” se abre ao “nós”, e onde a vida não se mede pelo que se tem, mas pelo amor que se oferece. Neste contexto somos chamados a defender a dignidade de toda pessoa humana.
Na sua recente visita nas Ilhas Canárias o Papa Leão foi muito claro e explicito: "A Europa não pode proclamar a dignidade humana e se acostumar a que o Mediterrâneo e o Atlântico sejam cemitérios sem lápides". Mais adiante enfatizou a inconsistência moral porque ser um verdadeiro cristão implica acolher estrangeiros sem questionamentos. Ajoelhamo-nos diante do altar (...), portanto não podemos fechar os olhos aos barcos que chegam ao país”. “A Igreja não pode fechar os olhos para estas águas nem para qualquer lugar onde a fome, a sede, a violência, o medo ou o exílio continuam a ferir a dignidade humana. Os discípulos de Jesus não podem ignorar o clamor daqueles que clamam na noite”.
Não ter medo de ser diferente, de demonstrar, com atitudes e palavras, que todo ser humano, desde o momento exato de sua concepção, possui uma dignidade inviolável; que não é apenas mais um número que se inclui na contagem de vítimas quando se fala de guerra, de migrantes, de crianças desnutridas, nem faz parte de uma realidade à qual, infelizmente, nos acostumamos. O cristianismo convida a sair desse aparente bem-estar que a sociedade oferece para complicar a vida maravilhosamente, como dizia o Papa Francisco na Evangelii gaudium: “Jesus [...] quer que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais e comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contato com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura. Quando o fazemos, a vida complica-se sempre maravilhosamente e vivemos a intensa experiência de ser povo, a experiência de pertencer a um povo” (EG, 270).
Nos deixamos interpelar pelas palavras do Evangelho, que nos convidam a não ter medo de viver um cristianismo comprometido. Esse compromisso não se reduz a práticas individuais, mas se abre ao encontro com quem está ao nosso lado, reconhecendo nele um irmão. Seguir Jesus significa assumir a responsabilidade de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna, onde a dignidade de cada pessoa seja respeitada e onde a solidariedade prevaleça sobre o egoísmo. O Evangelho nos chama a sair da indiferença e a transformar nossas relações em sinais vivos de esperança e comunhão. Assim, a fé se torna caminho de coragem e serviço: coragem para enfrentar as forças que dividem e desumanizam, e serviço que gera fraternidade e justiça.
Oração
Primazia dos últimos
Te foi dito:
Sê sempre o primeiro.
Tira as melhores notas
na escola,
e rompe com teu peito
a faixa de tua meta
em toda competição.
Que não vejas a ninguém
diante de teus passos
nem se sentem à tua frente
nos banquetes.
assombra a todos os amigos
luzindo o último invento,
brinquedos caros de adulto
para despistar o tédio.
que apenas o degrau mais alto
seja o lugar de teu descanso.
Mas A Palavra diz:
Sente o olhar de Deus
pousar-se sobre ti,
porque ele alenta
possibilidades infinitas
em teu mistério.
Desdobra-te todo inteiro
sem travas que te amarrem,
nem medo dentro de ti,
nem os rumores na rua,
nem a cobiça do investidor,
nem as ameaças dos donos.
E não temas sentar-te
em uma cadeira pequena
com os últimos do povo.
Ali encontrarás a alegria
de criar com o pai
liberdade e vida para todos
sem a escravidão de exibir
um certificado e excelência.
Na hora de criar o Reino
os últimos deste mundo
podem ser os primeiros.
Benjamin Gonzalez Buelta
Para sentir e saborear as coisas internamente